A viagem que não termina

Gente, tudo bem? Todos prontos para uma aula cheia de suspense e mistérios? Então, preparem-se, que a aula de hoje vai ser sobre as carrancas do rio São Francisco, uma manifestação cultural, mítica, mágica e muito misteriosa do Brasil. Credo, Prô, precisa arregalar os olhos assim?… As carrancas nasceram e se desenvolveram às margens e nas próprias águas do rio São Francisco, considerado o rio da integração nacional por ligar o Sudeste e o Centro-Oeste ao Nordeste do Brasil. Especificamente, essa manifestação mágica surgiu no trecho médio do São Francisco, uma fatia navegável do rio de mais ou menos 1.300 quilômetros, entre Pirapora, em Minas Gerais, e Juazeiro, na Bahia. Algum de vocês já ouviu falar das carrancas, já viu uma carranca bem de pertinho? São seres donos de poderes mágicos, constituídos apenas de grande cabeça e longo pescoço, que protegiam os remeiros das barcas do rio São Francisco contra maus espíritos e perigos de naufrágio. Ficavam fixadas nas proas, a parte dianteira das embarcações, para não perder nenhum detalhe e abrir o caminho. Os antigos diziam que a carranca dava três gemidos para avisar de um perigo iminente, que poderia afundar a barca. Carranca: sabe quando o pai da gente faz aquela cara de bravo, parece que vai explodir de tanta raiva e a gente diz que ele está carrancudo? Pois é: a carranca tinha muitas vezes essa carantonha terrível, olhos grandes assim, com lábios bem grossos e dentes muito grandes e afiados assim, ai, Prô!, ora com cara de gente, ora com cara de bicho, ora com a cara dos dois ao mesmo tempo… Para, Prô, para… Pois é, era assim para espantar coisa ruim. Então, vamos subir hoje numa barca e navegar pelo médio São Francisco, para conhecer essa história única da humanidade. E também a história de Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, o Mestre Guarany, maior escultor de carrancas do mundo! Vamos! Navegar é preciso, navegar é mágico! Ai, Prô, que medo! Coragem, vamos!

E todos ali na sala foram ganhando grande cabeça, longos pescoço e cabeleira, grandes olhos esbugalhados, lábios protuberantes, dentes acerados prontos a morder à medida que a barca avança…

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Um respeito solene emerge ao observarmos pela primeira vez, admirados, contentes, essas figuras sobreviventes, míticas e heroicas. Quantas águas, quantas gentes, quantos mistérios navegados, Prô! São figuras com formas de gente, de animais, dos dois juntos e misturados, seres fantásticos, esculpidas em troncos de cedro que carregam hoje os vincos e impressões inelutáveis de tempo, já há quantos anos? Sessenta? Setenta? Oitenta? Noventa? Cem? Já desgastadas, já esboroadas, já quebradiças, já sem pintura, já sem penacho, já sem barca para guiar e proteger, já sem rio. Mas de cabeça erguida, ainda e sempre, com a indelével dignidade daqueles que viveram uma existência útil e boa. Que vontade de beijá-las e abraçá-las, de passar-lhes o braço pelo pescoço em laço, como se faz com um amigo querido. Viram e sabem muito dos mundos e falam silêncios recheados de sentidos eloquentes. Quem sabe calar aprende! Calamos, calados para conhecer com elas. Estão ouvindo?

A reverência a essas figuras mágicas se amplifica com a presença, bem ao lado, das fotografias em preto e branco que as revelam em atividade, como quando descobrimos e admiramos álbuns de fotografias da juventude de parentes que só conhecemos quando velhos. Então eram assim? Fizeram isso? Olha que incrível. Quanto orgulho. As fotografias belas e precisas do fotógrafo francês Marcel Gautherot (Paris, 1910; Rio de Janeiro, 1996), feitas em viagem pelo rio São Francisco e litoral da Bahia em 1946, têm o poder de nos revelar o outro, em perspectiva histórica. Aqui você, hoje; aqui você, ontem.

