Começo da noite com Giocondo Dias

 

 

Nos meus tempos de militância partidária, estabeleci alguns contatos com companheiros do Partidão, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), do PS (Partido Socialista) e da 4ª Internacional (organização comunista internacional), entre os quais um grupo de estudantes que frequentavam as aulas da Faculdade de Filosofia, no Rio de Janeiro, como o Wilson Barbosa e sua mulher, uma loira extremamente interessante e pela qual cheguei a ter uma quedinha. Mas essa é outra história.

 

Apesar de morar em São Paulo, fui levado, junto com outros militantes de esquerda, a visitar o legendário dirigente comunista Giocondo Dias, que morava, se a memória não me falha, numa casa na Tijuca.

 

Sou ignorante a respeito de muitas coisas e quase sempre me socorro de algum humor, quando digo “minha ignorância é profunda”. Assim, claro que eu sabia o básico sobre o veterano dirigente do PCB, mas levei muitos anos para descobrir que Giocondo Dias não apenas era o número dois do Partidão, logo após Luiz Carlos Prestes, o secretário-geral do Birô Político do PCB, como também era um militante revolucionário que participara da Coluna Prestes, da Intentona Comunista de 1935, passara muitos anos em diversos cárceres e boa parte de sua vida na clandestinidade.

 

Na véspera do golpe militar de 1964, quando Prestes chegara a declarar na televisão que o PCB já estava no governo, os mais conhecidos militantes comunistas gozavam de bastante liberdade política, o que explicava palestras e atos públicos com Prestes, Jacob Gorender, Mario Schenberg e outros, como era o caso da nossa visita a Giocondo Dias.

 

Revolucionário histórico

Enfim, número dois ou não do PCB, pra mim Giocondo Dias era uma figura histórica e esse detalhe não teria afetado em nada a minha admiração pelo revolucionário e pelo homem.

 

Entre as perguntas que fizemos a Giocondo Dias, saltou de imediato aquela que se referia à possibilidade de uma revolução, já que estávamos em pleno mês de março de 1964, a poucos dias do que imaginávamos seria a tomada do poder pelas forças progressistas.

 

Giocondo Dias era, já naquela época, um cinquentão, de aparência franzina, voz suavemente modulada, transmitindo cultura e mostrando um gestual educado. Anos depois, quando visitei meu irmão no Presídio Tiradentes, em São Paulo, para onde levavam presos políticos, fiquei conhecendo o também legendário dirigente do Partidão Jacob Gorender, durante as visitas semanais que eu realizava nos anos 1971 e 1972. E Gorender também era fisicamente semelhante a Giocondo Dias: o mesmo corpo franzino, a voz modulada, exalando cultura e um gestual educado. Eram figuras típicas dos velhos comunistas revolucionários.

 

Bem, voltando à explanação de Giocondo Dias naqueles idos de março de 1964, o número dois do Partidão engatou um raciocínio que, na época, eu e outros militantes não levamos muito em conta. Ele disse: “O Brasil caminha para uma ruptura institucional”.

 

A noite cai

Essa frase-síntese foi esmiuçada por ele em uma brilhante “palestra” informal, enquanto tomávamos suco de caju e cafezinhos. No final da tarde, da janela da sala víamos o sol se pôr e a noite começar a impor o seu domínio, observando o lusco-fusco no jardim da casa típica de classe média. A noite estendia seu raio de ação ― para muito além do que imaginávamos naqueles tempos.

 

Hoje, passados quase cinquenta anos, suas palavras, nos alertando para um possível outro lado da moeda, voltam a ressoar em minha memória, com acuidade e assombro: uma quartelada ou golpe militar, neste ano de 1964?!

 

Entre os assistentes de sua conversa conosco, creio que não havia nenhum que acreditasse nisso: dizíamos que os principais chefes militares estavam divididos, alinhando nomes como o do general Machado Lopes, do III Exército, em Porto Alegre; do general Amaury Kruel, comandante do II Exército, em São Paulo; e do próprio general Mourão Filho, comandante da 4a Região Militar, em Minas Gerais.

 

Em relação aos governadores, exceção feita a Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, e Adhemar de Barros, em São Paulo, havia a perspectiva de normalidade democrática a governantes como Magalhães Pinto, em Minas, sem falarmos de esquerdistas notórios, como o governador de Pernambuco, Miguel Arraes.

 

Os sindicatos, apesar de deterem um pequeno percentual de filiados (o Sindicato dos Metalúrgicos, de São Paulo, tido como o de mais alto número de integrantes no país, 18%), engrossavam a CGT e outras centrais sindicais, nos dando uma falsa ilusão de poderio. Apesar disso, estávamos cegos de ilusão. Os partidos de esquerda estavam longe de representar algo parecido com os PCs da Itália e da França, por exemplo, ou mesmo do peronismo na Argentina.

 

Esperanças

Havia dois fatos novos. Um deles, no Nordeste, com as Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião. Outro, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, onde os Grupos dos 11 formavam o embrião de um poder soviético, sob a liderança de Leonel Brizola. Em São Paulo e no Rio, as “marchas da família com Deus e pela liberdade”, financiadas e organizadas pelo Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e pelo Ibade (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), entidades acintosamente pró-norte-americanos, com o apoio da CIA (órgão da inteligência dos Estados Unidos), revelaram alguns milhares de mulheres marchadeiras (as chamadas “senhoras de Santana”), mas estas eram debochadas pelos partidos de esquerda, que as rotulavam de minorias ínfimas.

 

As dissensões e dissidências entre os partidos de esquerda adquiriam às vezes o contorno de uma guerra interna, deixando em geral de organizar uma autêntica frente de esquerda para encarar os partidos de direita e as próprias forças armadas. Até mesmo Leonel Brizola, organizador dos Grupos dos 11, uma provável organização de poder, era visto com desconfiança por alguns setores progressistas da sociedade e da política. Acredito que, se tivéssemos tido tempo para forjar uma estrutura partidária revolucionária, no prazo de mais um ano ou pouco mais, disseminada pelo país, poderíamos contrapor ao exército brasileiro um exército revolucionário como o exército vermelho organizado por Leon Trotsky, em 1917, na Rússia.

 

Enfim, os argumentos que brandíamos a Giocondo Dias, acima relatados, não serviram para muito, já que nossas viseiras não nos permitiam olhar para os lados. Talvez só hoje possamos entender o que ele queria nos alertar naqueles idos de março. E isso incluía muitos atalhos para o futuro.

*Juvenal Azevedo ([email protected]) é jornalista, publicitário e assessor de imprensa.


 

Um comentário para “Começo da noite com Giocondo Dias”

  1. Carlos Brazil

    Aplausos
    Muito bom, jovem Juvenal. História realmente digna de registro neste belo Jornalirismo. Grande abraço, do amigo Brazil.

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