Banana com aveia

 

 

Estava em casa, dia desses, na cozinha. Eram dez da manhã e ajudei a minha mãe nos afazeres domésticos. Lá fora tinha sol, pouco vento e, após a louça lavada, deu uma fome atípica. Em geral, almoço ao meio-dia, mas, se há compromissos, a refeição fica para quando dá. No entanto, fiquei faminta. Aliás, não estava bem – meu coração, penso eu, previa que semanas depois iria ao enterro de uma grande amiga.

 

Não gosto de quando nada tenho para fazer, sinto-me o pior dos seres. Mando e-mails, rascunho textos, faço pesquisas. Parada, contudo, não fico. “Será que chegou aquela proposta dos xeiques árabes de um milhão de dólares?”, brinco, diante do notebook, enquanto apago convites para participar de grupos, sendo que nem inscrição fiz, e mensagens, como “aumente o seu órgão sexual masculino em poucos dias”, “livre-se das dívidas”, “passe as próximas férias em Orlando”.

 

Mas, naquele dia, sinceramente, não estava com ânimo de ficar na internet. “Sente-se e coma banana com aveia, filha”, aconselhou minha mãe. Fui e fiz. Peguei um pratinho de plástico e a colher, descasquei a banana-prata – porque a nanica não digiro bem, cortei com a colher mesmo os pedacinhos, joguei aveia em flocos grossos, porque dos finos não gosto muito.

 

Comendo meio borocoxô, cabreira com as injustiças do mundo, comecei a dar uma de Jean-Paul Sartre e refletir sobre a minha existência aqui neste planeta. Para ser franca, até penso nas escolhas feitas e acho cool ganhar tempo com isso. E digo mais: interessante quem é convicto com as alternativas selecionadas. Nunca mudo minhas escolhas!, uns dizem. Apenas respondo: Caraca!

 

Deve ser porque vejo coisas tão malucas neste mundo de meu Deus que é bom ter em mente que nem tudo é o que parece, que (quando possível) podemos mudar de ideia, dar um passo para trás, não ter escolhas nem saber a razão de escolher… Não temos controle de tudo. E, nesse tudo, podemos tentar.

 

Pois bem, o dia passou, a tarde veio e saí com minha mãe. Temos uma vizinha em frente de casa que sempre conversa conosco. Já a irmã dela, que mora ao lado, nos cumprimenta, mas não é de conversar. Quando saíamos, contudo, ela e a filha começaram a falar copiosamente conosco sobre o sítio onde passam férias e festejos, a alegria das crianças com os dias de descanso, os jogos da Copa. Veio então a irmã faladeira e completou o nosso bate-papo. Senti-me nas cidades interioranas, falatório na soleira da porta, risos tímidos e afáveis em meio à vizinhança.

 

À noite, verifiquei minha (micro)biblioteca, situada no quarto. Na verdade, é uma estante de madeira, bem velhinha, onde cabem poucos livros na vertical. Pensei várias vezes em descartá-la, comprar outra porque alguns títulos encadernados estão amassando. Mas não teve jeito, a grana está curta e decidi reformá-la.

 

Acordei cedo no dia seguinte, pois à tarde haveria jogo do Brasil, e fui a uma papelaria comprar uns papéis adesivos, estampados com rosas e poás.

 

No portão de casa tinha algumas contas e caiu uma pequena carta. Vi que o nome era desconhecido e constatei que a carteira (sim, há carteiras no bairro, não só carteiros!) errara o endereço. Poderia explicar-lhe o ocorrido ou simplesmente jogar fora o envelope. Mas fui procurar. Cinco minutos depois, achei a residência, vazia, tudo apagado, sem carros na garagem.

 

Poderia ter jogado de qualquer jeito ou mesmo ter esperado alguém aparecer para entregar o envelope. Mas não fiz. Simplesmente coloquei-o dobrado no portão e segui para a papelaria, pensando nesses dias e naquela situação.

 

Acho bom pensar nisso, nas escolhas feitas, nas tentativas arriscadas, nas surpresas que a vida nos coloca. Dá luz aos problemas, muda a rotina com coisas tão comuns e diversas.

 

Coisas como banana com aveia.

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora.

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