A viagem lírica e social de Criolo

 

O que tem o novo álbum do Criolo? Tem rap? Tem. Tem reggae? Tem. Tem samba? Tem. Tem baião? Eita, se tem. Tem poesia? Da melhor qualidade. Tem crítica social? Para manifestante nenhum colocar defeito.

 

Vamos começar do começo?

 

Kleber Cavalcante Gomes, depois Criolo Doido e hoje Criolo, nascido a 5 de setembro de 1975 e criado no Grajaú, bairro da periferia da Zona Sul de São Paulo. Começou a cantar rap em 1989 e foi um dos criadores e difusores da rinha de MCs, as famosas batalhas de improviso (free style) entre rappers, exposições com arte de rua e muita gente boa reunida pela poesia. Sim, porque, na tradução literal, rap significa rhythm and poetry, ou seja, ritmo e poesia.

 

Entre 1994 e 2000, Criolo trabalhou como professor e mantinha a carreira de cantor e compositor em paralelo. Talvez daí tenha extraído tanta propriedade para cantar a favor da classe dos professores.

 

Em 2006, lançou seu primeiro álbum de estúdio, intitulado Ainda há tempo, sem grande repercussão. Um trabalho repleto de batidas pesadas e letras um tanto desconexas. Mas, em 2011, veio o disco Nó na orelha, que o transportou para o grupo dos grandes artistas que utilizam a música para questionar a sociedade.

 

E, este ano, pouco mais de três anos depois de ficar conhecido como o cantor de “Não existe amor em SP”, Criolo lança Convoque seu Buda, o novo álbum. É aí que ele (com)prova todo o talento que possui. É neste que ele atesta a ausência de barreiras, alargando horizontes. O que, de fato, é espetacular.

 

Capa do novo álbum de Criolo. Com direção de arte de
Denis Cisma e projeto gráfico de Lucas Rampazzo.
Capa faz colagem de imagens do museu holandês Rijksmuseum

Com meu Buda na garupa

Terça-feira, oito horas da manhã e eu estou pronta para sair a mais um dia de trabalho duro. Coloco o álbum do Criolo para rodar no meu celular, ponho a capa de chuva e subo na minha motoca rumo à Marginal Pinheiros, Zona Oeste da capital paulista. Começa, então, uma viagem sem volta para um universo que une música, raízes e poesia social.

 

Cada música do trabalho aborda algo que macula nossa sociedade. Jovens que se perdem em busca de drogas, que vendem a alma por um status utópico-social. Pais que querem apenas ter e esquecem de ensinar aos filhos princípios éticos e morais. Saindo do ambiente familiar, seguimos à cidade e para todas as manifestações sociais, greves, divisões… Quanto mais se deseja evoluir, mais se declina a uma derrota.

 

Tudo isso dá para extrair de um álbum que, além de músicas, tem é muita crítica social também, feita da melhor maneira. Porque nada melhor do que questionar os erros do sistema fazendo arte. E foi exatamente isso que ele fez.

 

Criolo uniu diversos estilos e cada música parece ter sido trabalhada para sair perfeita. Saiu. “Duas de Cinco”, faixa de número nove, ainda foi além: virou curta-metragem também, ambientado num Grajaú futurista, no ano de 2044.

 

Veja aqui os curtas “Duas de Cinco” e “Cóccix-ência”, ambos com composição de Criolo e direção de Cisma, com produção da Paranoid:

 

O novo trabalho de Criolo foi produzido por fiéis parceiros de estrada: Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral. Conta com participações de Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Tulipa Ruiz, Neto (do grupo Síntese) e Rodrigo Campos.

 

Um compromisso histórico

Não é de hoje que artistas utilizam a voz para questionar as mazelas da sociedade. Até parece que Criolo se inspirou um tanto no Caetano Veloso de fins dos anos 60, de canções como “Alegria, alegria”. Claro que o ritmo é diferente, as misturas de instrumentos, também, mas a semelhança existe. Existe demais e isso dá até orgulho. Parece uma herança social que não morreu e é justamente ela que vai mudar alguma coisa.

 

Em outro momento do álbum, é possível perceber fortes influências da cultura africana, num sincretismo lírico-religioso. Criolo cita, em algumas canções, entidades africanas como verdadeiros protetores dos que desejam sobressair à hipocrisia em que vivemos. Também não é de menos importância lembrar do título (e da faixa-título), que alude diretamente à figura mítico-religiosa do Buda, e a proposta de um caminho de libertação e iluminação para todos.

 

Tem ainda aquela leve ideia de que Criolo ouvia, e muito, Bezerra da Silva. E isso é nítido no sambinha que, além de dar uma vontadinha de dançar, tem como universo principal as greves de ônibus, comuns em São Paulo.

 

Para mim, enfim, o disco reafirma a maturidade e a coragem de Criolo, que não se prende a amarras musicais e sabe que o mundo é mais além. Não há o que criticar, apenas elogiar em Convoque seu Buda.

 

Clique aqui, baixe, curta e entenda o papel e a importância social de “Convoque seu Buda”.

 

Ou ouça aqui embaixo:

 

3 comentários para “A viagem lírica e social de Criolo”

  1. Dandan

    "( procurar emprego a pé por não ter o dinheiro da condução é foda. ) Vários vão pro saco, na vala não tem vaga, O criolo aqui é doido e não aceita mancada. O que penso familia, ainda nela acredito,
    Deus abençoe meus pais e fortifique meu espírito."

    Essa é do trabalho com "batidas pesadas e letras um tanto desconexas"…

    Qual a crítica social de "nó na orelha"? Que não existe amor em SP? Ora, vá!

    Texto coxinha sobre um cara que virou coxinha.

  2. Deivs Mello

    Gostei da crítica, acabei de ouvir uma dele com parceria de Tom Zé chamada "Banca de Jornal" e agora fiquei ansioso por esse novo projeto, logo mais vou apertar o play.

  3. Emmanuele Calisto

    Emmanuele Calisto

    Colocar um CD inteiro pra tocar? Não, eu nunca fiz. Porém, esse CD do Criolo me fez mudar de ideia. A rima, a mistura, a crítica e todo o resto, tornaram essa obra perfeita!

    Ótima crítica!

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