Comportamento, sociedade e homossexualidade

Um desafio:

Falar de sociedade, dos tão numerosos (quase infinitos) tipos de preconceito que nela existem e, principalmente, sobre homossexualidade, não é tarefa fácil. É tão complexo pensar na questão, porque estas três esferas (sociedade, comportamento e homossexualidade) estão interligadas de tal modo que formam um nó.

“O que os olhos não veem, o coração não sente.” É um dito popular muito utilizado e provavelmente você não só o tenha escutado muitíssimas vezes como também pronunciado.

Aqui, lhe proponho um desafio, invertendo a frase: “O que sente o coração quando os olhos veem? E, mais do que isto: Quando os olhos veem aquilo que não aprovamos, de que não gostamos?”. Conversaremos a respeito mais adiante, mas seria bom você pensar em qual seria a sua resposta.

Preconceito, uma questão mais do que histórica

Século XXI, ano de 2015: nossa realidade. Chamado também de Século Contemporâneo, de Era Pós-Moderna, ou, ainda, de Era Líquida, segundo o dizer do sociólogo Zygmunt Bauman. Ele defende a ideia de que a nossa sociedade não “consegue” mais tecer relações duráveis, devido a uma insatisfação constante no ser humano, o que leva as pessoas (e a sociedade de um modo geral) a terem diversos vínculos, mas sem afetos que consolidem as relações.

Esta é, para muitos sociólogos e filósofos da nossa era, uma realidade. Contudo a questão da liquidez, a que Bauman se refere, é muito mais ampla do que apenas as questões que entrelaçam as relações humanas. Ele se refere, inclusive, a um “esvaziamento” de padrões, como regras que deveriam ser seguidas pela sociedade.

Se, por um lado, há certa dificuldade em desenvolvermos laços afetivos, há, por outro, uma liberdade de escolha em nossas vidas, em relação a tudo, talvez jamais vivida em outro tempo. Se há, portanto, esta forma de liberdade, as noções de “certo” ou “errado” caíram por terra e a cada um de nós compete fazer escolhas sem que a própria sociedade possa nos julgar.

Outra tentativa de caracterizarmos a nossa atualidade é compreender que teorias novas se desenvolveram para compreender não só o ser humano, como também o sistema no qual estamos inseridos, e uma delas é a Teoria da Relatividade. Desenvolvida pelo físico alemão Albert Einstein na primeira década do século XX, afirma que tempo e espaço são relativos e estão profundamente entrelaçados. Para além do tempo e do espaço, entram aqui as crenças, os valores e os comportamentos do ser humano.

Ou seja, tudo é relativo, do ponto de vista de uma pessoa. Não há mais certo, nem errado. Há o que a pessoa acredita ser “verdade” para ela e não mais uma única verdade que deva ser imposta a todos os seres humanos, seja pela família, pela igreja ou pelo Estado.

Você deve estar se perguntando: o.k., se toda esta transformação já deu seus primeiros passos e continua a se desenvolver, por que ainda a nossa sociedade é tão preconceituosa? E por que ainda existe um preconceito assombroso (violento e mascarado) em relação aos homossexuais?

Pois bem, no início do texto, citei o ano em que estamos vivendo: 2015. Daí que nossa era ainda é um bebê, um pouco maior do que um recém-nascido e, dessa forma, temos muitas mudanças nas teorias, mas que não vemos nas práticas.

Ou seja, vivemos no século XXI, com uma mentalidade do século XX, cujas pessoas foram educadas com os valores do “século IXX”. Enlouquecedora, esta equação! Mas é assim que estamos vivendo: com crenças e valores de diferentes séculos sobrepostos.

O preconceito mascarado

Falar de preconceito em nosso país parece-nos fácil demais, principalmente em relação a negros, ou afrodescendentes, como preferem alguns. É tão fácil falar quanto ouvir.

É fato, inclusive, que este ainda é um tipo de preconceito existente e que faz parte (infelizmente) da nossa realidade brasileira. Digo “faz parte” porque é algo que herdamos desde a época da escravidão, o que trouxe muito sofrimento para os negros, muita luta, muita discriminação e muita força até que chegássemos à primeira lei que os protege.

Especificamente no dia 5 de janeiro de 1.989 foi criada a Lei 7.716. A legislação determina a pena de reclusão de dois a cinco anos a quem tenha cometido “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Com a sanção, a lei regulamentou o trecho da Constituição Federal que torna inafiançável e imprescritível o crime de racismo, após dizer que todos são iguais sem discriminação de nenhuma natureza. A lei ficou conhecida como Caó, em homenagem ao seu autor, o deputado Carlos Alberto de Oliveira.

A lei não só protege negros, como também qualquer cidadão que sofre algum tipo de racismo, devido à sua origem, cor de pele etc. Mas, ainda assim, é pouco para que os brasileiros estejam educados para tal. Uma lei não modifica as crenças e os valores dos séculos anteriores.

