“Avatar” e o cuitelinho

Em tempo de filme poético e bem sucedido, a indústria cinematográfica calcula os lucros, mas dá recado duro sobre a relação desértica entre o homem (ser dotado de inteligência e estupidez) e a natureza.
Há um mistério a ser desvendado: por que o homem carrega em si tanta sede de deserto? Pode ser que diante de tanta degradação a vida imite a arte, e os animais não se deixem matar nos cativeiros, nos rios, mares e florestas.
Não se trata de fazer nenhum vaticínio catastrófico e sim de aguçar os sentidos para sentir no corpo o óleo derramado constantemente nos mares, o odor das queimadas amazônicas, o arpão que estoca as baleias, as balas que sangram o marfim e a visão atômica da bomba H.
A história da civilização é marcada por uma busca incessante de modernidade, meta suprema e universal. Há, porém, indícios de que a raça humana já foi mais digna de ocupar um pequeno planeta (se comparado ao universo) chamado Terra.
Há um paradoxo a ser questionado: por que o homem primitivo tinha uma relação mais humana com a natureza? Pode ser que diante de tantos apelos e respostas duríssimas das águas (seja em forma de gelo, degelo ou de temporais) o homem cuspa menos em seu próprio rosto.
E se o mundo da ficção está distante, fico por aqui com os botos bailarinos de Jacques Cousteau, com o voo de primavera dos cuitelinhos, com as mulheres e homens do Greenpeace e com todos que fazem o mínimo esforço para que o ar e as crianças continuem puros.
Pena Branca e Xavantinho cantaram: “A tua saudade corta feito aço de navalha / O coração fica aflito / Bate uma, a outra falha”. Fica outra dúvida: o coração do homem bate por quem? Pelos animais? Pelas florestas? Por ele mesmo? Por ninguém?
Talvez o homem desapareça, e não só por destruir os bens naturais. Talvez o homem pereça diante da sua incapacidade de sentir saudade de si mesmo. A saudade de ser humano outra vez.

4 comentários para ““Avatar” e o cuitelinho”

  1. fabiano fachini

    O coração do Homem bate por quem? Alguns batem, outros nem isso… Oxalá que os olhos e os corações dos homens se voltassem para a natureza, essa maravilha que destruímos aos poucos, ao dar espaço para nossos cinzentos aranha céus… Avatar, um clásico, especialmente pela reflexão da burrice e da ganância humana.

  2. rodrigo vaian

    ótimo.

  3. rodrigo vaian

    cuitelinho da saudade
    belo texto, adoro cuitelinho . e fez relembrar nosso Pena Branca, que ficou encantado há 15 dias.

  4. Jennifer Damaceno

    [b][/b][i][/i]Parabéns,como sempre seus textos seus poema são todos maravilhosos. E esse não deixa a desejar
    Você é um escritor e tanto.

    Atensiosamento, Jennifer

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