A sétima economia do mundo

 

Querido Henfil,

Já faz algum tempo… Mas foi com pesar e algum desgosto que decidi deixar o humor um pouquinho de lado. Convido você a sentar comigo na calçada em frente de casa (ao som da gaita de Milho aos pombos, do Zé Geraldo), para falar dos atropelos da modernidade.

É, meu amigo, o Brasil é a sétima economia do mundo – mas o que ontem era Febem hoje é Fundação Casa – o que um dia foi passeio hoje é cama – o que um dia foi criança hoje é pária – o que um dia foi barbárie hoje é notícia e notícia tem prazo de validade – dor amanhecida não serve.

É, meu amigo, o Brasil é a sétima economia do mundo – mas quem teve Rui Barbosa hoje tem esta corja – quem teve Sobral Pinto hoje duvida da justiça – quem teve Paulo Freire hoje tem progressão continuada – quem repudiou tabaco hoje tem crack.

É, meu amigo, o Brasil é a sétima economia do mundo – mas quem vive em condomínios de luxo pouco sabe das palafitas e favelas. Um corpo tomba baleado em Londres – um corpo tomba faminto na Etiópia – um corpo tomba após bombardeio em Jerusalém – um corpo tomba baleado no Rio de Janeiro e o Brasil é a sétima economia do mundo…

Alguém está sempre na mira da intolerância e da desigualdade social, enquanto as sociedades mantêm oratória voltada aos direitos humanos – ainda que tudo não passe de retórica vazia. Há homens públicos que expelem morte pelas ventas.

É, meu amigo, o Brasil é a sétima economia do mundo – mas que ninguém fique doente – que ninguém precise de médico – que ninguém necessite de leito no hospital – que ninguém cobre nada do infeliz que foi eleito para minimizar os problemas sociais e passa o mandato inteiro justificando o porquê do seu envolvimento com escândalos de toda natureza.

É, meu amigo, o Brasil é a sétima economia do mundo.

Jornalirista

 

6 comentários para “A sétima economia do mundo”

  1. Guilherme Azevedo

    Guilherme Azevedo

    Somos parceiros
    Olá, Julio, olá, Sílvio. Sou o Guilherme, editor do Jornalirismo. O Jornalirismo é um espaço para que as pessoas expressem suas ideias da forma mais livre possível. Acredito, sinceramente, que, após uma boa conversa, possamos nos entender e descobrir que temos muito mais coisas em comum que imaginávamos. É a tal comunidade de destino. Acredito que você, Julio, e você, Sílvio, tenham muitos pontos em comum. Todos têm o direito de contrariar e de se sentir contrariados. Apenas não podemos deixar de lado a gentileza, errar no tom. Torço para que, um dia, vocês dois sentem para um café e descubram que talvez sejam espelho um do outro. Abraços em vocês e muito obrigado por suas ideias.

  2. Sílvio Valentin Liorbano

    Caro leitor,

    Esqueci… Leia "Ilusões Perdidas" de Balzac

    Talvez seu conceito de "bom jornalismo" mude um pouco ou muito… Só respondo quando você ler.

    Continue com seu bom gosto. Jornalirista.

  3. Sílvio Valentin Liorbano

    Caro leitor
    Meu caro,

    Leia o texto com atenção… O artigo é também sobre o meu salário e talvez até sobre o seu…

    O que ontem era Febem hoje é Fundação Casa… Você leu? Dizem que 70% dos brasileiros não conseguem interpretar um texto.

    O texto fala sobre Paulo Freire (que valorizou os professores)- um educador. Você conhece o trabalho dele?

    O Brasil sofre com os mesmos problemas educacionais desde a época do Império. Você sabia?

    Não lamente por mim… Lamente pelos analfabetos e pela classe política (Federal, Estadual e Municipal).

    Mas continue com seu bom gosto. Leia o Jornalirsmo sempre. Imenso abraço do Sílvio.

