A saga do bigode grosso

 

 

Barbudo Henfil,

Por aqui a gente está com as barbas de molho porque é ano eleitoral e se a gente descuida os nossos benfeitores assumem os cargos públicos e depois desviam as verbas de programas sociais bem debaixo dos nossos narizes e bigodes.

Outro dia (não faz muito, meados de 2013) o apresentador de um telejornal noticiou a compra de alguns pares de tênis para os alunos da rede municipal de São Paulo – ótimo, os alunos devidamente calçados, uniformizados, os pais felizes e a educação em primeiro plano.

Parece que o plano era distribuir pares de tênis novos para os alunos – uma mãe denunciou que o pé esquerdo era maior que o direito (ou o contrário) e que os calçados estavam fora dos padrões exigidos pela Secretaria Municipal de Educação.

O plano era efetuar uma compra mais em conta e assim foi feito, ou seja, a compra foi dividida em parcelas – a primeira foi uma bagatela de seis milhões de reais e a outra…

Por algum motivo o Ministério Público não concordou com o valor pago e cancelou o pagamento da segunda parcela. Não entendi o motivo. Calçados com um acabamento impecável, cores desbotadamente bem definidas, conforto total para os pés das crianças.

O secretário municipal de Educação de São Paulo (que tem barba e bigode grosso) disse que houve uma falha porque ninguém conferiu a mercadoria, quando chegou de Minas Gerais. É algo lógico. Como alguém vai conferir centenas de pares de tênis? Vai calçar um por um? Depois a vida é assim mesmo e vale o dito popular: “Sapato que calça um pé aperta o outro”.

Em 2014 a conversa é outra e a Prefeitura de São Paulo decidiu diminuir a quantidade de itens de um kit escolar distribuído para os alunos. Que bom! Talvez fosse melhor que os pais tivessem um salário digno e pudessem comprar o material escolar de seus filhos. O que é enviado às escolas é de qualidade bastante duvidosa e diante da relação de muitos alunos com o conhecimento (poucos estudantes do ensino fundamental 2 demonstram algum compromisso com os estudos), a distribuição não faz nenhum sentido.

Infelizmente a realidade é que as folhas de caderno transformam-se em enormes bolas de papel (talvez seja o efeito da Copa do Mundo), com um impecável acabamento da cola fornecida no kit e, no caso dos uniformes, algumas peças vão parar na lata do lixo mesmo.

O problema não é a quantidade de canetas coloridas – o problema é que desde 1996 o sistema educacional adotado vendeu a falsa ideia de que os alunos com dificuldade teriam aulas de reforço a fim de que fossem superadas possíveis defasagens de aprendizagem, mas o que se vê historicamente é o aparecimento dos analfabetos funcionais.

Os alunos são indicados às aulas de reforço, mas não comparecem. Os pais (a maioria) não acompanham a vida escolar dos filhos (lembrete: os pais foram formados pela progressão continuada ou aprovação automática) e a escola fica de mãos atadas.

Mas já pensou se o trabalhador começa a comparar o seu salário, a exigir uma educação de qualidade, se o professor decidir questionar suas condições de trabalho e o médico de hospital público exigir uma estrutura digna para atender seus pacientes? Será o caos! O apocalipse!

Por enquanto o povo não precisa pensar e realizar atividades intelectuais mais complexas. O povo tem de ser povo e o pessoal do bigode grosso toma conta de tudo e de todos. Foi assim na época do “sapo barbudo” (apelido gentilmente oferecido por um adversário político), o homem do bigode maranhense e o presidente-atleta, que tinha um hematoma entre as pernas (como ele mesmo disse) e provavelmente um bigode sobre o arroxeado.

Cada vez que o povo se manifesta surgem problemas de interpretação. Recentemente um rapaz ligado ao funk definiu da seguinte forma a expressão bigode grosso: “É uma pessoa firmeza, que fala a verdade, uma pessoa honesta”.

Pronto. Não há mais dúvida. Somos governados por uma porção de gente de bigode grosso. Gente de confiança – gente prevenida – visionária mesmo. Gente que deposita dinheiro no exterior já pensando no valor da fiança.


Jornalirista

*Desde agosto de 2010, Sílvio Valentin Liorbano, escritor e professor de português da rede pública de São Paulo, vem escrevendo cartas ao Henfil (1944-1988), o cartunista e escritor que ousou ironizar e satirizar a ditadura civil-militar (1964-1985), escrevendo, entre outros textos, cartas a sua mãe, publicadas nos jornais.

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