Amor shuffle

 

 

Somos agraciados pelo Bill, e pelo Steve. Temos nossos iPods, iPhones, iOcaramba. Qualquer coisa que nos permita ouvir a música que quisermos. Na hora que quisermos. Repetir, pular imediatamente, deletar. Enfim, o paraíso de quem viveu com a “tartaruguez” dos cassetes gravados com as melhores da rádio, dos vinis e tal.

 

Lindo, isso. Moderno. “In” e qualquer outro termo ultracool que alguém de óculos de aro vermelho estiloso vai largar em uma reunião modernosa te deixando com cara de “hã, me dá um f5?”.

 

Mas outro dia, dirigindo e ouvindo minhas 8.902 músicas, me caiu a ficha. Ficha, não, porque é muito “veio”.

 

O Fenômeno do “passa pra frente que é mais animado” também chegou aos relacionamentos. A relação é rara, mexe contigo de uma forma que só vai acontecer novamente tipo quando passar o “Cometa Halley”. Mas tá meio paradinha. Ele anda cantando alto demais ou muito baixo. Ele tá no mute. Bah, ele desafinou outro dia no banho. Ah, passa pra próxima paquera, veio. Vai caçar algo mais no teu ritmo. Uma mais animada, mais na vibe. Tua cara.

 

Pra que perder tempo no que é velho? Passou. Foca em uma novidade que te dê vontade de dançar ridiculamente dando soquinhos no ar. Tá, conseguiu. Já deu os soquinhos. Enjoou outra vez. Normal. Batidinha cansativa, né? Faltou sei lá uma certa bossa. Não é essa, não. “Errou rude”, como disse o “Porta dos Fundos”. Muda a música outra vez, sobe o volume, abre a janela, bota os braços pra fora do carro abanando pro universo e vai ser feliz.

 

Olha  aquele cara ali, com mó cara de fodástico, com esse muque deve abrir vidro de palmito em dois toques. Quero ver ter força pra abrir o coração. Olha aquela guria com unhas decoradas com glitter, mó estilo. Ela deve mandar bem no timbre. Muda logo. investe nela. Para de ouvir o que já era.  A próxima é sempre a melhor. A próxima é sempre a melhor. A próxima é sempre a melhor. O Steve, que Deus o tenha, jamais imaginou essa analogia. Mas hoje ouvimos todas e não ouvimos nenhuma.

*Katiany Pinho, publicitária, é diretora de criação, cronista, roteirista de TV com séries produzidas pela RBS TV de Porto Alegre. É coautora do livro “Convergências Midiáticas ― Produção Ficcional” (Sulina, 2010).


15 comentários para “Amor shuffle”

  1. Fernando

    Assustadoramente verdadeiro !

    Valeu por uma sessão de terapia.

  2. sandra vaz

    Seu texto levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.Muito bom.

  3. Sidnei

    Me vejo gostando cada vez menos de algumas músicas e me cansando cada vez mais de algumas pessoas, não somente amores shuffle. Mas sempre se encontra alguém que mereça um: "Play It Again, Sam" e saiba cantar As Time Goes By. Ae você pára, ouve toda a melodia. Essa pessoa você vai querer que toque de novo.

  4. Joseane

    É menina, a vida é cheia de som e fúria.
    Posso tanto ‘enviar para’ como ‘receber de’ esse torpedo. Gracias

  5. Karina Lima

    Shuffle, esse [tão] conhecido!
    Kati é o tipo de cronista que dispensa comentários. Vou economizar meus bytes só pra aplaudir, mesmo, que é o mais indicado e merecido. 🙂

  6. Vanessa Ribeiro

    E qdo quer acessar o backup p ouvir as antigas canções e percebe que todas foram apagadas por um "hacker"? Já era…
    Ótimo texto! Bjao

  7. Luis Marcon

    Genial, moça. A inversão insana e sem retorno de valores.
    Parabéns pela sua visão da vida.

  8. João Claudio Lins

    Analógicos
    Bons tempos em que o amor era analógico. Excelente texto, Kati. Sempre num tom ritmado e compassado, com orações breves e certeiras.

  9. Elsa Roldao Schuaste

    Brincando com as palavras
    ou seria…Brincando com a Tecnologia? – Brincas com os dois, os tres e o que vier né Katy.. Parabéns pelo dom e colocar cada coisa no seu devido lugar, ou seria no seu lugar devido? hehe Beijos

  10. michele nolasco

    Katy sempre sensacional…muito bom "te" ler todos os dias…adoro. Manda mais colega, to aqui só esperando. bj.

  11. Tulio Paiva

    A história dos relacionamentos nem sempre é música para ouvidos cansados. Mas para quem tem olhos para ver, pode ser bonita de qualquer jeito. Mesmo de um jeito modernoso. Katiany Pinho tem. Parabéns!

  12. Ana Simões

    Surpresas textuais. Bela surpresa Katy! Texto para se ler com mó cuidado! abreijos sua linda Quero o próximo!

  13. Janaina Fratelo

    demais!

  14. Janaina Fratelo

    Vou mandar pra muita gente. Muito bom mesmo.

  15. Gabriel Ventura

    excelente
    Uma das coisas mais "na veia?que li nos últimos tempos.

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