Castelo de areia (Sobre homens e crianças)

Henfil,

Ser pai é quase ser criança. Mas o aposto machuca Aylan Kuri, 3, morto por afogamento em uma praia dos principais destinos turísticos da Turquia. A criança era um dos doze refugiados sírios que morreram.

Dizer o quê? De quem fugiam e fogem os milhares que buscam refúgio na Alemanha? Será que a gente síria foge do conflito armado deflagrado por Gandhi e Mandela?

Aos dirigentes de Estado da América do Norte, França e Inglaterra cabe uma reflexão: o pequeno Kuri, vítima de afogamento, fugia de mais uma guerra bestial criada pelo mundo adulto.

Em três anos todas as notícias ficam velhas e não mais despertam interesse para os internautas, leitores e telespectadores do telejornal. Em três anos alguém desvia verbas destinadas à saúde e merenda escolar. Em três anos alguém descobre uma vacina para superar uma moléstia, até então incurável, mas que dificilmente chega aos mais pobres porque certos medicamentos custam muitos e tantos dinheiros. Em três anos o homem faz outra viagem espacial em busca de conhecimento e se esquece de fazer a principal viagem, que é a viagem para dentro de si em busca da humanidade perdida – como pediu o poeta. Em três anos os alemães já terão escrito outras histórias de solidariedade e outros campos de concentração jamais existirão. Em três anos…

Tudo é cercado de efemeridade, mas que o pequeno corpo na areia não seja esquecido – quem esquece suas crianças está fadado ao desaparecimento. A pátria de qualquer homem e criança deveria ser o chão onde cabem os pés e a vida. Um pedaço de pão, um copo d’água, um abraço – todo homem é um fugitivo…

Os movimentos migratórios existem porque a sobrevivência sempre mostra o caminho – a terra possível e não a desejada ou prometida – um abrigo antiaéreo ou quem sabe algo parecido com um lar.

Talvez a visão e as relações humanas caminhem (migrem) para uma convivência planetária – o entendimento de que toda ajuda humanitária não é para um sírio, norte-americano, francês ou japonês – a ajuda é para seres vivos nascidos em uma mesma nação chamada Terra.

Tenho certeza de que se o pequeno Kuri tivesse um balde e uma pá teria construído um castelo de areia para abrigar sírios, norte-americanos, franceses, ingleses, alemães, austríacos – todas as pessoas e seres vivos da Terra. E ninguém mais teria que fugir…

Só um pedido. Na próxima edição do Rock in Rio, o garotinho Kuri poderia ser lembrado com a canção Bless the Beasts and Children (Abençoai as feras e as crianças, em tradução livre).

Jornalirista

 

Ouça Bless the Beasts and Children, canção dos The Carpenters incluída no álbum Bless the Beasts and Children (1971), trilha sonora do filme homônimo:

 

 

Foto: Vanderlei Kriesang/Laguna (SC)

 

Um comentário para “Castelo de areia (Sobre homens e crianças)”

  1. Vanderlei Kriesang

    Caro prof Silvio. Fiquei muito surpreso e feliz em ver uma fotografia minha (brincadeira das crianças) ter sido escolhida para fazer parte da tua reflexão.
    Forte abraço.

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