Aristóteles, quer ser meu amigo?

Há algum tempo, vi um vídeo na internet em que a youtuber confessou o que ela responderia em uma entrevista de emprego, quando perguntassem sua principal qualidade: “Boa amiga”. Me identifiquei na hora! Falar de amizade, tratar os amigos como família ou me considerar uma boa amiga não fez ter um milhão de amigos, tampouco me privou de brigas, mas tudo isso me ajudou a seguir em busca, repetidamente, do real significado da amizade.

Falar de amizade é como falar de amor. Amizade, pra mim, é uma forma de amor. Quantas músicas você conhece que falam de amor? Quase todas. De amizade existem, mas são poucas. Por algum motivo, mercadológico ou cultural, o amor romântico está presente no entretenimento em todas as fases da nossa vida.

Assim, já estamos acostumados a entender namoros que terminam, identificar relacionamentos abusivos, aceitar divórcios e estimular reencontros. A amizade, por outro lado, quando aparece, vem sempre apresentada na dicotomia “amigos para sempre” x “inimigos”. Não aprendemos que amizades podem ser abusivas ou que eventualmente uma amizade pode acabar, e a frase “Não quero mais ser sua amiga”, para nossa cultura, é algo imaturo e infantil. Mas se considerarmos amizade como uma forma de amor, deveria ser compreensível existir seu término.

Neste ano, descobri (com muitos séculos de atraso) o livro “Ética a Nicômaco”, que Aristóteles escreveu a seu filho Nicômaco. Sim, na Grécia Antiga, a amizade era estudada em profundidade. Como o título do livro apresenta, amizade é, acima de tudo, uma função ética. Com a ética em voga, Aristóteles dizia que amizade é uma virtude; uma virtude necessária à vida.

Em seu texto, o filósofo cita o amor na função de comparação entre amor e amizade: amor é um sentimento, amizade é uma disposição do caráter. Segundo ele, a amizade pode ser dividida em três tipos: por interesse, por utilidade/prazer e por admiração. Para ele, amizade não é apenas maior que o amor, mas também é a mais autêntica forma de justiça.

Depois de tomar conhecimento desse estudo, morri de amores por Aristóteles, claro, e me peguei questionando alguns comentários que sempre ouvi: “Se uma amizade acaba, é porque ela nunca existiu”. Sempre fui na contramão dessa crença – na verdade, estou ainda tentando entender términos bruscos de amizade – e agora acho que consegui compreender essa minha característica de acreditar na amizade – mesmo quando elas terminam.

Aristóteles fala, sim, de términos, especialmente nas amizades por interesse e por utilidade/prazer. Porém, como citei anteriormente, a amizade, acima de tudo, está pautada na ética aliada à disposição de caráter. Fazendo uma reflexão sobre isso, concluí que pode haver uma amizade por interesse e isso não há problema algum, mas nunca poderá haver amizade sem ética e sem disposição do outro.

Em algum momento da relação, é natural que a admiração possa acabar, o interesse possa não existir ou o amigo deixe de ser útil, mas a amizade só vai acabar quando alguma das partes não quiser mais ser amiga ou quando não respeitar a outra. Havendo ética e disposição do caráter, a amizade sempre prevalecerá.

O que nos faz crer que muitas amizades que a gente acredita que terminaram podem apenas estar adormecidas naquele bom e velho tempo e, eventualmente, podem despertar e continuar a existir.

 

Imagem: yenifelsefe.com

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