Ás da Copa

 

Domingo frio, início de junho. Pulseiras colocadas no pulso de prestadores de serviço e comitês locais. A cada dia, uma diferente, até ser montada a sala para o credenciamento. Esta foi uma das primeiras tarefas que realizei como voluntária da Copa do Mundo de futebol no Brasil, no congresso paralelo ao Mundial, o 64º Congresso da FIFA, ocorrido em um centro de exposições na Zona Sul de São Paulo, nos dias 10 e 11. Eu fui escalada para um dos hotéis integrantes do encontro, a cerca de três horas de van, metrô e trem desde São Miguel Paulista, na Zona Leste, onde vivo.

 

Voltando no tempo, mais precisamente a outubro de 2013, durante a dinâmica de grupo para selecionar os voluntários, esperava atuar na região da Arena de São Paulo (nome empregado no Mundial), ou Arena Corinthians (nome empregado pelo time detentor do estádio) ou mesmo Itaquerão (como o pessoal da zê-ele o chama), que fica a menos de 15 minutos de onde vivo. Também havia escolhido trabalhar na área de mídia ou assessoria de imprensa. Mas o que veio, de bom grado, foi o credenciamento.

 

Confesso que os primeiros dias, no total de doze, não foram dos mais afáveis: a distância, em meio à greve do metrô, situações estressantes, falta de informações. Entretanto tive muitos momentos interessantes: trabalhei com pessoas totalmente diferentes, com numerosas coincidências.

 

Duas das minhas companheiras de voluntariado atuam na área da saúde: Neide, moradora da região do M’Boi Mirim, Zona Sul, e baiana de nascimento, como auxiliar de enfermagem em um posto de Parelheiros, também na região sul da capital paulista. A outra é Ingrid, de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo, enfermeira em um hospital de renome da capital.

 

Outro voluntário, Marcelo, também de Guarulhos, é experiente em eventos de grande porte, como o Rock in Rio, e na função de credenciar. O nosso coordenador, Marcello “com dois eles”, é do Morumbi e atua com eventos, influenciado pela mulher, que é craque no ramo.

 

Nos momentos de pouco movimento, ouvia as histórias deles enquanto dobrava origâmis ou dava uma de desenhista. Aí, brincava Ingrid:

 

– Já são três horas, Keli. Hora do desenho!

 

Não recebemos o uniforme todo colorido, como o dos ajudantes nos estádios: trajamos moletom branco, camiseta azul e calça preta, tênis, mochila simples e boné (estes últimos disputados por meu irmão e meu pai). Depois de um tempo recebemos a mochila oficial, com um Fuleco – mascote da Copa –, broches e uma medalha de agradecimento.

 

Fizemos amizade com os seguranças. Um deles, Edson, 26 anos, capoeirista há nove e pai de três meninas, nos mostrou um vídeo no celular de um trabalho feito no curso de Educação Física:

 

– Eu que elaborei a coreografia. Muita gente pensa que educação física é só dar aula, mas não é assim. Tiramos nove no trabalho. Só não foi dez porque uma das meninas não fez um movimento igual ao da outra. Ficamos chateados, mas tudo bem. Disseram que fomos o melhor grupo, então está ótimo.

 

Nesses dias, tive a chance de treinar o inglês com dezenas de pessoas de vários países. Cheguei a escrever, num sulfite, algumas frases para ajudar os meus companheiros de credenciamento. Não sei se ajudei, mas que foi divertido ouvir “What’s”, “Good morning” e outras palavras, ah, isso foi.

 

Marcos, outro segurança do hotel, admirava de me ver respondendo para alguém no idioma que ele considerava “lindo de se ouvir”:

 

– Coisa mais linda você “xingando a mãe” de todo mundo aqui, menina!

 

E ríamos juntos.

 

Pois bem. Depois que a Sala de Credenciamento foi montada, ocorreram os atendimentos. Um dos convidados do congresso perguntou dos cordões nas credenciais, cujas cores variam conforme a categoria dos presentes. Voluntários eram brancos, convidados eram verde-escuro, por exemplo. “How do you say this in English?”, perguntei, ao senhor britânico extremamente elegante, o nome desse cordão em inglês. “Lanyart”, ele respondeu, pegando um papel, escrevendo a grafia e a pronúncia daquele cordãozinho.

