Ambiguidade do horror

“Velho burocrata, meu companheiro aqui presente, ninguém nunca fez com que te evadisses, e não és responsável por isso. Construíste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz. Ficaste enroscado em tua segurança burguesa, em tuas rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde proteção contra os ventos, as marés e as estrelas. Não queres te inquietar com os grande problemas e fizeste um grande esforço para esquecer a tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante e não lanças perguntas sem solução: és um pequeno-burguês de Toulouse. Ninguém te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo. Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo que talvez te habitassem. Não me queixo mais das lufadas de chuva. A magia do ofício abre para mim um mundo em que enfrentarei, dentro de duas horas, dragões negros e cumes coroados por uma cabeleira de relâmpagos azuis. Nesse mundo, quando vier a noite, livre, lerei meu caminho nos astros.” Antoine de Saint-Exupéry, Terre des Hommes

 

Parece-me que chegou a hora de escavar subterrâneos, revolver cadáveres, abrir feridas e esgarçar cicatrizes.

Pergunto-me se é possível sobreviver sem resgatar as sombras de um passado obscuro que volta a incomodar.

Jogamos a poeira para debaixo do tapete, nos encharcamos de perfumes para abafar o cheiro pútrido dos restos dos amados, dos parentes e amigos que insiste em impregnar nossas narinas, invade nossas casas e devasta nossas vidas para sempre.

Será esta a ilusão de todos os cidadãos do planeta que, de tempos em tempos, vivenciam a barbárie em nome de Deus, dos governos e das leis?

As questões que gritam:

De que lado você está?

Qual o seu partido? O Coração Partido?

Qual a sua fé? A sua ideologia?

Quem é você? Quem está do seu lado?

Com quem realmente você pode contar?

Cada dia que passa, vamos perdendo referências de errado e certo. De sentido de Nação e de pertencimento.

Tentamos nos embriagar nos fluidos do consumo, nos encantar com a artificialidade das amenidades, para nos distrair da dor. Mas lá está o chamado, que revira a lâmina em riste a nos revisitar os corações e mentes.

Enfrentamos o deserto das páginas em branco. Procuramos no tabaco, nas anfetaminas, no álcool e no sexo energias suplementares para falar ou deixar falar o silêncio.

 

A GUERNICA DE PICASSO

guernica IMAGEM INTERNA

 

Um escrito de reflexão não é mais verdadeiro do que aquele em que o autor quase enfarta para escrever. Quando é preciso dar ouvidos à violência que o ato de criar exerce, por exemplo, sobre um Picasso, em Guernica, que, na contramão da arte, revoluciona sua obra, desconstruindo o padrão estético da época, revelando a animalidade da natureza humana, durante a Guerra Civil Espanhola (1936-39).

Revisitá-lo observando os recortes, seus contrastes e relevos que refletem o trágico, principalmente o confronto de seus iguais perante o Estado, é como encarar a violência que habita em nós.

É ressurgir das trevas do momento histórico brasileiro em que os patriotas da carteirinha da desinformação clamam pela volta da intervenção militar. Este alvoroço psicodélico remonta às festividades das Copas dos anos 70, quando as arquibancadas gritavam gols e olés enquanto jovens intelectuais, artistas e militantes idealistas tinham seus tormentos silenciados e subtraídos pelo rufar dos tamborins.

Crianças e adolescentes sendo violentados pela distorção da realidade. Famílias abandonando suas casas e pátrias para se criarem sem identidade no exterior.

O medo de ficar. O medo de ir. O medo de voltar.

O Horror. O Horror. O Horror.

 

Potestade = Potência, força, poder

Hoje, com pesar, observamos a massa amarelada se dissipando nas avenidas das cidades com a ilusão de que buzinas, cornetas, discursos estapafúrdios e alaridos reescrevem a história deste gigante entorpecido.

Não é sempre a mesma infâmia contra a qual nos rebelamos?

Os homens continuam se massacrando aos milhares e o pesadelo está sempre ali, mais sutil, sufocando e congelando o nosso potencial criador.

O que nos importa é que os direitos adquiridos legitimamente sejam salvaguardados.

Mas daí não decorre, de modo algum, que as singulares combinações dos dias atuais se justifiquem.

O que nos aproxima e nos une são os inimigos que temos em comum.

Este rumor que ecoa de todos os pontos da América do Sul. Esta angústia, que há anos reúne rancores e ódios dispersos, pode tornar-se, se não prestarmos atenção, “o canto de uma terrível colheita”.