  4. Julio Pacca

    Resposta ao Professor
    Caro Jornalirista! Não me interessa polemizar…

    Quando o público não está sob escrutínio público não tem significado. Torna-se privado. Eu realmente não sabia que me endereçava a um professor público, que estudou em escola pública, que me pergunta quanto ganha um professor público.

    Bem, eu não me referia à pessoa, mas sim às ideas. Realmente não penso que suas características socio-demográficas possam ser, necessariamente, nem pretexto nem desculpa para um bom ou mau texto.

    Mas não esperava que me perguntasse o que tenho feito em prol da educação? Nada: não sou professor! :).

    Apenas lamento que o professor que, aqui escreve com paixão e reitera que não ganha nada, me pergunte se sei quanto ele (um professor, mas ainda O professor que me escreve) ganha. Realmente não sei. Não acredito que era sobre o seu salário que se tratava o artigo. Se era, este "jornalirismo" se trata de veículo para reivindicação salarial. Deve haver outros caminhos de obter tais reivindicações, acredito eu…

    Um abraço de verdade e… público!

  5. Sílvio Valentin Liorbano

    Não sou jornalista. Fui aluno e hoje sou professor de escola pública. É só uma carta… Bom jornalismo?

    Nos grandes jornais????? Leia "Ilusões Perdidas" de Balzac. Ele aponta o jogo de interesses nos grandes jornais. Será apenas retórica?

    Tem gente que foge dos grandes jornais porque a verdade anda longe da pauta dos "jornalistas".

    Eu sou jornalirista… É outro olhar meu amigo. Não recebo nada… É por paixão… Sabe… Um certo sentimento esquecido pela mídia em geral.

    E por falar em educação (são mais de vinte anos em sala de aula) assunto que pouca gente entende, mas tem sempre uma opinião – tenho escrito livros com meninas da periferia. E você o que tem feito para melhorar os índices da educação?

    Você sabe quanto é o vale refeição dos professores do Estado? Você sabe quanto ganha um professor? Em que condições trabalha?

    Qual é a diferença entre a educação da época do Império e a educação praticada no século XXI?

    Nenhuma. Os professores primários eram escolhidos leigamente, o salário irrizório, o trabalho educacional não era reconhecido pela sociedade e logo que os professores conseguiam outra atividade – abandonavam imediatamente a carreira docente.

    E por falar em saúde… Alguém sabe o que é não ter conseguido fazer um tratamento dentário até os vinte anos de idade? Eu sei… Alguém sabe o que é passar necessidade? Eu sei… Alguém sabe o que é batalhar sozinho para terminar a faculdade de letras? Eu batalhei. Alguém sabe o que é passar necessidade? Eu sei.

    Estudei em uma modesta faculdade em Osasco – agradeço o pessoal do jornalirismo pelo espaço. Sou escritor de uma única editora (a única que abriu as portas para um professor de escola pública)e agradeço todos os dias pela oportunidade.

    Se você pertence ao meu mundo, meu caro, talvez faça algum sentido prolongar o assunto. Mais um toque… Se você é jornalista leia "As Aventuras de Alencar Almeida" e quem sabe você descubra que o bom jornalista é aquele não tem vontade própria.

    Não sou jornalista. Sou um modestíssimo jornalirista. Um abraço para o Henfil.

  6. Julio Pacca

    PIB?
    Realmente incrível! No passado era tão melhor, não é mesmo? Especialmente nos tempos do irmão Henfil e do irmão do Henfil.

    Não se tratam de economias. Trata-se de país e de políticas, e da capacidade do país em gerar políticas de inclusão e de crescimento com desenvolvimento. O ranking é apesar um marcador. A melhor, mas não definitiva medida, seria um IDH, um GINI ou de educação&saúde. E são nestes, meu caro, aonde o Brasil cresce de forma sustentável, crescente e consistente.

    De resto este artigo é retórico. Adoro retórica como recurso linguístico. Como análise, é mau jornalismo…

Comentário