A vida das formigas

O assunto talvez seja bobo, mas confesso que foi com espanto que as descobri.
O local desta história me é bem familiar: o Centro Municipal de Campismo, em Cotia, Grande São Paulo.
Conheço-o desde minha infância, desde meus dias de Escola Mutirão, que, aliás, fica ali bem perto, até hoje. Tanto um quanto o outro perduram no tempo. Acampávamos com a escola no Cemucam, como é chamado.
Ficou na minha memória como recanto de boas memórias, de noites festivas maldormidas em barracas de dois lugares, enfiado num duro saco de dormir, de atividades e brincadeiras à sombra das árvores, da interdição, para mim, do banheiro. Nunca pude, longe de casa, fazer aquelas coisas que você bem sabe. Então ficava, por todo tempo de duração do acampamento, três, quatro dias, cinco dias, seis dias, ufa, sem me aliviar.
Voltei ao Cemucam dias atrás e a ele tenho recorrido, em busca de uma tranquilidade que me anda muito em falta. Quem sabe não me encontrasse outra vez por ali e puxasse conversa, a fim de saber o que aquele menino queria mesmo ser, quando crescesse; talvez tivesse se não uma saída, ao menos uma palavra de estímulo ou conselho para o homem feito de hoje.
Gosto da solidão dos parques, dos caminhos umbrosos, do sol rarefeito através dos bambuzais recurvos, das cavidades úmidas, de águas salobras, com uma nata mineral na superfície, no baixio do terreno. Têm ressonância em mim. Lirismo vegetal.
Gosto também de admirar a dignidade solene de certas árvores. Há muitas aqui, principalmente paineiras. Espichadas, nuas de folhas nessa época do ano, com seus troncos grossos, recobertos de grandes espinhos. E frutos escuros que despencam e arrebentam no chão, despejando a paina felpuda e branca, semelhante ao algodão, pelo gramado verde. Sempre gostei muito de paina, desde criança, no Mutirão.
Pois foi exatamente perto de uma dessas paineiras que vi marchar um tropel de formigas. Atravessavam a pista de terra sem aguardar semáforo. Levavam no lombo miríades de folhas verde-claras cortadas, angulosas, como velas balançando no mar. Dezenas iam, outras dezenas vinham, numa marcha silenciosa, compenetrada, as formigas não dialogam enquanto trabalham.
Acompanhei-as com os olhos até o local do destino: uma fenda estreita na terra, além da cerca, porta de entrada do formigueiro. Depois caminhei na direção oposta, descobrir de onde vinham.
Mas algo ali me chamara a atenção, logo de saída: havia folhas verdes de paineira no chão, e não havia vento. Folhas estavam ali, na relva, caídas sem se esparramar. Fui até lá e percebi que as formigas trabalhavam com firmeza: cortavam as folhas grandes em pedaços menores, jogando-as no lombo, e retornavam.
Havia formigas de duas espécies, distingui: umas menores, escuras, quase negras; outras maiores, avermelhadas. Essas últimas conduziam um largo alicate na fronte, o instrumento de corte que a natureza sabiamente lhes deu.
Segui meu caminho, de costume. E, ao me deparar outra vez com as infatigáveis formigas, naquele ponto exato, notei que havia ainda mais folhas verdes caídas, agora em outro lugar. E não ventara.
Formulei a hipótese e fui conferir sua validade, para minha surpresa e (quase) alegria: sim, um tropel de formigas subia e descia pelo tronco espinhento da paineira.
Eram aquelas avermelhadas, graúdas, pois, que subiam pela árvore e lá em cima iam talhando as folhas, para as outras formigas, no solo, irem cortando e carregando para o formigueiro.
Espantoso. Absolutamente incrível.
Sei que sou um bobo da cidade com algumas poucas tintas rurais. Mas, para mim, essa descoberta foi assim digna de Charles Darwin. As formigas executavam um plano audacioso e eficiente pelo sustento, com divisão sofisticadíssima de trabalho, segundo os talentos disponíveis. Gestão empresarial ultramoderna, melhor que em muita empresa. E é mentira que a formiga não trabalhe no inverno, sou testemunha ocular; elas não param nunca, diacho.
Talvez seja exatamente por isso que passar por ali, agora, me estremeça, num alvoroço pouco sutil. Seguro de mim, pego-me olhando de lado, furtivo, a qualquer buliço no mato, o menor farfalhar de folhas.
Era o trabalho brutal e violento da vida, a voracidade da necessidade de subsistência básica, explícita, ali. E eu que já não sei muito bem por onde começar nesse outro formigueiro, daqui.