Mesmo assim, vemos no Brasil jogadores de futebol serem chamados de “macaco”. Aí, só aí, a imprensa “cai em cima”, noticiando o crime, que fora cometido diante do Brasil inteiro.

E quando um homossexual é xingado, se torna motivo de risadas, de brincadeiras que ferem a sua identidade? Não vemos estas notícias diariamente nos jornais, apesar de, todos os dias, um homossexual viver alguma situação de preconceito.

Em novembro de 2014, dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República revelaram que, a cada hora, um homossexual sofre algum tipo de violência no Brasil. Por que esta violência não sai nos jornais que lemos e a que assistimos diariamente?

Posso dizer então que há um preconceito em relação ao preconceito. Digo que tanto a educação quanto o Estado e a mídia não têm colaborado para a efetiva aceitação das diferenças raciais e sexuais, fazendo pouco caso de uma violência gritante, mas mascarada em nossa sociedade.

Sim, digo mascarada por dois motivos. Primeiro, porque as mídias só noticiam algum caso de preconceito contra um homossexual quando este foi de extrema crueldade; ou seja, quando ocorrem assassinatos, espancamentos etc. É claro que precisa ser noticiado, mas não é preciso chegar a este ponto para que as demais notícias cheguem até a nós.

A mídia é um importante instrumento de informação e também de formação. Se, a cada dia, ouvíssemos a notícia de que um homossexual sofreu algum e qualquer tipo de preconceito, nossa mente estaria mais conectada ao tema, ao assunto, o que levaria mais adiante a uma ampla reflexão sobre a realidade, podendo, inclusive, levar o assunto para dentro do lar de cada brasileiro, para ser conversado, dialogado, ensinado. Mas, infelizmente, isso não ocorre.

O segundo motivo advém, a meu ver, da lei antirracismo que foi criada. As pessoas podem não “verbalizar” o preconceito, porque já estão cientes de que é crime e poderão ir para a cadeia. A lei “cala”, mas não ensina, não educa, não transforma. Portanto, não é suficiente para fazer com que a pessoa alcance outro patamar de consciência.

Dessa forma, um sem-número de casos acontece dia após dia, e dele não temos notícia. Mais do que uma lei apenas (apesar de sua suma importância), é necessária uma reeducação social, que só pode acontecer a partir das escolas, tendo o apoio do Estado.

O historiador brasileiro Leandro Karnal, na palestra intitulada “O ódio no Brasil”, realizada em 2011, se refere à nossa sociedade como sendo, ainda, uma sociedade falocêntrica; ou seja, voltada para o masculino, para uma educação masculina, em que as pessoas continuam a acreditar em que o masculino possui mais força do que o feminino (não se refere à força física apenas), acreditando, inclusive, que o ser masculino é superior ao ser feminino.

Concordo com Karnal. Por isto afirmei, acima, que, apesar de estarmos em pleno século XXI, muitas coisas, na prática, ainda não mudaram. É necessário muito tempo, muito investimento na educação para que elas mudem na realidade e possamos verdadeiramente viver na Era Pós-Moderna, em que outros valores permeiam nossa convivência social e não estão apenas nos escritos dos filósofos e sociólogos contemporâneos.

O fato é que a permanência desta educação falocêntrica é uma das causas do mascaramento do preconceito em relação ao homossexual. Justifica até o injustificável: a adoção de condutas agressivas, desde xingamentos até mortes.

O ódio em ação

Você se recorda do desafio proposto no início deste texto? Voltemos à pergunta: “O que sente o coração quando os olhos veem? E, mais do que isto: Quando os olhos veem aquilo que não aprovamos, de que não gostamos?”.

Eis a resposta: comportamentos extremamente violentos, nascidos de um ódio sempre latente. No caso do homossexual, por não ser aceito, ou melhor, por não ter a sua opção sexual aceita por um grupo de pessoas, acaba se tornando “objeto depositor” do ódio que habita os agressores.

Sim, o ódio tem papel fundamental nesta questão, apesar de também estar mascarado. O ódio precisa ser extravasado e, quando isto ocorre diante de ataques extremamente cruéis contra homossexuais, os agressores sentem-se superiores, principalmente quando estão em grupo. O final da história pode ser múltiplo, mas certamente afetará por demais um ser humano que apenas fez uma opção sexual diferente da de outros homens.

Vale lembrar que Leandro Karnal, na palestra citada, reforça que o “ódio é capaz de unir as pessoas”, o que faz com que um grupo inteiro possa agredir violentamente um homossexual, acreditando que está fazendo justiça com as próprias mãos (lembra-se da questão do século passado que ainda impera em nossa atualidade?). É uma forma, também, de este grupo colocar em prática (mesmo que seja através do ódio) suas crenças, decorrentes de uma educação falocêntrica, trazendo a eles um sentimento de que são “verdadeiros homens”.

