Cleiton precisa namorar

 

Este é um daqueles momentos em que a gente para e pensa: Que porra de vida é essa? Que foda, meu.

 

Aí você para e pensa de novo: existem razões que a gente desconhece, mas que dá pena, dá.

 

Neide trabalha aqui na empresa. Ela cuida da nossa limpeza de maneira perfeita. Sempre ri quando eu falo: “Neide, tem um corpo no escritório”, me referindo às baratas mortas que surgem vez ou outra por causa da dedetização.

 

Neide me chama de “Pra Frente” porque eu nunca chego perto dela para não fazer uma piadinha ou sair agarrando-a e dizendo: “Vem cá, vem… me dá um beijinho”. Ela ri. Sempre.

 

Estatura mediana, pele negra, corpo esguio e os olhos mais tristes que eu já vi. Ela não tem namorado, não sai, não se diverte. Sempre na mesma rotina corrida e assustadora em que o medo toma o espaço da esperança.

 

Neide tem um filho autista de 19 anos. Cleiton. E foi justamente sobre ele que estávamos conversando. Sempre ouço o que ela diz, quando ela decide falar. Sei que é uma válvula de escape, chance de desabafo.

 

— Ai, “Pra Frente”, que sono.

— Que foi? Passou a noite na gandaia, foi?

— Não, Cleiton tá dormindo tarde demais, isso, quando dorme.

— Por quê?

— Porque o remédio dele parece que tá fraco. Aí ele fica nervoso e não dorme. Fora que ele tá muito estressado ultimamente.

— Eita, e agora? — Claro que eu sempre digo isso por não saber o que dizer.

— Agora que eu vou no psiquiatra ver se ele aumenta a dose. Não aguento mais passar a noite acordada.

 

Foi então que eu, no auge do meu pensamento, falei:

 

— É foda, não é? Cara, sei que a lei da vida é as mães irem primeiro. Mas, quando você morrer, já pensou em como ele vai ficar?

 

Ela respondeu quase chorando:

 

— Então, minha filha, eu rezo todos os dias para que isso não aconteça. Quero que ele vá primeiro. Que ele deixe esse mundo em paz e sem sofrer. É como se eu ficasse louca todos os dias pensando nisso, mas aí não posso enlouquecer, sabe?

 

Parei. Não consegui mais falar nada. Aquela coisinha pequena estava desabafando sobre seu maior medo comigo. Pensei em todo o sofrimento e em todos os autistas que por aí vivem. Seus mundos são perfeitos, mas a realidade assusta quem vive ao redor deles. Menos mal, ao menos eles não sabem de nada disso.

 

No outro dia, na cozinha, pergunto:

 

— E aí, a médica aumentou o remédio do Cleiton?

— Não, disse que não pode.

— E agora? O que vai fazer? Passar as noites em claro?

— Por enquanto, sim. — Tanta resiliência que me arrepiou.

 

Depois ela completou:

 

— Ela disse que Cleiton precisa mesmo é namorar. Isso tudo é hormônio.

 

Eu ri.

 

Cleiton é autista, mas tem o corpo em perfeitas condições de funcionamento. Vai namorar, Cleiton? Eu fico torcendo por ti.

 

*Carolina Peres é jornalista e escritora. Contato: [email protected]

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