Dance para haver amanhã

“Eu sempre fui do gueto, mas não sabia. Descobri. Encontrei a perfeita utilização para o meu corpo: uma arma contra todo tipo de preconceito. Como vou lutar? Com arte! A mina do gueto, da pele negra, dos cabelos cacheados com o sexy-appeal que corre no sangue, nas veias, na raiva, na alma.”

Sugiro que este texto seja lido ao som desta música: Open, de Rhye [ouça comigo aqui]. Agora, aperte o play e comece a passear com seus olhos e coração pelas palavras a seguir. Pronto? Vamos.

Eu sempre achei que a dança, ou melhor, que as artes em geral ajudam a elevar a alma para algo jamais imaginado. Agora eu não acho mais, eu tenho a certeza.

Meu feriado de primeiro de maio foi justamente para me provar isso.

A música já arrepia todos os pelos do corpo quando você está sensibilizado com algo. Pois imagine a dança. Ela é algo que se sobrepõe a todo o corpo. Que eleva os seus sentidos, que te faz querer rir e chorar ao mesmo tempo.

Agora, além de cursar mestrado, trabalhar e ir à academia, também faço hip-hop. Entrei neste mundo por gostar do ritmo e por entender que qualquer tipo de contestação é válido, principalmente em uma época de preconceitos absurdos. Mas o hip-hop não é aquela rebeldia de sair gritando e quebrando tudo. É a contestação do corpo que endurece, amolece, se move no ritmo de músicas que falam sobre e contra o sistema. Que falam a favor e contra o amor. Que simplesmente têm um ritmo dançante, apaixonante.

Dias atrás, ao chegar à aula, o professor logo foi dizendo que daria algo diferente: uma coreografia que fora um divisor de águas na vida dele. Essa música e coreografia tinham servido para que ele abrisse os olhos em relação a uma série de coisas. Primeiro, alongamos. Depois, ele pediu que cerrássemos nossos olhos.

— Apenas escutem a música. Quando ela começar, imaginem alguém que amam muito perto de vocês. Imaginem o amor. Sintam o amor.

Depois de ouvir, ao abrir os olhos, parecia que a sala estava tomada por uma energia realmente diferente. Ele, então, fez a coreografia e começou a nos ensinar. Parecia que meu corpo gritava. Parecia que cada parte dos meus membros poeticamente respondia aos impulsos. Minha mente pensava em tudo. No amor, no desejo, no ser amado sempre perto de mim. Meu corpo exemplificava estes pensamentos. Eu ainda não sou muito boa para a dança, mas, neste dia, consegui perceber que dançar é elevar o espírito. Melhor: é atuar com a alma, é se emocionar e demonstrar isso com movimentos certeiros, precisos e perfeitos (ou quase).

Cheguei em casa e parecia que acabara de passar por uma daquelas sessões de terapia que limpam todas as mazelas. A música que ele tocou? Open, de Rhye.

No dia seguinte, fui a uma mostra de hip-hop na Galeria Olido, na avenida São João, Centro Histórico de São Paulo. O professor, e também amigo, me convidara. Ao chegar lá, percebi (nunca fora a algo parecido) que o hip-hop é mesmo uma expressão de classes “menores”, subtraídas. Que as músicas são muito mais do que letras, e a dança é muito mais do que passos ensaiados.

Apaixonei-me pelas pessoas, pelas tribos. Lutar contra o sistema por meio da dança. Dançar como se não houvesse amanhã, como se ninguém estivesse assistindo. Dançar como se a alma ganhasse uma personalidade própria, diferente, um novo amanhã.

Agora, puxa, quero dançar como eles. Quero fazer parte deste mundo de arte e de luta. De amor e de paixão. Vamos dançar?

Veja uma das apresentações e sinta:

 

 

O que é o hip-hop?

O hip-hop é um gênero musical iniciado durante a década de 1970 nas áreas centrais de comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas da cidade de Nova York (EUA). Afrika Bambataaa, reconhecido como o criador do estilo, estabeleceu quatro pilares essenciais para  a cultura: o Rap, Djing, Breakdance e o Graffiti.

Durante anos o estilo musical fora definição para classes menos favorecidas e mais exploradas da sociedade. Ao passar do tempo, ficou conhecido como o estilo da contestação, da arte de rua, das expressões do gueto. O hip-hop ganhou força, ganhou o mundo e ganhou, acima de tudo, o respeito por sua importância.

 

Vídeo: Emmanuele Calisto

Imagem: hiphop.com

Um comentário para “Dance para haver amanhã”

  1. Andréa

    Amei o texto e o vídeo, pois também sou apaixonada por dança e me sinto de alma nova a cada aula. Parabéns!

Comentário