Da banalidade da vida ou de “fazedores de anjos”

Tenho pensado muito nos últimos tempos, eu diria quase todo dia, sobre estes públicos de risco e em situação de exclusão.

Mas, apesar de ser sensível e solidária a todo este leque de pessoas sob ataques e perseguições estúpidas, a questão da mulher e seu lugar no mundo volta sempre a incomodar.

Até porque também faço parte deste target.

Na segunda-feira (15), no final da tarde, na fila do supermercado, uma senhora entrou meio apavorada dizendo que o vigia de uma casa em obras no Brooklin, zona sul de São Paulo, onde vivo, encontrou morta uma menina de aparentemente 10 anos, com sinais de violência e estupro.

As reações? Normais: de espanto, e indignação. E não faltou quem dissesse que as meninas “de hoje”, aos 10 anos, já parecem mulheres, e se vestem de maneira extremamente sensual.

Daí, me veio à cabeça a mulher saudita que foi estuprada e “de quebra”, por isso, recebeu 200 chibatadas e prisão por 6 meses.

E pensei na menina do meu bairro. Que nome teria? Teria pais vivos e presentes? O que estaria fazendo por ali?

Resolvi batizá-la de “Angel”. E tentei desenhá-la no auge de seus 10 anos: Será que ia à escola? Fazia todas as refeições do dia? Tinha sonhos? Gostava de estudar? O que será que ela gostaria de ser, ou vir a ser ou de ter sido? De amar e de ser amada?

E esta coisa me pega e me remexe e me embrulha, num misto de cansaço e solidão.

A gente, que escreve, pode esboçar os afrescos do imaginário e dar à menina o retrato que merece: “simplesmente menina”.

Penso nas meninas de 10 anos que conheço. Na menina que fui. Na menina que minha filha foi.

Nas meninas – mulheres de todos os matizes que vivem por aí afora. Nas molecagens. No abandono das bonecas e em suas recaídas. Nos bichinhos de pelúcia que vão ficar sem seu abraço companheiro de noites insones ou medrosas. Dos olhares românticos para aquele menino ou menina especial. Dos diários cor-de-rosa. Dos papéis com marcas do batom das mães. Das intermináveis tagarelices ao celular com as melhores amigas. Dos vestidos floridos e esvoaçantes. Da ansiedade das festas. Das tristezas sem motivo. Da euforia ociosa de existir e ter a vida pela frente.

A vida que se banaliza pelo instinto selvagem. Pelo animal que grita e se sobrepõe ao racional impotente.

A vida, em que num átimo a ternura dá lugar às línguas sedentas, mãos violentas, órgãos invasores, de homens que ignoram a nobreza em si próprios.

Será que tentou resistir ao flagelo? Ou aquela memória não esperava a derrota para se revelar?

Teria uma fé clandestina que a mantivesse viva? Para testemunhar seus horrores?

Será que tentou gritar? Será que algum transeunte a ouviu, mas não tinha “tempo” de parar para averiguar se alguém de sua “raça humana” precisava de ajuda?

Mas, após o fato “consumado”, muitos destes transeuntes apressados têm tempo de parar, para saber o que houve, para ter o que contar quando voltar para sua casa.

E alguns destes ficam ali por horas, se alimentando da dor alheia.Para compensar a opacidade de seus dias. E contam um conto mais um ponto. Porque, quanto mais sensacional forem suas invencionices, mais ouvintes gulosos serão saciados. Até a nova tragédia urbana.

Saio correndo do supermercado, apresso o passo, cada vez mais fortemente.

Preciso ir para casa. Chorar baixinho por Angel, esta desconhecida tão familiar.

A melancolia me leva até o universo das luas, que se compadecem dos artistas e fazem brotar, de suas feridas, imagens oníricas que os desprendem de sua realidade fúnebre.

E me inebrio com o farfalhar de asas de Angel, que alça voos mágicos para bem longe das ninharias e dos monstros antropoides que, com seu bestiário, insistem em molestar as crianças e “fabricar anjos”.

Aceno para Angel, que deixa atrás de si rastros de estrelas e poeira de fim de mundo.

 

Arte: Shellah Avellar

5 comentários para “Da banalidade da vida ou de “fazedores de anjos””

  1. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    Mais que queridíssimos amigos Orlando Pimentel, José Mauro,Liz Lee e Germano Gonçalves.
    Li agora seus depoimentos sobre minha crônica no Portal Jornalirismo.

    Ter amigos..já é "muito bom.".

    Ter amigos que conhecem nossa verve de infância , adolescência e mocidade é "ótimo".

    Ter amigos que nos acompanham na maturidade, ainda que à distância, é "pra lá de muito melhor."

    Mas ter amigos que compartilham de nossa sensibilidade à dor desconhecida ,se emocionam com isto, e se penalizam a ponto de "deixar momentaneamente uma atividade "colorida que lhe faz tão bem….é "ESPECIAL".

    Quer saber? Vocês tem razão:Somos Grandes!!!

    Porque a alma ainda resiste à sua pequenez….

    Gratidão!Divirtam-se por mim!

    Riam!Cantem e Dancem! Celebrem a vida que vale a pena ser vivida.

    Qundodesabafei com Guilherme Azevedo que ao invés de ficar com o couro duro, eu tô amolecendo cada vez mais… ele me respondeu : "ki BOM! Já pensou se fosse o contrário?
    A vida deixaria de ter sentido…"
    bjkas kósmikas!!Love U guys!

  2. Orlando João Andrade Pimentel Pimentel

    Em meio à construção do II Tilápia, falando de gastronomia e de música, com Zizinho e Mirella, faço pausa para ler o seu Da banalidade da vida ou de “fazedores de anjos” que você, tão gentil, postou em meu perfil..
    Para que? Da euforia da vida arco-iris para esta desgraceira. E toca a chorar, pior, a soluçar e alto. Felizmente existe o "encantamento" e o anjo Angel já está isolada e protegida deste mundo onde ocorrem coisas tão absurdamente imcompreensíveis. .Neste início de noite você me nocauteou. Sem condições para continuar colaborando na feitura do mundo encantado. Largo o Festival da Tilápia por hoje e, como você, vou ficar triste pensando nas "Angels" da vida. Você, Shella Avellar, é a maior.

  3. Zé Mauro

    Lindo texto. Você me surpreende e me emociona cada vez mais. É um orgulho muito grande ser seu amigo. Beijos. Também à Yosha. Saudade.

  4. Liz Lee

    Isso tudo me assusta; muitas vezes penso que esse não é o mundo em que nasci.
    Muito comovente sua narração.

  5. Germano Gonçalves Arrudas

    Germano Gonçalves Arrudas

    Texto com poesia de uma realidade! Lindo me emocionou, pois as pessoas só querem julgar, os comentários sem a consciência de que não podemos avançar o sinal, respeitar sempre, meu pai já dizia: “Dois não brigam quando um não quer”, valeu!

Comentário