Afasta de mim este cálice


Angelical Henfil,

Por aqui só vale agora escrever e falar baixinho. Pssssiiiiiuuuu!!! Saiba que temos mais um “partido político” e que seus integrantes primam pela sinceridade. Causa alguma estranheza, não é? O partido tem uma linha programática muito simples e dialoga facilmente com o popular.

Se não ficou claro, direi aos sussurros que se trata de um partido voltado ao crime. Assustado? Fique assustado baixinho porque nosso texto pode estar grampeado. Oposição? Aquele negócio de oPTei, infelizmente, não deu certo – tem alguns revolucionários de outros partidos, que já bandearam para o partido do crime.

Resta gritar, mas um grito inaudível; resta o “Cálice” cantado por Chico e Milton, ou quem sabe as flores de Vandré, vencendo a estupidez. Enquanto definhamos de medo, o número de pessoas assassinadas cresce assustadoramente.

O governador de São Paulo? Afirma que é um problema nacional, argumenta que as fronteiras do país não são vigiadas pela Polícia Federal e o contrabando de armas dá poderio ao partido do crime.

A opinião pública? Cada vez mais fica com a impressão de que o partido do crime é maior do que se pensa. Sabe-se que existem alguns integrantes do partido do governador envolvidos em silenciosas transações e que praticam uma política muito próxima dos parlamentares encarcerados.

Enquanto pessoas tombam executadas pela barbárie, os jovens dos grandes centros são condenados a uma miséria intelectual profunda. São adestrados para ser zumbis – resultado medíocre de uma época de tecnologia total e ignorância profunda.

Basta alguém dizer que as passagens serão reajustadas e algumas cabeças pensantes deflagram passeatas para reivindicar uma tarifa mais justa. Há uma escola improvisada em uma minúscula capela de igreja no interior do Maranhão, há escolas no interior da Bahia em que as crianças se sentam no chão, sem nenhuma alimentação, sem nenhum recurso tecnológico e sem nenhuma perspectiva futura.

É mesmo um país de paradoxos – há um criminoso abandono da educação brasileira (em todos os níveis) e talvez aos poucos, bem devagar e sem ruídos (somente os disparos de armas de fogo), o resultado esteja assustando os homens que monopolizam o poder.

Não sei se é o caso de recrutar as forças armadas para conter as execuções e desmantelar o partido. Quem sabe recrutar (para uma luta perene) gente que trabalhe com as crianças desde os primeiros anos de vida (nas creches que jamais são construídas), professores, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas, médicos, dentistas e todas as pessoas que anseiam por uma sociedade mais humana no sentido mais amplo da palavra.

O PCC nada mais é do que o reflexo dos desmandos de todos os partidos e talvez seja sábio desconstruir todo o sistema político viciado e corrupto – talvez a evolução peça urgência, mas sem escarcéu, um encontro definitivo com a ética. É preciso mais vergonha na cara! Pssssiiiiiuuuu!

 

*Desde agosto de 2010, Sílvio Valentin Liorbano, escritor e professor de português da rede pública de São Paulo, vem escrevendo cartas ao Henfil (1944-1988), o cartunista e escritor que ousou ironizar e satirizar a Ditadura Militar (1964-1985), escrevendo, entre outros textos, cartas a sua mãe, publicadas nos jornais.

 

2 comentários para “Afasta de mim este cálice”

  1. Sheila Silveira

    É realmente frustrante (ou decepcionante, nem sei mais qual o melhor adjetivo para descrever a triste e caótica situação que vivemos) ver como nosso atual cenário vem sendo tratado por nossos governantes. Os índices de assassinatos crescem a cada dia, junto com as lágrimas que tantos pais, mães e esposas derramam pela perca de seus entes queridos. Sejam eles inocentes ou não, é sempre um pedaço de sí que está indo embora.
    Está tudo muito bom, tudo muito bonito enquanto está tudo maquiado, mas basta a situação sair de controle que não parem de surgir dedos apontando a depositando a culpa em diversos outros. Apenas passar a culpa para alguém é muito fácil. Difícil mesmo é enfrentar o problema de peito aberto.
    Talvez estejamos hoje em uma terra onde as leis agora sejam meras utopias, afinal, elas já não têm mais o mesmo propósito de sua criação. As penalidades já não assustam mais e não assustam porque todos sabem que ela te oferece chances de escapar dela própria.
    Infelizmente o número de nossas [i]cabeças pensantes[/i] está cada vez diminuindo mais, isso quando elas não se manifestam apenas no que diz respeito apenas a elas próprias. A revolução informacional, nossa era tecnológica ou mesmo a sociedade do conhecimento não é democrática. Sua intenção é boa, mas enquanto cada usuário não se conscientizar sobre seu uso correto, enquanto não aprender a usar a tecnologia como ferramenta de construção de um cidadão, nossa realidade estará distante de mudar.
    Ouso dizer que não é apenas função do Estado combater a criminalidade, mas é também função de cada cidadão auxiliar na formação dos jovens, implantar dentro de cada um deles a semente da cidadania, do respeito e da cultura para que assim possamos sobreviver a esse [i]dilúvio[/i] que hoje enfrentamos.

  2. Tamires Golenia

    Esplêndido !

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