“Angola não merecia isso”

 
O ataque a tiros desta sexta-feira ao ônibus que transportava a delegação de futebol do Togo, da cidade de Ponta Negra, na República Federativa do Congo, para a cidade de Cabinda, na província de Cabinda, em Angola, foi uma grande surpresa e tristeza para todos nós.
Eu, que em Angola me encontro há um mês, ajudando a organizar a Taça de África das Nações – Angola 2010, estou muito triste.
E nós nada sabemos pela imprensa daqui sobre o ataque que matou o motorista do ônibus e feriu um número ainda incerto de jogadores do Togo, fala-se em dois atletas. A imprensa está amorçada, por espanto e, certamente, por orientação direta do presidente da República José Eduardo dos Santos.
Rádios, sites, tevês angolanos não falam absolutamente nada sobre o atentado. Tocam músicas, exibem filmes e novela brasileira, falam da visita do presidente à seleção nacional, de tudo estar pronto para receber a competição.
A província de Cabinda, local do atentado a tiros, é um enclave que fica separado da maior porção do território de Angola por uma estreita faixa da República Federativa do Congo. É a província mais ao norte do país e um lugar estratégico: está ali a grande produção de petróleo de Angola e as jazidas de diamante.
A província é, devido a essas riquezas, polo de atração de gente dos dois Congos (República do Congo e República Democrática do Congo), que com ela fazem fronteira.
Nos últimos meses, tem havido retaliações mútuas. Para repatriamento de congoleses que vivem ilegalmente em Cabinda, à procura de emprego nos garimpos ilegais, principalmente, e de angolanos que vivem nem sempre ilegalmente no Congo.
Na última retaliação do Congo Democrático, expatriaram até cidadãos angolanos com raízes de décadas no país. Antes, a República do Congo fechara a fronteira de Massabi, ao norte de Cabinda, impedindo o regresso de angolanos. Uma questão que não se resolve.
O que vai acontecer depois do atentado? Os jogadores do Togo afirmaram à imprensa internacional o desejo de abandonar a disputa da Taça, que está marcada para abrir oficialmente no domingo, com festa, discursos oficiais e o jogo inaugural Angola e Mali.
Os togoleses certamente serão pressionados a seguir. Mas, se de fato desistirem, como ficará o Grupo B, com sede em Cabinda, ironicamente chamado de “grupo da morte”, pela força de seus integrantes (além do forte Togo, os favoritos ao título Costa do Marfim e Gana e o azarão Burkina Faso)?
Correrá risco o próprio campeonato? O temor, claro, é de novos atentados, e não apenas em Cabinda.
Se for confirmada a participação do Togo, não será necessária a mudança de Cabinda como sede? Parece não haver mais clima para os jogos serem realizados ali. É possível, nesse caso, que os jogos do Grupo B sejam transferidos para a capital Luanda, onde há estádios com capacidade e estrutura compatíveis.
Angola, um dos países mais afetados pela crise econômica mundial, com a queda acentuada do preço do barril de petróleo, sua principal riqueza, investiu todos os kwanzas que tinha e não tinha: fala-se em 1 bilhão de dólares para a organização da maior prova esportiva do continente africano e da história de Angola. É a primeira vez que o país recebe uma competição desse tamanho.
Muitos pagamentos de outras obras e projetos foram suspensos pelo governo angolano, para priorizar o campeonato.
Foram construídos quatro novos estádios no país, nas quatro províncias-sede: além de Cabinda, Luanda, Benguela e Huíla. Aeroportos e hospitais foram remodelados e ampliados, hotéis foram construídos, novas estradas surgiram; era o salto com que o país pretendia se arremessar ao futuro.
O atentado desta sexta-feira, cuja autoria foi assumida pela Frente de Liberação do Enclave de Cabinda, que pede a independência da região, foi um duro golpe no governo de Angola; se merecido, não se sabe dizer.
Angola se orgulha de ostentar o melhor Exército da região. Retaliações das tropas deverão vir muito em breve, provavelmente depois da Taça de África das Nações, se confirmada. Pelo menos é o que se ouve da boca de muitos.
A promessa de José Eduardo dos Santos de fazer um campeonato “exemplar” sob todos os aspectos ruiu hoje. E, com ela, parece, a certeza tão inabalável, ao menos entre seus seguidores, sobre a competência de um governante que há 30 anos consecutivos dirige o país. O povo angolano fala, à boca pequena, da falta de democracia e transparência e pede mudança de comando, já ouvi isso de muitos, dos mais pobres, aqueles que não gozam das benesses do poder e formam, por baixo, 99 por cento da população do país.
Quando os olhos do mundo se voltavam generosos para o continente-berço da humanidade, esperançosos por uma nova África, o atentado de hoje coloca novamente tudo em dúvida.
Serão capazes os africanos de organizarem grandes eventos internacionais, isto é, de se credenciarem como verdadeiras potências de um novo mundo? E em junho, na Copa do Mundo da África do Sul, a primeira na história da África, como será?
No centro de informações do COCAN, o Comitê Organizador da Taça de África das Nações – Angola 2010, ninguém queria acreditar no que chegava pelos sites de notícia de todo o mundo, com destaque. Não podia ser verdade. Não.
Carlos Contreiras, chefe nacional da mídia para o atendimento à imprensa nacional e internacional durante a Taça de África e jornalista de fama no país, na tevê estatal, estava arrasado. Cabisbaixo, atrás de sua estação de computador, lastimava tristemente: “Angola não merecia isso”.
 

