Aprendendo com o tempo

O tempo é sempre o mesmo, intocável e perceptível, mas do mesmo modo nos transforma. Hoje somos assim, amanhã somos outros. Nos ressignificamos a cada dia. Um dia mais, outro dia menos. É difícil, é impossível continuarmos neutros, como se o tempo não tivesse nos tocado. Sim, ele nos toca. Ele nos tira do lugar, nos chacoalha. Ele nos amedronta, confunde.

O tempo, para mim, é ensinamento. Acima de tudo, para lidar com ele, é necessário ter paciência. Ah, meu amigo, sem paciência o tempo lhe corrompe e ele vira o seu inimigo. É capaz de confundir seus planos, assassinar seus sonhos e destruir amores. Mas ele não é tão cruel assim. Costuma fazer bem. Ele não dá nó sem falha.

O tempo me fez ensinar uma coisa apenas: nem tudo acontece conforme queremos e planejamos. E por que é tão difícil entender essa realidade? Porque a maior parte das coisas que planejei em minha vida (atualmente no auge dos meus 26 anos) deu outra volta. Sim, não que deram errado.

Mas três decisões importantes aconteceram como eu havia planejado: a formação em jornalismo, uma viagem para a Itália e a publicação de um livro. O restante, o planejamento foi temporariamente suspenso, tirou férias e me trouxe surpresas. A maior parte delas agradáveis, outras não.

Tive a oportunidade de nascer em uma família incrível e cultivar bons sentimentos. Eu sentia uma necessidade de viajar pelo mundo, ser de mim apenas. Não acreditava em amor, em por exemplo ser feliz e aprender com um companheiro. Para mim, isso era conversa de mulher iludida.

No auge da minha faculdade, prestes a concluir o curso, eu gritava para todos escutarem que eu me formaria, abandonaria o emprego, pegaria a minha mala, os livros e o gato e seria uma jornalista internacional. Claro, não custa sonhar. Ah, mas esse destino, ah, o tempo…

Meses antes de concluir o curso, conheci o amor da minha vida. Sim, eu afirmo, ele existe. E leia: eu ainda continuo na mesma cidade, dividindo o tempo com este amor. Não fui morar na França, mas já escrevi para uma revista de Portugal.

E sobre o amor: compartilhar um amor a dois é maravilhoso. O tempo apenas aperfeiçoou o que nunca acreditei que fosse acontecer: viver um amor a dois. Em 2014, em meio aos estudos, me vi um mês cuidando do meu amor enquanto ele se recuperava de um acidente.

Somente um mês foi capaz de me mostrar o que durante anos não havia percebido: que somos frágeis e, acima de tudo, a família é o nosso porto seguro. Um acidente me mostrou quão importante é cultivar e agradecer pelos bons momentos. E, sim, meu pai conseguiu passar desta. Ah, este tempo, como ajudou a cicatrizar as feridas e a amenizar as dores.

É. O tempo não tem vírgula e ainda não tem um tempo final. Mas ele corre ou talvez sejamos nós que corremos alucinados para cumprir tudo e não dar tempo para se amar e se curtir. Para mim, o tempo é valioso. A cada volta, curva, tropeço, eu aprendo.

Eu ainda continuo me procurando, tentando entender onde melhor me encaixo. Ah, mas talvez não tenha nada de errado nisso. O tempo sempre nos muda. E é tão bom aprender tantas coisas novas.

No início deste texto, falei das três escolhas que fiz e que aconteceram como planejara. Mas, para encerrar, fiz uma escolha que me fez crescer tanto como pessoa que acredito que foi uma escolha de amadurecimento: eu escolhi viver o amor. O amor compartilhado com outra pessoa.

Ao lado do outro, somos capazes de nos olhar e perceber o que precisamos fazer para evoluir. Mas, para isso, é preciso que o outro aceite este caminho do bem viver em busca do autoconhecimento, da paz interior.

Eu tenho certeza de que continuo gostando de algumas coisas de que há muito tempo gosto: gatos, livros, chimarrão e pôr do sol. Viva a sua vida e o tempo é sábio em cada dia.

 

Foto: Ibrakovic/ThinkStock

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