Água, terra, fruto e vida

Trabalhei como cobrador de lotação por muitos anos, e hoje tenho como hobby a Kombi. Mas, ultimamente, confesso que este passatempo está um pouco de lado, graças à minha horta no quintal.

Comecei sem compromisso em meados de 2014. Moro numa parte alta da cidade de Suzano, na Grande São Paulo, e quando começou o racionamento de água, a gente era sempre o mais afetado, inclusive porque a água demorava pra chegar devido à falta de pressão. Então comecei a me precaver.

Pesquisando na internet, descobri que dava pra fazer uma cisterna caseira com baixo custo e material reaproveitado. Como eu já reciclava meu lixo, acabei me empolgando e fiz a primeira cisterna pra captar a água que caía no telhado. Inicialmente minha esposa não gostou muito da ideia. Ela diz que ser casada com escritor é não ter exclusividade, porque a gente sempre tá com uma inspiração nova. Claro que discordo, mas o assunto aqui é outro.

Quando terminei a cisterna, não cabia em mim de alegria. Uma tia me disse que eu parecia um pintinho em meio ao lixo, de tanta empolgação. Fiz um vídeo e mandei pra um monte de amigos, pra incentivá-los. As visitas chegavam e antes mesmo de entrarem na sala eu logo levava pra mostrar a cisterna.

Demorou uns quinze dias pra primeira chuva, e quando ela caiu eu tava na rua, ansioso pra chegar logo em casa e conferir o resultado. Cheguei e saltei de alegria ao ver os dois tambores cheinhos de água, que depois foi usada para a descarga do vaso sanitário e pra lavar o carro. No primeiro mês a minha conta de água mostrou redução do consumo em cinquenta por cento.

Como havia sobrado alguns pedaços de cano e eu tinha uma caixa d’água de quinhentos litros, ociosa, resolvi fazer outra cisterna, dessa vez para o quintal, que captaria a água caída no terraço.

Depois de pronta, percebi que eu tinha muita água pra usar e não dava conta. Não tinha galões pra estocar e já estava me sentindo um ostentador em meio à crise. Então passei a regar diariamente um hibisco que eu tenho no quintal. Olhei ao redor e me perguntei: Por que não plantar umas árvores frutíferas?

E plantei. Acerola, mamão, amora, jabuticaba, cacau, manga… opa, se eu não parasse daqui a pouco estaria plantando até na lavanderia.

Claro que a minha esposa não gostou dessa nova inspiração. Mas eu soube disfarçar e disse que era somente pra dar uma utilidade para o quintal, que aquilo não ia tomar o meu tempo nem me roubar dela.

E a partir daí eu tinha com o que usar a água que a minha cisterna do quintal captava. O fato é que eu não parei mais. Não tinha espaço pra novas árvores, mas tinha pra legumes e verduras. Comecei comprando sementes nos mercados, mesmo sabendo que apesar de eu cultivar sem veneno, a própria semente já vinha batizada. Mas pra começar era preciso dar algum passo.

Desanimava sempre. Às vezes as sementes não vingavam, quando vingavam vinha uma lagarta ou lesma e destruía. Senti que eu precisava de experiência, sabedoria e de conhecimento, principalmente daqueles que antigamente eu via pelas ruas com as costas curvadas recolhendo esterco.

Por aqui eu não encontrava mais essas pessoas detentoras desse valoroso saber. Acabei recorrendo à internet.

A cada dúvida que surgia, eu aproveitava o fim do dia e assistia a uns vídeos sobre horta orgânica. A minha empolgação só crescia.

Antes eu compostava meus restos de alimentos jogando-os diretamente na terra. Acabei conhecendo grupos e pessoas que falavam deste assunto e conheci mais a fundo o sistema de compostagem caseira, feita com minhocas em caixas fechadas. Aí, pronto. Nem preciso dizer dessa nova inspiração, ops, empolgação.

Passei dias falando de compostagem, preparando o terreno, ou melhor, preparando a minha esposa. Num dia em que fui ao centro de São Paulo para dar uma palestra, aproveitei e passei na “Morada da Floresta”, uma casa que virou referência em sustentabilidade. Comprei minha composteira, bem grande, e assim que cheguei em casa, com aquelas três caixas cheias de minhocas, a minha companheira perguntou, sorrindo com cumplicidade:

― E aí, tá feliz?

Dessa vez ela nem ligou. A coitada já estava consolada. Até incentivei-a a entrar nessa, mas ainda não venceu o medo das lagartas.

Com a compostagem passei a comer mais frutas e legumes, já que, de certa forma, eu preciso alimentar as minhocas. E percebi que passei a dar tempo pra minha digestão, pois assim que eu termino de comer a sobremesa, geralmente uma fruta, fico na mesa alguns minutos a mais a picotar as cascas, pra facilitar e acelerar o processo de compostagem dentro das caixas.

Demorou alguns meses para eu começar a ter a alegria de colher alguma coisa, primeiro um coentro e umas folhas de hortelã, depois alface, couve, cebolinha, abóbora e a horta desandou… no bom sentido.

Compostando eu quase não produzo mais lixo em casa, além de produzir meu próprio adubo, e dar vida ao meu quintal, que virou uma horta e me dá alimentos. O dinheiro que eu gastava na feira aqui do bairro acabou também caindo pela metade. Mas não é isso que me dá alegria.

Fico feliz de cuidar daquilo que vai alimentar a minha família. Me dá prazer lidar com a terra e ensinar a minha filha que a felicidade está ali no nosso quintal. Terapia, prevenção de doenças e outros benefícios, são coisas que não têm preço.

Hoje o meu único e maior problema é dosar o tempo que eu passo na horta. Desço lá pra rega e pra depositar o lixo orgânico e calculo uns quinze minutos. Mas, aí, aproveito pra tirar o biofertilizante da composteira, arrancar uma erva daninha, escorar um tomateiro e quando eu vou ver já se foi quase uma hora. Fim de semana eu penso em passar lá uma manhã, mas lá se vai todo sábado. Reflito que o correto seria eu ter pouco tempo pras correrias do dia a dia e mais tempo pra horta. Quem sabe um dia?

Indico o cultivo de uma horta caseira como remédio preventivo pra muitas doenças, principalmente pra mesquinhez, que é o maior mal da atualidade. Aproveito também para indicar dois grupos porretas do Facebook, “Hortelões urbanos” (participe aqui) e “Composta São Paulo” (curta aqui), que falam de horta orgânica muito além do cultivo do alimento. Falam de horta como um cultivo da vida.

Agora, que minha horta já está bem encaminhada, penso em retomar a manutenção da minha Kombi e os planos de camping com ela e a família.

 

Foto: Ingeburg Paganelli / Hortelões Urbanos, publicada no Facebook em 18 de fevereiro de 2016. “Colheita de hoje, fruto do meu trabalho”

 

Um comentário para “Água, terra, fruto e vida”

  1. Paulo Henrique

    Parabéns meu Mano, eu e minha noiva estamos trabalhando bem de leve nas plantinhas pequenas, mas com a sua cisterna caseira me interessei ainda mais.
    Por favor me indique onde possa ver o vídeo de como construir a cisterna.
    Abraço e sucesso!

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