8 comentários para “A vida das formigas”

  1. Esther Gonçalves

    Formigas metropolitanas?

    Lembrei da infância repleta de formigueiros. Eu dava uma forcinha com as folhas e insistia em cirurgias mágicas que aceleravam a produtividade. Sem lupa.

    Muito bom, Gui!

  2. Carol

    Crianças e Formigas
    Guilherme, ainda outro dia descobri que crianças não olham mais para o chão. Peguei uma lanterna velha, grudei uma querida pela mãozinha, e passamos horas correndo atrás de trilhas de formigas no parque. Beijos!

  3. Juvenal Azevedo

    O menino de ontem e o de hoje (2)
    Era sobre eu, muito pequeno (tanto que minha mãe ainda estava viva), sentado na porta da cozinha para o quintal, com o imenso martelo na mão, liquidando meticulosamente cada formiga que passava em sua interminável fila indiana carregando pedacinhos de folhas. E me lembro bem do ruído que cada martelada produzia: plec, plec, plec…
    Um dia, certamente, serei levado a julgamento num pleno de formigas mas, desde já, confesso: não tenho atenuantes para o nefando comportamento, a não ser a inconscIência dos meus quatro ou cinco anos. Mas quem nunca matou formigas que atire a primeira pedra.

  4. Juvenal Azevedo

    O menino de hoje e o de ontem
    Tempos atrás, o Guilherme cogitou de fazer uma coletânea com histórias de quintal. E eu botei na cabeça contar uma história de eu-menino, no quintal da casa onde nasci, na rua Tobias Barreto, 1402, no Belenzinho (por sinal, foi num remoto dia 14/02, na casa 1402, cujo significado dessa coincidência nunca consegui descobrir – se é que tem algum).
    Era outra história, também de formigas, mas a coincidência (eta, ferro,de novo!) para por aí.

  5. Eliane Brum

    vastos mundos invisíves
    Guilherme,
    que texto lindo sobre o quase invisível. Me fez pensar nos tantos pequenos vastos mundos e nós aqui, no nosso mundinho, se apequenando a cada dia pela incapacidade de enxergar… as formigas.
    Parabéns.
    um beijo
    Eliane, que se identifica com as formigas, mas tem inveja das cigarras

  6. Michele Prado

    Guilheme, quanta delicadeza e sabedoria ao transcrever o movimento da vida. O seu texto me trouxe lembranças de bolo de fubá às três da tarde e de cheiro de terra molhada do jardim da vó.

    Muito lindo!

  7. Shellah Avellar

    ora direis..olhar formigas…
    As formigas que me perdoem, mas se permitir ser cigarra às vezes, é fundamental..

  8. Shellah Avellar

    ora direis ,olhar formigas …
    Guilherme
    Você é mesmo surpreendente..Se supera a cada dia..Essa capacidade de se entregar de peito aberto ao seu destino … ainda que seja para se deixar ficar ali..ora direis..a observar formigas …as quais muito se assemelham mesmo ao povo paulistano , já que São Paulo não pode parar..São Paulo não pode parar ….não pode parar… não pode parar…não pode..não….
    Mas veja só…você teve a audácia de se permitir parar um pouco ,refletir ,sentir a brisa e o farfalhar das folhas e tentar um mergulho necessário nas cavernas do si mesmo…se permitiu ser cigarra ..para se observar melhor e ao universo que clamava pela sua atenção .
    As formigas lhe trouxeram para a realidade da dura rotina auto – imposta , que impulsiona o progresso (??) o sucesso(??) mas também massacra as pequenas traquinagens necessárias ao exercício do ócio criativo.
    As formigas que me perdoem, mas se permitir ser cigarra às vezes, é fundamental..

    abs kósmikos

Comentário