O futuro

É fato hoje que os homossexuais adquirem direitos e conquistam espaços. Mas ainda parece pouco. A luta deles é grande, intensa e podemos compará-la à luta que as mulheres precisaram travar em relação ao voto, por exemplo, e ainda travam para conquistar direitos de igualdade.

Não sabemos ao certo como será o futuro, mas acredito que famílias e escolas precisam se unir para formar as novas gerações, que estas possam crescer livres de preconceitos. Acredito também que, se a Lei 7.716 diz respeito a questões raciais apenas, é preciso uma outra, que garanta os direitos de escolha em relação à orientação sexual. Pois crime contra um homossexual não caracteriza crime contra raça e sim contra seu direito de cidadão, de exercer sua liberdade de escolha, dentro de qualquer esfera.

Para encerrarmos este artigo, nada melhor do que dar voz aos homossexuais. O que sentem? O que pensam? Como vêm reagindo? O que pensam sobre educação, o futuro, o ser humano? Para tal, contei com a colaboração de Jorge, residente na cidade de Campinas, interior de São Paulo.

Depoimento

Jorge é homossexual e vive com seu parceiro. A seguir, ele fala de homofobia e compartilha casos, angústias, esperanças e crenças:

Para mim, ser homossexual é totalmente natural. A palavrinha homofobia tem um peso enorme! Já vi tantos casos violentos de homofobia que sempre que ouço a palavra me dá um gelo na barriga. Sabe aquele medo de que um dia possa acontecer comigo?

Quando vejo ou ouço alguma notícia de homofobia, fico emocionalmente abalado; me causa medo e este medo faz com que eu tente me esconder cada vez mais. Não porque eu tenho vergonha, mas porque tenho medo de ser agredido! É um sentimento de injustiça, de impotência, por não poder fazer nada. Uma mistura de indignação e tristeza por ver tanta violência!

Para mim, a palavra homofobia é sinônima de ódio, intolerância e irracionalidade; falta de amor ao próximo. Se as pessoas tivessem mais amor ao próximo, elas se colocariam no lugar do outro e entenderiam que a felicidade é merecida para qualquer um, independentemente de sua raça, credo ou orientação sexual.

Mesmo assim, eu nunca passei por alguma situação de preconceito tão direta em relação a mim, mas já presenciei piadinhas de amigos que não sabiam que eu era homossexual. Hoje acho que aprendi a lidar com a situação. Não costumo me expor, mas também não me escondo. Como não aparento, poucas pessoas percebem algo. Quando alguém menciona algo do tipo, sua esposa, eu logo corrijo: “Meu marido”. O mais comum que já aconteceu foi de pessoas se afastarem de nós, ao ficarem sabendo da nossa escolha ou orientação sexual, por não aceitarem.

Pensando sobre isto, acredito que as pessoas não são obrigadas a nos aceitar, mas o mínimo é nos respeitarem! Se eu pudesse dizer algo aos homofóbicos, eu diria: “O mundo está aí para todos. Viva a sua vida, e eu vivo a minha. Respeite-me para que eu te respeite também!”.

Para que esta situação mude, creio que este assunto deva ser tratado da forma mais natural possível; pois as crianças nascem sem nenhum tipo de preconceito. São os pais e a sociedade que ensinam o preconceito aos seus filhos. A própria sociedade estimula a homofobia. Muitas pessoas até aceitariam o homossexual, mas, com medo do que os outros falariam ou pensariam deles, optam por estar do lado dos homofóbicos, que têm maior aceitação. Assim, a pessoa não precisa se explicar.

Em relação ao futuro, se um dia acabará ou não a homofobia? Tenho um parecer contraditório, pois parte de mim acredita que sim (é a voz da esperança) e outra parte acredita que não (é a voz da razão); pois, assim como a escravidão acabou, mas o preconceito continua; assim como as mulheres conquistaram seu espaço, mas o preconceito continua; acredito que será assim também com a gente (homossexuais). Para chegarmos a uma era de extinção do preconceito, acho que levaria tempo demais, séculos e mais séculos, e eu não estarei aqui para ver e isto me entristece! E, mesmo assim, nunca saberemos se todo tipo de preconceito, um dia, será extinto da raça humana!

 

*Ssmaia Abdul é formada em Psicologia, sempre gostou de escrever e de ouvir histórias. Especializou-se em Terapia Narrativa, Práticas Colaborativas e Dialógicas. Desenvolve trabalhos colaborativos em grupos e escreve para revistas do interior de São Paulo. Trocou a Psicologia pela sua grande paixão, as histórias de vida das pessoas. É arteira e inconformada. Ama a literatura, assim como ama a natureza. Atualmente, é pós-graduanda em Jornalismo Literário.

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