4 comentários para ““Angola não merecia isso””

  1. Serginho Poeta

    Serginho Poeta

    Guilherme,fiquei preocupado contigo.Também fico triste com a situação. Abraço!

  2. Juvenal

    Covardia ineficaz
    para seu movimento guerrilheiro. E o devolveram, são e salvo, após a realização da corrida, conseguindo com isso as manchetes na mídia mundial e a divulgação do seu movimento revolucionário. Não basta chegar à mídia, é preciso chegar a ela com inteligência e humanismo.
    Ao governo e às autoridades esportivas de Angola e da Federação Africana, não resta outro caminho a não ser realizar a Copa africana, ignorando esse atentado tão estúpido quanto burro.

  3. Juvenal

    Covardia ineficaz
    Nada sei sobre os Congos. Menos ainda sobre Cabinda e seus problemas. E ainda menos sobre a separatista Frente de Liberação do Enclave de Cabinda.
    Como todo movimento revolucionário, seus dirigentes certamente resolveram aproveitar o grande momento que é a Copa África de Nações – Angola 2010, para atingir, em cheio, a mídia internacional. E conseguiram. Ao preço de duas mortes e nove feridos, esquecidos de que a fuzilaria tosca a que foi submetida a delegação esportiva do Togo poderá exercer papel oposto ao que eles esperavam obter.
    Movimentos revolucionários já fizeram atos que procuravam divulgar suas causas, mas, que eu me lembre, é a primeira vez que lançam mão de uma atitude tão covarde quanto inesperada.
    Aprendam com o movimento castrista que, em Cuba, durante a ditadura de Fulgêncio Batista, sequestraram o piloto de fórmula um Juan Manuel Fangio, um ícone do automobilismo, visando gerar mídia para seu movimento guerrilheiro, devolvendo-o, são e salvo, após a realização da corrida.
    Conseguiram as manchetes – e, principalmente, a simpatia mundial. O que, positivamente, não é o caso agora.

  4. Carlos Brazil

    Triste
    Caro Guilherme. Não sei medir o que vai em seu coração hoje, mas imagino o tamanho de sua tristeza.Desde que aí cheguei, em setembro passado, ouço dizer que o grande problema era sempre Cabinda. Não imaginava que a gravidade dessa avaliação chegasse a essa proporção. Espero que fique bem, amigo, e dê forças a alguns grandes amigos angolanos que definitivamente não mereciam isso.

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