 

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Uma das imagens do ensaio de Marcel Gautherot sobre as carrancas, exibida na Pinacoteca

 

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A carranca de Francisco Biquiba fotografada por Gautherot, hoje

 

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Essência da mostra “A viagem das carrancas”, em cartaz até 18 de outubro na Pinacoteca do Estado de São Paulo, na capital paulista. Reúne 41 carrancas, ou figuras de proa ou figuras de barca, como foram inicialmente denominadas, e a série fotográfica de Gautherot, com 42 imagens. Em sua maioria são carrancas navegadas, isto é, foram originalmente criadas para as proas das embarcações do médio São Francisco e cumpriram, ao longo dos anos, funções místicas e mágicas, espantando maus espíritos das águas, como creram seus remeiros e a população local, e também decorativas, como chamariz e diferencial comercial das embarcações.

O mestre

Segundo Paulo Pardal (Prô, ele também é pássaro? Homem-pássaro?), um dos principais estudiosos das carrancas no Brasil, autor do livro Carrancas do São Francisco, publicado resumidamente em 1979 como volume de número 29 da coleção Cadernos de Folclore, da Funarte, a fabricação inaugural das carrancas no médio São Francisco tem um tempo e um lugar localizáveis: o último quarto do século XIX e a região de Santa Maria da Vitória (BA), polo de construção das barcas. O grande artista na confecção das carrancas foi um homem de nome um pouco estranho, misterioso, enigmático: Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, nascido a 2 de abril de 1882, em Santa Maria da Vitória, então um vilarejo, filho de Cornélio Biquiba dy Lafuente e Marcelina do Espírito Santo. Neto de barqueiro, filho de construtor de barcas, descendente de branco europeu (espanhol), índio e negro africano. Franciscos, o rio, o homem e o santo se confundem.

 

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O mestre Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, em sua oficina em Santa Maria da Vitória (BA)

 

Trabalhava sobre troncos inteiriços de cedro, a madeira também empregada na construção das embarcações, sem fazer emendas, encaixes, como peça única. Fora primeiro imaginário, isto é, escultor de imagens de santos, atividade que teria abandonado porque lhe pagava pouco mas formou-o artisticamente segundo a tradição ibérica. Dá à água a primeira carranca aos 17 anos, na primeira década do século 20. E produziria seguidamente até meados de 1940, quando a navegação pelo rio sofre substanciais mudanças legais, trabalhistas e tecnológicas, que aposentam as antigas barcas e seus remeiros com seus longos varejões. Esses homens, dedicados e fortes, trabalhavam assim, às vezes mais de uma dúzia deles numa mesma embarcação: fincavam a extremidade de baixo do varejão no leito do rio e cravavam a de cima no peito nu (criando calosidade) e, ao caminhar sobre a barca como quem anda sobre uma esteira de academia, faziam avançar pelas águas as barcas carregadas de mercadorias. Com as transformações, entre elas, a introdução do motor, encerra-se praticamente o ciclo das carrancas navegadas. Entretanto, em meados da década de 1950, Francisco volta a esculpir carrancas, agora por encomenda de colecionadores de arte e, portanto, distante de sua função original. Essas são as chamadas carrancas não navegadas, que se sustentam sozinhas sobre as superfícies e ganham assinatura e nome pela primeira vez. Na mostra da Pinacoteca há também carrancas dessa fase do artista, entre elas, Capelobo, índio que vira lobisomem.

