Brasílias de papel

 
A capital do país completa 50 anos neste 21 de abril. Uma série de iniciativas marca a comemoração do cinquentenário de Brasília, algumas até mesmo fora da cidade, como é o caso da exposição “Outros Planos: Brasília”, realizada em São Paulo.
A exposição apresenta os sete projetos finalistas do concurso promovido em 1957 pelo governo Juscelino Kubitschek para o Plano Piloto daquela que viria a ser, três anos depois, a nova capital brasileira.
Baseada na pesquisa de Jeferson Tavares, que resultou em sua dissertação de mestrado, concluída em 2004 no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos – USP, a exposição mostra o projeto vencedor de Lucio Costa, que orientou a construção de Brasília, e outros seis planos bem classificados no concurso. O visitante poderá conferir, portanto, ideias que resultariam numa outra Brasília.
Entre os autores desses projetos, estão o engenheiro Boruch Milman e os arquitetos Rino Levi, Vilanova Artigas, Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin, Milton Ghiraldini e os irmãos Marcelo e Maurício Roberto. O mineiro Boruch Milman participou do concurso ao lado dos arquitetos Ney Fontes Gonçalves e João Henrique Rocha. O plano do trio ficou em segundo lugar. Além dos sete finalistas, outras 19 equipes também participaram do concurso para Brasília.
Vontade antiga
A ideia de construir uma capital no interior do país era antiga, remontava ao século 19, e a determinação de erguer um novo centro de poder fez parte das Constituições de 1891, 1934 e 1946. Pelo menos quatro comissões de estudos, formadas entre 1894 e 1954, analisaram o local onde a cidade deveria ser construída.
Esses estudos sempre se voltaram para a região de Goiás, no centro geográfico do país. De acordo com a pesquisa do arquiteto Jeferson Tavares, antes do concurso feito no governo JK, cinco outros projetos foram elaborados entre as décadas de 1920 e 1950 para uma nova capital.
Na campanha eleitoral de 1955, o então candidato Juscelino foi cobrado por um eleitor, durante comício realizado em Jataí, no interior de Goiás, a respeito da determinação constitucional. Juscelino prometeu cumpri-la. Eleito, fundou a empresa Novacap, responsável pela construção da capital, e criou o concurso de planos.
Lucio Costa (1902-1998), vencedor do concurso, foi um dos grandes nomes da arquitetura moderna brasileira. Era o líder de um grupo de arquitetos do Rio de Janeiro do qual faziam parte Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy. O grupo trabalhara com o franco-suíço Le Corbusier, ícone da arquitetura moderna mundial, no projeto inovador da sede do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Conhecido como Edifício Capanema, o prédio foi inaugurado em 1945.
Ao tomar posse da Presidência, Juscelino convidou Niemeyer para planejar Brasília, mas este abriu mão do convite e sugeriu a realização do concurso, assumindo a responsabilidade de desenhar os palácios e os prédios públicos da nova cidade. Niemeyer já trabalhara com Juscelino na década de 1940, quando este era prefeito de Belo Horizonte. Na ocasião, o arquiteto projetou a construção do Conjunto da Pampulha, formado pelo Iate Clube, a Igreja de São Francisco, o Cassino e a Casa de Baile.
O edital do concurso de Brasília exigia o planejamento de uma cidade para 500 mil habitantes. Operários de todo o país seguiram para o Planalto Central a fim de construir a nova capital. Muitos ali se fixaram depois da inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. Conhecidos como candangos, deram origem às cidades-satélites. Hoje o Distrito Federal conta com 2,6 milhões de habitantes, de acordo com o IBGE.
Baseado em dois eixos que formam uma cruz, o Plano Piloto desenhado por Lucio Costa destaca a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios como centro administrativo do país. Permeado por áreas verdes, o plano é dividido em setores, ou seja, áreas funcionais destinadas a usos específicos. Nos setores residenciais, prédios de seis andares formam superquadras servidas por áreas comerciais locais.
Descontrole
Cidade construída para priorizar o uso do automóvel, Brasília conta com avenidas largas e tem transporte público deficiente. Seu crescimento rápido e descontrolado escapou ao planejamento de Lucio Costa e tornou-se um grande problema urbano.
As periferias se estendem muito além do Plano Piloto e extrapolam, inclusive, os limites do Distrito Federal. Cidades goianas vizinhas ao DF, que formam a região conhecida como Entorno de Brasília, também tiveram forte crescimento e apresentam graves problemas sociais e urbanos.
A exposição dos projetos finalistas do concurso, além de mostrar caminhos que Brasília poderia ter seguido, reflete as concepções urbanísticas em vigor no Brasil nos anos 50 e apresenta contribuições que orientaram e ainda podem orientar outras cidades do país. Painéis com imagens e textos sintetizam as sete propostas selecionadas. Comentários do júri do concurso também são apresentados.
“Outros Planos: Brasília” fica aberta a visitas até 18 de maio no Museu da Casa Brasileira, na avenida Faria Lima, 2705, Jardim Paulistano, região oeste de São Paulo.
A exposição ainda contará com dois debates. O primeiro, intitulado “Outros planos: como seriam as outras Brasílias?”, no dia 27, reúne arquitetos como Jorge Wilheim, Jeferson Tavares e Pedro Paulo de Melo Saraiva – este participante do concurso de 1957. O segundo, “Brasília: Reflexão e Crítica”, acontece no dia 11 de maio, também às 19h30, e discutirá os rumos da capital do país.
Os ingressos custam R$ 4. Estudantes pagam R$ 2 e têm entrada gratuita nos domingos e feriados. Mais informações pelo telefone (11) 3032 3727 e na página do Museu da Casa Brasileira na internet, clicando aqui.
 

Comentário