Brilha, brilha, estrelinha

A água sempre me encantou, seja ela do mar, seja do rio, seja da cachoeira, seja da piscina, seja do chuveiro, mesmo. Ela me alegra, me equilibra, me limpa em todos os sentidos.

O engraçado é perceber que ela sempre me acompanhou. Quando bebê, como sou de Santos, litoral paulista, sempre ia à praia. Adorava! Depois da fase do baldinho, lembro-me dos longos mergulhos e do surfe. Mais adiante, a caminhada pela beira-mar, feita de encontros com amigos e conhecidos, coisas de cidade média.

Durante a semana, o compromisso com a água era na piscina. Nadei por muitos anos, desde pequena até um pouco antes da faculdade. Eram encontros diários, horas e horas, trabalhando pernas e braços, corrigindo e melhorando os estilos, treinando exaustivamente, uma briga intensa contra o relógio. As competições aconteciam regularmente, e o foco era uma boa prova. Eram diversas cidades. Eram numerosíssimas piscinas, alguns rios e o mar. Eram muitos conhecidos, todos apaixonados por água e por natação.

Quando entrei na faculdade, larguei os treinos diários. Me despedi da profissão de nadadora e abri uma página nova para começar a carreira de publicitária.

Meus encontros com a água ficaram cada vez menores. Para tentar contornar isso, surgiam as ecoviagens. Banhos de cachoeira, rafting, tirolesa e tudo que envolvesse água.

Depois que casei, os encontros ficaram ainda mais escassos. Meu companheiro não era fã de água como eu. Mas, quando engravidei, senti a necessidade e me joguei na piscina do prédio. Eram encontros semanais. Me sentia em harmonia e em equilíbrio. Nadei até o final da gestação, quarenta e uma semanas e dois dias. No dia seguinte, minha filha nasceu.

Para minha surpresa, ela chorou no seu primeiro banho, no segundo e no terceiro. A partir do quarto, ela conseguiu se entregar para a experiência e perceber quão bom aquilo era. Não preciso nem dizer que hoje é uma luta diária para tirá-la do banho. Ela só sai da banheira quando não tem mais água, nenhuma gota, e exclama: ”Acabou, mamãe?!”.

No final das contas, o banho é um momento de confraternização e alegria aqui em casa. Brincamos, contamos histórias, brindamos com as canequinhas de plástico, entre outras atividades.

Normalmente tomamos banho separadas, mas é claro que já nos banhamos juntas algumas vezes. Até porque é mais uma forma de ensinar a dinâmica do banho e brincar ao mesmo tempo. E cada vez que isso acontece, é uma descoberta nova.

A primeira foi que eu tenho “periquita” e ela também. Depois, ela percebeu a existência dos seios. Quando penso em pular a parte do creme corporal, ela me lembra, “Creme, mamãe”, e prontamente me ajuda a espalhá-lo. Fica maravilhada de como as mãos deslizam no corpo. O cheiro e a textura do creme também são surpreendentes. Na minha perna, as pequenas mãozinhas ficam um bom tempo, mas não passam da metade das coxas.

As explorações não param por aí. Outro dia, ela se deu conta de que tenho uma tatuagem. Ficou superentusiasmada, apontou para o desenho e começou a cantar, “Brilha, brilha, estrelinha, quero ver você brilhar, faz de conta que é só minha, para ti irei cantar”. Sorria e cantava com tamanha animação. Era lindo de observar. Apontava e cantava. Fez isso umas cinco vezes, não cansava, parecia mágico.

No dia seguinte, pediu para ver novamente o “desenho” e exclamou: “Pinta, mamãe”! Peguei uma caneta e fiz uma estrela no dorso da sua mãozinha. Ela me olhou admirada, sorriu e se iluminou. Que ela continue a ver o brilho nas pequenas coisas da vida. “Brilha, brilha, estrelinha.”

 

Imagem: photobucket.com

3 comentários para “Brilha, brilha, estrelinha”

  1. Patricia

    Texto delicioso de ler, leve e divertido! Parabéns!

  2. Maria Aparecida

    Como sempre brilhando!!Lindo!!Parabéns!!

  3. Carlos

    ótimo !!! Parabéns !!!!

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