Boa-tarde, Sé

Não sei se por receio ou por falta de oportunidade, poucas vezes estive na Praça da Sé, só mesmo passei de ônibus por lá. Nesta terça-feira, contudo, estou lá. Precisei ir para aquelas bandas, mesmo com a garoa fina e o tempo cinza típico de outono. Típico de São Paulo.

Era por volta das cinco horas da tarde e estava voltando de um compromisso. Aproximei-me da catedral, incrustada no marco zero da cidade, palco de tantos manifestos e manifestações. Berço das “Mães da Sé”. Berço de numerosos moradores de rua.

Poucas vezes tinha visto tamanha concentração de pessoas, eram tantas, que não conseguia enumerá-las. Muitos jovens cheirando vestígios de cola de sapateiro em sacolinhas (nem imaginava que esse tipo de entorpecente fosse ainda usado, em tempos de drogas mais pesadas, como o crack), idosos demais olhando para o nada e carregando seus embornais, sem rumo.

Havia também alguns turistas, encorajados a fazer selfies por causa de duas viaturas e policiais que rondavam por ali. Eu, meio inerte à situação, comecei a observar – segurando firme a bolsa, confesso – o povo. Homens, sentados nas escadarias da imponente igreja, olhos vazios, mãos ao rosto sujo, caras emburradas, cheias de tédio, ou mesmo de fome.

Outros mais perambulavam ziguezagueando pelos pedestres que se dirigiam ao metrô e, perto do espelho d’água, vi um aglomerado, um falatório de vários deles, cujas conversas não conseguia identificar.

Prossegui até a estação, quando vi uma das moradoras, presa em seus devaneios alucinógenos, balançando os braços e gritando alto. Mais alto que sua própria altura – deveria ter por volta de 1,90 metro, parda, olhos castanhos, cabelos curtos e crespos, prendedores nas madeixas, pés cor de piche, trajando só um short rosa e um top amarelo. Tórax livre ao vento.

“Ah, boa-tarde, boa-tarde! Bom descanso, fica com Deus!”, foi o que ela disse. Abafadamente, quase sussurrando, respondi eu um “amém, obrigada”, e acho que fui a única que deu ouvido àquela moça, que daria para ser modelo. Não olhei para trás, para ver a sua reação.

Engraçado, eu sempre cumprimento as pessoas e fico observando suas respostas. Às vezes, recebo silêncio, às vezes, um sorriso. Penso eu que a moradora de rua também lance essa “provocação”, como se evocasse: “Sim, estou na sarjeta, mas não perdi a educação”.

Deu sorte, recebeu, mesmo abafada, uma frase.

Eu, no mesmo dia, reparei no cobrador do ônibus onde eu estava, que cumprimentava quem passava pela catraca. De retorno, silêncios, um chocho “boa-noite”. Como na hora em que passei pela catraca ele não estava – embarquei no terminal –, decidi dizer “boa-noite e bom descanso” no desembarque. Fui e fiz.

Para meu espanto, recebi cara feia. Saí do ônibus chateada.

Isso não me impedirá de continuar cumprimentando as pessoas, contudo. Assim como aquela moça que cumprimentará quem passar pela Sé, mesmo em suas condições tristes.

 

Foto: Trilhos Urbanos. A Praça da Sé, no Centro Histórico de São Paulo, vista da escadaria da Catedral da Sé. Julho/2012

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