A seleção do Zangado

 

Estamos em época de Copa do Mundo e na África do Sul o povo de Soweto (bairro sofrido da cidade de Johanesburgo) comemorou e comemora a presença da Seleção Zangada de futebol. E pensar que uma partida de futebol (pergunte ao Rei Pelé e aos meninos africanos) se joga até com bola de meia e os jogadores da Seleção estão possessos com a leveza da Jabulani.

Mas a população invadiu o Dobsonville Stadium, local de treino da seleção em Soweto, e fez até o técnico Zangado sorrir. Os jogadores também foram contagiados pela euforia de uma população que canta e dança a conquista de algo mais importante do que uma Copa do Mundo: a liberdade.

Ainda há tempo para assistir ao filme Sarafina, de Darell Roodt, na concentração e assim mostrar aos jogadores que existem outras lutas que foram e estão por ser travadas. Que ninguém acredite que um torneio de futebol ou a presença de algumas delegações de jogadores supere a história de um povo.

O técnico Zangado já disse em solo brasileiro (em entrevista antiga) que o povo deveria ficar mais preocupado com os políticos que com as saídas noturnas dos jogadores de futebol. Concordo com ele e penso que nem todo mundo gosta de sexo, sorvete, mulher, política e futebol.

Porém, tem gente que ama o time do coração e fica decepcionado quando o jogador troca de uniforme como quem troca de roupa íntima. Acho que o torcedor pega no pé do jogador porque acredita que ele pode mudar sua postura e ser mais profissional (como você zangadamente argumenta), mas já os políticos… Quanta dúvida.

Talvez seja importante ficar de olho nos políticos e também na delegação de jogadores brasileiros que estão representando o Brasil (terra miscigenada e de tantos Sowetos) em uma competição mundial de futebol.

Só não podemos negar os pontos em comum entre a África do Sul e o nosso país: problemas fecundos de analfabetismo e muita gente à margem da dignidade. Apesar de tudo, estaremos de camisa amarela e bandeira em punho para torcer pelo selecionado brasileiro.

Por alguns dias esqueceremos a corrupção, as negociatas do futebol, o tráfico de drogas nas periferias e grandes centros do país, a falta de saneamento básico, a violência desenfreada, as enchentes e todas as mazelas brasileiras. “De repente é aquela corrente pra frente…”

Dizem que Pelé tinha a visão periférica extremamente aguçada e assim percebia, num piscar de olhos, tudo o que estava acontecendo ao seu redor. Quem sabe os jogadores e toda a comissão técnica percebam, num relance, quanto as pessoas estão felizes ao redor da Seleção de Futebol do Brasil.

Quem sabe o Brasil (os jogadores e todo o povo brasileiro) leia em manchetes garrafais:

SELEÇÃO CONQUISTA HEXA COM GOL DE PLACA: DOA TODA PREMIAÇÃO À POPULAÇÃO DE SOWETO

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