Na fase final da vida de Francisco (como viveu esse homem obstinado e criativo, só transpondo o outro rio aos 103 anos, no dia 5 de maio de 1985, onde nasceu), mostrava a calva avantajada e as têmporas grisalhas, a face acobreada, o semblante sério, o corpo esguio e miúdo. Era também o lastro moral de seu lugar, onde atuou durante décadas como juiz de paz, discursando em casamentos. Ele mesmo navega a memória em busca das origens do ofício e de seus fins, em depoimento integrante de As carrancas do São Francisco, documentário de Júlio Heilbron, filmado em 1974: “Antigamente as barcas era batizada. Os padre vinha, batizava a barca. E diziam que quando tinha causa de perigo, ameaça de perigo, de naufrágio, a carranca dava três gemido, mas isto é a lenda, não acredito que fosse verdade, não. Mas o que era certeza era que espantava as fera do rio, o Nego d’Água, o Caboclo d’Água, o Minhocão. Hoje, com os motores das embarcação, o barulho dos motores, afugentaram essas feras do rio, hoje o rio não tem mais aquelas feras que tinha antigamente”. A transformação tecnológica espanta a imaginação daquele modo, daquele lugar.

Originalidade

Do ponto de vista da importância histórica e artística, posiciona o estudioso Paulo Pardal em Carrancas do São Francisco, as carrancas zooantropomorfas (em forma de animal e de gente) do médio São Francisco “constituem exemplo único no mundo de esculturas de proa” e “daí sua originalidade” (p. 3 e 4). Francisco Biquiba acompanha uma tradição já existente de feitura de carranca de proa, mas cabe a ele a introdução da cabeleira abundante em suas figuras, esculpida ora em ondas, ora em cordas, característica que singulariza sua produção. Segundo muitas testemunhas de época, Mestre Guarany foi o único profissional das carrancas, com produção regular, e elevou a atividade a outro patamar de excelência artística, consequência de sua engenhosidade e imaginação criadora. Uma espécie de Aleijadinho, o gênio barroco das igrejas e santos das Minas Gerais, do Brasil Colônia, mas nascido à beira-rio, séculos mais tarde.

Ah, Prô, acho que agora entendi: apesar de testemunhas de um passado já distante, de gente que já embarcou para os rios lá do céu e lá das outras terras, as carrancas ainda nos comunicam e nos avisam de algo que não morre nunca, não é? Uma viagem que nunca termina. Pois eu queria é colocar uma dessas, em miniatura, sobre a minha cabeça e sair por aí confiante do bom futuro, afastando gente ruim, espírito ruim do caminho e deixando o caminho livre para a imaginação, para o amor, para uma vida melhor para todos. Esses demônios eram muito do bem, Prô! #franciscobiquibaeterno #carrancasdosaofranciscoforever

Era bem nisso que eu estava pensando agorinha também.

 

Para viajar mais:

  • Exposição. “A viagem das carrancas”, primeiro andar da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Curadoria de Lorenzo Mammì. Até 18 de outubro. Saiba mais clicando aqui.
  • Pardal, Paulo. Carrancas do São Francisco. Rio de Janeiro: Funarte, 1979. Livreto de 32 páginas é boa introdução ao tema. Resume livro do autor sobre as carrancas, também intitulado Carrancas do São Francisco.
  • Internet, museu e oficina. Memorial Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany. Reúne documentos, textos, fotos do artista e produção de seus continuadores, com oficinas para crianças. Conheça clicando aqui.
  • Documentário. As carrancas do São Francisco, de Júlio Heilbron, 1974. Clique e assista aqui. 
  • Acervo Marcel Gautherot. Obra foi adquirida pelo Instituto Moreira Salles. Veja mais clicando aqui. 

 

 

Imagens: Destaque: Fotomontagem com foto de Marcel Gautherot e da exposição na Pinacoteca; Imagens exposição Pinacoteca: Jornalirismo; Foto carranca no São Francisco: Marcel Gautherot; Foto Francisco Biquiba: Memorial Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany

 

Um comentário para “A viagem que não termina”

  1. Ingrid Francini

    Ingrid Francini

    Lindo texto! Viva as carrancas. Que vontade de navegar por outras esferas. Parabéns, amore. Ficou ótimo! 👏😘❤️

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