Abençoado por Jah

Aquele som mansinho que combina com praia, amigos, e fala de paz, de amor, de sossego e também de direitos humanos. Desde 1994 o reggae é comemorado mundialmente no dia 1º de julho, e oficialmente por meio do festival International Reggae Day (IRD), idealizado por Andrea Davis para realçar a importância dessa manifestação cultural originada na Jamaica. Alguns nomes do reggae já fazem parte justamente do panteão dos grandes artistas e músicos de todos os tempos: Bob Marley, Jimmy Cliff, Peter Tosh, Gregory Isaacs, Bunny Wailer, Sly e Robbie.

Hoje vamos dar uma volta pelo passado e conhecer o reggae desde a sua raiz até a influência que exerce hoje, aqui no Brasil. O pão Jah provém, não é mesmo?

 

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Jimmy Cliff é uma das vozes mais luminosas do reggae

 

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Poucos souberam falar de amor como Gregory Isaacs (15/7/1951-25/10/2010; clássicos românticos

 

O início

Os músicos jamaicanos começam a experimentar ao longo dos anos de 1950 e 1960 uma musicalidade nova, como uma colcha de retalhos de folk jamaicano, influências da África, calipso e ska. E assim o reggae se forma e se consolida no país e surgem nomes importantes, como Johnny Osbourne e Delroy Wilson, e bandas, como The Wailers e The Skatalites.

Mas não pense que tudo começou às mil maravilhas. Até porque as principais rádios se recusavam a tocar a música reggae, inclusive na própria Jamaica; afinal, as maiores emissoras de radiodifusão eram propriedade de brancos, que não queriam ver conteúdos musicais relacionados a questões sociais, lutas dos negros e problemas típicos de países pobres.

Em 1960 poucos eram os que conheciam estilos como o rock steady e o ska, considerados os precursores do reggae. Nesta época, o mundo estava paralisado, quer dizer, movimentado pelas canções dos Beatles. Até que, um dia, o estilo chegou aos ouvidos dos meninos de Liverpool. Eles se encantaram com a música reggae, chegaram inclusive a convidar músicos jamaicanos que moravam em Londres para ensiná-los a tocar ska.

Na mesma década, Robert Nesta Marley, o Bob, começava a despontar entre os hits de sucesso, com letras sobre paz e harmonia para um mundo devastado pela guerra e pela desigualdade. Assim o mundo começa a conhecer o reggae. A projeção internacional de Bob e da banda que o acompanhava, The Wailers, viria de fato a partir de 1973, quando o álbum Catch a Fire é lançado no Reino Unido pela Island Records.

 

 

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Capa de “Catch a Fire”, 1973: Marco da internacionalização do reggae

 

No Brasil

A palavra “reggae” foi proferida na música popular brasileira talvez pela primeira vez em 1972, por Caetano Veloso. Citava nominalmente, na música “Nine Out of Ten”, o estilo como um dos sons que ouvia em Portobello Road, endereço dos tempos de exílio do músico em Londres. Muito embora a alusão a reggae em “Nine Out of Ten” nada tivesse a ver com o que conhecemos como reggae.

O estilo foi chegando tímido e introvertido. Gilberto Gil tenta algumas experimentações em 1977, mas só despontou com um hit de reggae após gravar versão de “No Woman, No Cry”, que ganhou o mundo na voz de Bob Marley, fazendo também grande sucesso no Brasil. Em 1980 Gil vai à Jamaica para gravar “Vamos Fugir” com o The Wailers, a banda original de Bob.

Na década de 1980 o reggae jamaicano ganha as primeiras versões com influências de ritmos brasileiros, com criação de cantores, como Caetano Veloso e Djavan, que misturam o reggae a estilos como o afoxé, da Bahia.

Fato memorável na história é a cena de Bob Marley jogando futebol no campinho da casa de Chico Buarque no Rio de Janeiro, em março de 1980, junto com nomes como Toquinho. Até hoje, na antiga casa de Marley, que virou museu, pode-se ver a foto de Chico e Marley devidamente vestidos como jogadores de futebol abraçados no quarto de Bob. Como muitos sabem: Marley era fã de futebol.

 

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Bob Marley (6/2/1945-11/5/1981) e Chico Buarque: Paixão pela música e pelo futebol

 

São Luís, a Jamaica brasileira

Historiadores contam que o reggae chega a São Luís na década de 1970 por meio dos portos que ligam o Maranhão à Guiana Francesa. Os marinheiros da Guiana aportavam em São Luís com vários discos de bandas de reggae da Jamaica e Caribe para vender ou trocar por mercadorias entre os moradores da região.

Existe outra versão, que afirma que o reggae tenha se firmado em São Luís por causa do intercâmbio entre rádios clandestinas que se ligavam a outras rádios no Caribe e Jamaica. A música teria se popularizado na periferia da cidade justamente por tocar em diversas rádios da região.

O reggae tem forte influência em outras cidades brasileiras, como Belém e Fortaleza, mas nada se compara a São Luís. As casas de reggae maranhenses são conhecidas como radiolas e possuem uma assiduidade muito grande, tanto de moradores adeptos do estilo quanto de turistas. A forma com que se dança reggae no Maranhão é única: a dois, agarradinhos, de maneira sensual.

Dub, o reggae eletrônico

Na década de 1960, o reggae já recebia a influência de sintetizadores, remixagens de músicas e alguns efeitos sonoros. A tendência foi se solidificando com o passar das décadas e com o avanço de instrumentos tecnológicos.

Nasce então o dub, que basicamente é caracterizado por ênfase nas linhas de baixo e batidas de bateria, atreladas a efeitos como delay e reverberação. Uma mixagem psicodélica que deu uma nova roupagem ao reggae.

Este estilo foi apropriado por DJs em casas de reggae que fazem mixagens ao vivo. Muitos artistas brasileiros também se apropriaram do dub em algumas canções de bandas como Paralamas do Sucesso, Nação Zumbi e O Rappa.

Os principais difusores do dub no Brasil são as equipes de som denominadas Sound Systems, que são estruturas formadas por grandes caixas de som, painéis de mixagens para que os DJs possam se apresentar ao vivo em qualquer lugar. As Sound Systems têm se disseminado bastante entre os jovens das grandes capitais brasileiras, que seguem e apoiam as equipes, mantendo assim acesa a chama deste estilo, no som, no vestuário estilo reggae e na ideologia de paz e igualdade.

No dia do reggae a gente escuta e se mexe por um mundo melhor.

 

 

Imagem de destaque: Ultradownloads

Foto de Jimmy Cliff: Cena do filme The Harder They Come, de 1972

Foto de Gregory Isaacs: Mike Cameron/Redferns, 1980

Foto de Bob Marley e Chico Buarque: Luiz Pinto, 19/3/1980, Agência O Globo

 

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