Atitudes

 

“Foi por isso que aconteceu aquilo lá na boate.” Palavras proferidas por uma velha (um ser daqueles não merece eufemismo algum), que, não contente em discutir com uma atendente dos Correios, foi querer se sentar no lugar onde estava um adolescente. Certamente só pelo prazer em dizer que os jovens não respeitam os mais velhos.

 

Havia várias cadeiras vazias na agência e, na mais próxima à porta, estava sentado um office-boy, que mexia no celular. Depois de discutir muito grosseiramente com a atendente, a velha estrangeira, de sotaque carregado, ficou plantada ao lado do menino. Com tantos lugares vagos, todos só observavam aquela senhora em pé sem motivo. Todos observavam – e, como sempre –, fui premiada com o olhar dela na minha direção, compartilhando aquele comentário absurdo, referindo-se, como todos sabem, à recente tragédia e ao adolescente, que só notou a presença dela após ouvir aquela frase infeliz.

 

Fiquei sem reação. Muito mais pela minha incapacidade de dar respostas “na lata” do que por algum provável respeito que aquela mulher não merecia. Eu poderia me dirigir ao menino e falar que “eu prefiro ter um filho veado que um filho velha” (fazendo referência ao clássico da “Terça Insana”), rirmos internamente e deixar a velha no vácuo. Também poderia olhar bem no fundo dos olhos dela e mandá-la repetir o insulto, fazendo-a passar a maior vergonha de todas as suas vidas (assim, no plural, mesmo). Eu poderia até perguntar se ela queria se sentar no lugar onde eu estava – mesmo tendo vários outros lugares vagos – e evitar mais confusões. Mas antes de que eu conseguisse pensar em tomar qualquer atitude, o adolescente se levantou sem dirigir uma única palavra à mulher e sentou-se em uma cadeira a míseros cinco passos de onde estavam. Como se aquela senhora não tivesse nem existido, o garoto percebeu que o insulto havia sido dirigido a ele, mas não esboçou nenhum sentimento de repulsa. Sábia atitude.

 

A velha, claro, prosseguiu resmungando com a mulher que estava ao seu lado. Sábia atitude, pois, se ela continuasse a falar comigo, a essa altura, eu já tinha umas poucas e boas respostas na ponta da língua, que a fariam ter o privilégio de conhecer meu lado yang que muitos duvidam que eu tenha.

 

Ao ser chamada novamente pela atendente dos Correios, aquela senhora voltou a discutir, querendo chamar a atenção de todos para um possível erro da empresa. A atendente, de forma muito calma, explicou o que havia ocorrido; e depois de umas quatro explicações, a encrenqueira entendeu que não estava sendo enganada, saindo da agência decepcionada por não ter tirado a paciência de ninguém – exceto a minha, mas quem não entrou na fila das respostas “na lata” teve tempo de sobra para dar muitas voltas em outras filas, como a da invisibilidade na hora da raiva e a da abstração dos momentos de indignação.

 

Observar o caminhar daquela velhinha voltando para casa, sem conseguir a atenção pela qual tanto apelou, me fez pensar no quão carente e insegura ela devia ser. Por que o garoto não discutiu com ela? Por que ele não comprovou a afirmação de que os jovens de hoje em dia não respeitam ninguém e só pensam em si? Por que a atendente foi tão educada com aquela cliente que a tratou de forma tão desumana? Ignorar a carência é a atitude mais sábia de todas. E também a mais cruel.

 

 

3 comentários para “Atitudes”

  1. Thais Polimeni

    Thais Polimeni

    Para Mayra e Felliphe
    Obrigadaaa, Má! Sempre uma alegria ler seus comments 🙂

    Valeu, Felliphe!

  2. Felliphe

    Ignoramos a carencia do outro pelo simsples fato de escondermos a nossa……

    Lindo texto….

  3. Mayra

    Texto curto, direto e eficaz. 🙂

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