O infortúnio multiplica seus recursos. O pior inimigo é seu melhor apoio.

Não podemos mais ter confiança alguma no pacato cidadão comum.

Ele pode portar a dupla máscara do bufão e do lacaio, da delação e da traição, do algoz e do injustiçado.

Substituiu-se o “tomo o poder porque represento a maioria” por “tomo o poder porque tenho meios para tomá-lo”.

Esta é a tônica da peça “Potestad”, de autoria do dramaturgo, diretor, ator e psicoterapeuta argentino Eduardo Pavlovsky, que está sendo encenada no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Quando a literatura e a dramaturgia se aliam para contar como a própria convicção incita certos homens à passividade e outros à ação extrema.

Quando a bestialidade se banaliza e se permite zombar de seres humanos, torturando-os até a morte e raptando seus filhos, adotando-os como seus.

Reproduzindo o cenário da antiga Escola Superior de Mecânica Armada (ESMA, conheça a edificação e sua história clicando aqui), centro clandestino de detenção e suplício por onde passaram mais de 5 mil desaparecidos na ditadura militar da Argentina (1976-83), o jovem diretor brasileiro Pedro Mantovani, incisivamente e por que não “desesperadamente”, tenta provocar a reflexão: para que não se esqueçam e para que nunca mais aconteçam os crimes, que ainda permanecem impunes contra essa massa idealista intemerata, cujos restos ainda clamam por justiça.

Uma tentativa de não deixar virar a página de nossos holocaustos latinos. E não nos deixarmos ensurdecer pelas mentiras e baixezas que se gritam em nossos nomes.

 

Celso Frateschi e Laura Brauer contracenam em “Potestad”: Os horrores das ditaduras precisam ser lembrados, para que não se repitam
Celso Frateschi e Laura Brauer contracenam em “Potestad”: Os horrores das ditaduras precisam ser lembrados, para que não se repitam

 

O ator Celso Frateschi comemora seus 45 anos de carreira mergulhando na ambiguidade da personagem “burocrata, medíocre e cruel” que, com traços de humanidade e de carinho paternal, revela, como num jogo de espelhos, ora sua candura, ora sua inclemência, estabelecendo em nós, público, uma tensão e um desalento que só os grandes talentos podem despertar.

Esta mescla da maturidade do ator com a nova geração do diretor e de sua assistente, a atriz Laura Brauer, nos leva a trilhar com eles uma viagem pelo inusitado e mágico terreno da arte, decretando a verdade absoluta de que talento não tem idade, tempo e lugar. Ele simplesmente se estabelece e se reinventa a todo momento.

Reverencia a gesta rebelde. Defende-a, coparticipando, amando o tormento e a virtude que a Criação exige para se realizar.

E quem ganha com isto somos nós, para que não nos deixemos enganar pelo Golpe Militar travestido de Dama Revolução que abriga em seu colo os necrófagos.

E, para mim, hoje, alguns anos depois, desabafo, em nome destas crianças de identidade roubada: “Não viram que eu era uma garotinha, porque pareço grande”.

 

Ficha Técnica “Potestad”

Autor: Eduardo Pavlovsky. Tradução: Betch Cleinmann. Direção: Pedro Mantovani. Cenário e figurinos: Sylvia Moreira. Luz: Wagner Freire. Assistente de Direção: Laura Brauer. Atuação: Celso Frateschi e Laura Brauer.

Serviço

“Potestad”. Até 17 de maio de 2015.

Temporada: Quinta a sábado, às 21h; domingos e feriados, às 19h. Onde: teatro do Sesc Pompeia (rua Clélia, 93, Pompeia, Zona Oeste da capital paulista). Duração: 60 min. Ingressos: R$ 7,50 (credencial plena / trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$ 12,50 (usuários inscritos no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 25,00 (inteira).

 

Fotos da peça: Divulgação

 

4 comentários para “Ambiguidade do horror”

  1. Celso Frateschi

    Grato pelo texto e pelo olhar generoso do nosso trabalho. abraços

  2. Pedro Mantovani

    Gostei muito do texto. Muito obrigado pelo olhar cuidadoso! Um abraço!!

    Pedro Mantovani

  3. Marisa de Paula

    Textos de profunda reflexão e beleza estética!
    Parabéns Shellah Avellar!

  4. Guilherme

    Belo texto! Bela indicação!

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