 

Outra situação interessante ocorreu no dia da folga dos meus colegas e eu estava com outros voluntários, um deles boliviano, há dois anos no Brasil morando com um tio alfaiate no bairro da Vila Mariana, Zona Sul. Atendi outro convidado, Omar, cuja credencial saíra sem a foto.

 

Era alto, pardo, usava um terno azul-marinho sem gravata, por volta de 40 anos. No começo ficou tímido, mas logo falou que o seu nome era muito comum e a procura no sistema poderia demorar. Embora fosse, encontrei com facilidade, o problema mesmo era a imagem na credencial.

 

– Melhor a gente usar uma foto física mesmo. Todos têm a foto, acho que o computador está de implicância comigo.

 

– Não pense assim. Coisas da tecnologia, uma caixinha de surpresas como o futebol.

 

Em seguida puxei conversa, com inglês receoso, sem deixar de ser corajoso:

 

– De onde o senhor é?

 

– Da Jordânia.

 

– É a primeira vez que vem ao Brasil?

 

– Sim, a primeira. Cheguei ontem, muitas horas de voo.

 

– E suas impressões daqui?

 

– O Brasil é muito interessante. São Paulo é enorme, é um país dentro de outro. Fiquei muito impressionado. Você trabalha apenas no congresso?

 

– Na verdade, me candidatei ao voluntariado da Copa do Mundo e me direcionaram para cá. É uma experiência diferente, estou aprendendo. E você, qual o seu trabalho?

 

– Faço parte da confederação jordaniana de futebol (nem sabia que existia, pensei). Represento a instituição. E você, o que faz?

 

– Escrevo crônicas para dois sites também como voluntária, um sobre o bairro onde vivo, o outro, sobre quadrinhos. Não tenho um trabalho fixo, infelizmente. Sou freelancer de jornais e revistas e já escrevi sobre saúde, meio ambiente… Esporte, ainda não. Eu sou jornalista.

 

– Uma boa jornalista ou uma má jornalista?

 

Sei que Omar disse isso em tom de brincadeira, de provocação. Presumo que ele gostava de ouvir aquele papo, mas ficou bem pensativo (espero que tenha entendido) quanto à resposta dada:

 

– Faço o possível para fazer o melhor, Omar! Não sei se sou boa ou ruim. Tento fazer o melhor. Da questão mais simples, como a sua credencial, até a mais complexa, como escrever sobre câncer. Se eu não consigo, não me sinto derrotada: assumo e tento novamente. Meus pais ensinaram isso para mim e para meu irmão. Se fosse para dar um conselho, seria este: tente sempre! Afinal, ninguém é expert, ás em um assunto.

 

Omar replicou sorrindo, enquanto um dos coordenadores verificou que a foto havia saído corretamente. Problema na conexão de internet. Entreguei a credencial àquele homem, desejando-lhe boas-vindas.

 

Sabe, nunca imaginei conversar com um jordaniano, muito menos dar conselho a um. Povoa minha mente aquela ideia de que homens do islã são “cabreiros” no trato com as mulheres, que dirigem a palavra somente às que usam véu, roupas que cobrem os joelhos.

 

Gosto de, mesmo com certa timidez, olhar nos olhos, ainda que por segundos. Mas confesso receio do que ele possa ter pensado de mim, que o modo como me comportei tenha soado como desrespeitoso, impuro.

 

No outro dia, encontrei-o na escada rolante, eu de um lado, ele do outro, recém-saído de uma reunião. Mal subi as escadas, Omar abriu um sorriso largo, me desejou bom-dia e perguntou como eu estava. Disse que estava muito bem, com algum trabalho a fazer e lhe desejei um ótimo dia.

 

Ali percebi que somos todos crianças. Que mesmo com as culturas diversas podemos romper as barreiras.

 

Pois é, temos muito o que aprender.

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora.

3 comentários para “Ás da Copa”

  1. Carlinhos de Lima

    Somos mesmo crianças. Prazer de falar sem nedo com desconhecidos. Torbar o desconhecido, íntimo.B0

  2. Maria Neide

    Parabéns pelo seu trabalho Keli. Excelente texto.
    Sinto-me honrada de fazer parte desta história aqui contada e ter conhecido pessoas como você compensou ainda mais estes dias como voluntária da copa.Saudades!
    Até a próxima

  3. Marcelo

    boa recordação
    por instantes relembrei nossos dias de voluntários …
    Texto perfeito…!! 🙂
    faz com que fechamos os olhos e voltamos aos dias de voluntários..
    "Posso ajudar!" rs kkkk

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