Canções pra sempre

 

 

Algumas canções me fazem chorar. Outras fazem-me lembrar do Forte que eu construía para a coleção de soldadinhos de plástico vietnamitas, vinda diretamente da Zona Franca de Manaus. E algumas lembram-me minha mãe com um olhar perdido na janela segurando um copo de qualquer coisa na mão, enquanto uma lágrima que escorria pelo teu rosto molhava a poltrona seminova que ela acabara de ganhar de presente de casamento do seu novo marido importado do Japão.

Canções de ninar, jingle bells, coelhinho da páscoa, boitatá, mula sem cabeça, canções folclóricas, canções regionais, rock n´roll, não importa.

Ainda não resolvi o que vou ser quando crescer. Já fui tudo e já desisti de muitas coisas. Agora penso em desistir de tudo o que já fui e do que ainda serei.

Às vezes fico assim mesmo. Nostálgico.

Hoje, fuçando as gavetas empoeiradas do meu quarto, encontrei lembranças de histórias vividas. Miniaturas, bilhetes, sabonetes, retratos em branco e preto, baratas, chaves, armas, flautas, bolinhas de gude, figurinhas, cartas de amor, cartas de despejo, papéis… papéis… papéis e papéis.

Quando assisto a alguns dos filmes de Marlon Brando da imensa coleção que tenho guardada a sete chaves num armário de aço aqui no meu quarto, tenho certeza de que serei ator, mas basta ouvir Bob Bylan ou Tom Waits pra minha certeza dizer-me que serei cantor. E, a cada livro do Velho Safado que devolvo à prateleira, não me resta dúvida de que serei escritor, mesmo sabendo que me falta talento pra todas essas atividades. Na verdade seria… Peraí. Vou pensar mais um pouco. Até amanhã. Ou depende de quando você ler isso.

*

Tenho dormido mais do que o costume. Bebido mais do que deveria e comido um tanto quanto…

Tenho chutado latas de refrigerantes no vão da calçada sempre quando volto pra casa sozinho pensando em que será que estão pensando os habitantes inóspitos dos apartamentos que ainda estão com as luzes acesas a esta hora da noite. Tô sempre atento aos parapeitos, em busca de algum solitário voador. Tenho sempre essa maldita esperança. Tenho sempre essa maldita palavra travada entre os dentes, pronta pra ser cuspida e levada junto com a água que se forma no meio do asfalto quente logo após uma forte chuva de janeiro, fevereiro, março, abril…

E aí só ficam as canções. Todas elas. Uma melodia.

 

*Paulinho Faria pode ser escritor, ator, dramaturgo e diretor teatral, e até autor do livro de contos “O Pankada” (veja mais aqui ).

 

 

3 comentários para “Canções pra sempre”

  1. Guilherme Bareno

    [b]Boa Paulinho ótimo texto!

    Abraço[/b]

  2. Guido Carballo

    Sempre e bom ler Paulinho
    E incrivel que um cara so possa ser tao bom em tanta coisa. Acho muito legal os textos do Paulinho. Uma lastima que nao tem mais textos assim no jornais, nas revistas …

  3. Jorge Lode

    A sensibilidade mostra a pureza.
    O nosso interior é um mundo vasto com receios atuantes e sonhos perceptíveis. O texto do Paulinho é delicado e singelo. O encontro do “eu” e a definição do “ser”, argumentado com tanta sensibilidade, que é impossível não navegar em suas palavras e deixar de visualizar as imagens expostas ao exposto texto.

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