Cuidado com o bolso

Alfaiate Henfil,

 

Quando era menino (já faz tempo) não tinha muito a fazer além de jogar futebol no campinho, empinar pipa, rodar pião e estudar um bocado.

De vez em quando (sábados) o meu pai, trabalhador da construção civil, levava com ele um ajudante de onze ou doze anos para aprender a profissão de azulejista – aquele homem que faz o acabamento e assenta as cerâmicas do piso e azulejos.

Confesso que (naquela época não existia argamassa) não conseguia nem mover a enxada para misturar o cimento, a cal, a areia e a água. Logo me lembrava da escola com fervorosa saudade porque se o serviço era e é pesado para um adulto imagine para o menino franzino daquela época.

Em uma das oportunidades chegamos a um bairro de classe média alta – em um prédio de muitos andares e subimos de elevador até o andar onde meu pai estava trabalhando – após trocarmos de roupa meu pai (não usava carteira) retirou o dinheiro da calça que acabara de trocar, embrulhou as notas cuidadosamente dobradas em um pedaço de papel e guardou no bolso da calça de trabalho.

Depois nos dirigimos ao elevador e descemos até o térreo, onde havia um odor de café espalhado pelo ar… Tomamos rapidamente um pouco de café puro e quente, meu pai trocou algumas palavras com os outros operários e em seguida fomos em direção aos elevadores, mas meu pai repentinamente decidiu subir pelas escadas.

Achei que era apenas uma brincadeira e iniciei a subida muito falante e então meu pai recomendou silêncio e quanto mais próximos do andar ele mais acelerava os passos na frente e quando entramos no apartamento, onde nossas roupas estavam um homem de provavelmente trinta anos revistava os bolsos da calça do meu pai.

Meu pai disse um bom-dia de alerta e o homem respondeu assustado e em seguida foi até a sacada fumar o cigarro que segurava em uma das mãos. Os dois trocaram algumas palavras sobre a obra e o rapaz apagou o cigarro e disse que estava na hora de pegar no batente.

Quando ficamos a sós meu pai disse que era muito difícil confiar em algumas pessoas – disse que em outra oportunidade esqueceu o dinheiro na calça e foi roubado. O que veio em seguida foi o pedido de tomar a lição como aprendizagem e optar sempre pela honestidade.

As reminiscências daquele tempo contrastam com a atualidade e os desvios incomensuráveis de dinheiro público por parte de gente bem nutrida, frequentadora de escolas de primeiro mundo: alguns empreiteiros, políticos, empresários, funcionários de todos os escalões de governos, municipais, estaduais e federal…

Parece que tem sempre alguém “revistando” os bolsos das pessoas que realmente trabalham – dos homens dignos que existem aos milhões ao longo das terras brasileiras.

E fica a pergunta: Quem deve ser exaltado e lembrado pelas novas gerações? Os tais empreiteiros, políticos, toda sorte de homens desonestos ou homens de bem?

Cuidado com o bolso.

 

Jornalirista

 

Imagem: lettig.com

Comentário