Abençoai as hienas

 

Manos Henfil e Betinho,

Ouço “Paraíso das Hienas” na voz de Jessé e penso em quanto o ouvidinho da gente é maltratado com a fala de gente que se diz ligadíssima ao divino. Eles querem salvar as pessoas do mal. Eles querem e ocupam gabinetes em Brasília. Eles chamam Deus de você e já têm lugar garantido no céu.

 

Só fica uma dúvida: quem vai salvar a gente deles? Que pergunta mais besta, sô. Que pergunta mais ateia e tola. Eles têm o cajado de Moisés e basta que o ergam e o mar de miséria, corrupção e violência se abrirá diante de nossos olhares incrédulos.

 

A caminhada é longa, mas do outro lado das águas (prometem eles) o cervo pastará ao lado dos leões – acho que nós somos os cervos e eles, as feras, sempre a devorar nossa dignidade. Querem cuidar de nossa morada, das nossas escolas, do dinheiro público e das nossas almas. Trata-se de gente muito cuidadosa, mesmo.

 

O problema é que eles teimam em cuidar da nossa saúde sendo nossa principal moléstia. O caso é que as intenções caminham apartadas das práticas, alguém vocifera e dissemina o preconceito, a intolerância e cita a Constituição e a Bíblia para justificar sua estupidez.

 

Em 1854 um chefe indígena Seattle escreveu uma carta ao então presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, em resposta à oferta de compra das terras de sua tribo.

 

E em um dos trechos, o chefe argumenta: “Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos – e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos”.

 

Parece que historicamente tem sempre alguém querendo passar a perna em alguém – a tal da “lei de Gerson” (coitado do Gerson, o craque do futebol), seja em 1854 ou no século XXI. O fato é que tem gente disposta a sacanear o outro e a política (infelizmente) é campo fértil para os desmandos todos.

 

Como será que um político educa seus filhos? Como será que explica (ou não) o seu nome envolvido em casos policiais? Há quanto tempo deixaram de ouvir a criança dentro deles?

 

Que não sejam apenas hienas em seus palanques oportunistas e que não façam do blefe o seu perene discurso. Que homens de bem (eles existem) assumam cargos públicos e acabem definitivamente com o “reinado divino” de homens sem escrúpulos.

 

Que assim seja!

Jornalirista

Veja aqui Jessé cantando “Paraíso das Hienas”:
https://www.youtube.com/watch?v=-C7bjNt3m14

 

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