De tempos em tempos, um rolê pelo centro é fundamental

Fazia tempo que não dava um rolê pelo centro de São Paulo. Acho interessante a gente inverter a lógica e fazer o centro vir pra periferia, mas sem descuidar do centro, que também é nosso.

Então hoje resolvi sair da rotina e fazer a minha tradicional caminhada pelas ruas deste lugar por onde muitas vezes só passo de carro, apressado pra alguma palestra.

Peguei o trem na estação de Suzano às oito da manhã. Um privilegiado em sair sem compromisso num dia de semana, quando a maioria estava indo pro trabalho, inclusive sem achar graça alguma num passeio como este.

Cheguei à Estação da Luz e fui logo ver o que tinha de novo na Pinacoteca, no Museu da Língua Portuguesa e no Memorial da Resistência, sem muita demora, porque eu tinha muito asfalto pra pisar.

Subi pela rua do Triunfo, cortei pela Santa Ifigênia, me desvencilhando dos vendedores, e cheguei à região da Galeria do Rock. Claro, não pude resistir. Entrei. Também não resisti a comprar uns panos, pra usar no fim de ano. Comprei também um tênis e, como nos velhos tempos, dispensei a caixa e o coloquei na mochila, pra não fazer volume nem andar com uma sacola nas mãos. Mas antes pedi ao vendedor um recibo, porque, quando eu chegasse à quebrada e fosse abordado pela polícia, ao menos teria um álibi.

Passei no subsolo, mais rápido que um raio, porque eu sabia dos livros e CDs vendidos ali, e uma paradinha, apenas, seria suficiente para encher a mochila e estourar o cartão de crédito. Virei à esquerda e caí na Olido. Peguei uns folhetos no balcão. Na verdade fui pegando, folheando e colocando na mochila. Guias, agendas, folhetins… Tudo interessante. Confesso que a mochila ficou até mais pesada.

Subi pra conferir a exposição do Centro de Memória do Circo, que, na última vez que eu passei por lá, estava fechada. E como sempre, observando uma exposição saudosa, senti saudade de um tempo que não vivi. Até hoje não consigo entender essa nostalgia. pra lá. Ainda na Olido assisti a um filme de faroeste pelo valor de um real. Muito louco eu vivendo este dia, esta cena. De rolê em SP, numa sala de cinema, assistindo ao bangue-bangue em pleno horário de almoço.

Saindo da Olido senti a barriga reclamando. Atravessei a avenida São João e no Largo do Paissandu parei numa barraca. Comi um acarajé a quinze contos e um doce de café a três. Pra quem comia churrasco grego e tomava dois, três copos de suco no fim da década de 1990 a cinquenta centavos… Mas, também, em época de gourmetização dos alimentos, só de falar que vai comer já gastou dez contos.

Mês de novembro, e a prefeitura preparou uma programação da consciência negra ali no largo. Enquanto fazia a digestão, curti um show de reggae. Maior energia! E quando percebi já estava balançando a cabeça e batendo na perna. Troquei umas ideias com o povo das barracas, falamos de cultura negra e trocamos cartões. Olhei no relógio e saí rasgando.

Passei pelo Teatro Municipal e parei uns minutos de butuca numa roda. Fiquei feliz quando vi que eram uns repentistas os mestres de cerimônia. Ri, batuquei na palma da mão e quase entrei na roda para uma poesia, mas percebi que, mesmo a convite, seria um intruso no show e ganha-pão dos caras. Dali continuei a andança, rumo à Praça da Sé. No caminho, uma banca cheia de livros velhos. A tentação foi grande. Se eu fosse um cronista caçando assunto, diria que, se comprasse estes livros, eu apanharia da mulher, que me perguntaria ao chegar em casa: “Mais livros?”. Mas como ela também é leitora, não vou cometer essa injustiça.

Caminhando despreocupado, sou alvo de olhares ariscos. Fico ligeiro. O objetivo deles é o de me roubar, e o meu é o de não deixar.

Cheguei à Sé e subi as escadas da igreja num ritual respeitoso. Lembrei do Francisco Erasmo Rodrigues de Lima, morador de rua que morreu salvando uma vida. Aí, no exato lugar onde tudo se passou, fiquei lembrando as imagens que vi na TV e na internet, vindas de celulares e drones. Tarde tumultuada, aquela. Parecia que o cheiro de pólvora ainda estava no ar. E que coisa é a vida. Já pensou? Eu ali, fazendo uma oração, pedindo emprego, proteção e de repente tudo acontece. Rememorei Guimarães e Riobaldo, “Viver é muito perigoso”, ainda mais com o diabo na rua no meio do redemoinho.

Fui para o meio da praça. Sentei num daqueles bancos e fiquei a observar a vida. As pessoas passavam, apressadas como sempre, mas preferi mudar o olhar e vê-las correndo porque alguém muito importante esperava por elas em casa: o pai, a mãe, o irmão, esposo ou esposa. Por isso corriam, por isso correm todos os dias. Deste modo fazem tudo mais rápido pra voltar logo aos braços de quem amam.

Ouvi um pigarrear ao lado. Um senhor que estava no mesmo banco que eu queria conversar. Puxei assunto, da forma mais convidativa possível: “Opa! Tudo bom? Será que chove, hoje?”. O senhor me olhou bonachão e gritou, como se já me conhecesse: “Ô, rapaz, bem capaz, viu?”. Aí, engatamos a conversar. Obedecendo ao ditado de uma boca e de dois ouvidos, fiquei só na recepção das palavras. Espontaneamente me falou da sua vida. Era morador de rua. Perguntei se ele conhecia o senhor que morreu na escadaria salvando a balconista.

– O Francisco? E quem é que não conheceu ele? Morreu sem precisar.

O nome dele era José. E José, falando sem parar, me levou sem saber ao livro do García Márquez. José disse que todos os dias ficava ali naquele banco, quase sempre na mesma hora. E via o povo cada dia “mais frio, mais sozinho, com a cabeça enfiada nesses celulares”.

É, Seu José, também sou dessa opinião. Em Cem anos de solidão a cidade de Macondo entra na decadência graças às novidades levadas para lá pelo cigano Melquíades. Tenho a impressão de que estamos caminhando cada dia mais para uma Macondo, para a solidão.

Mas Seu José estava ali para espantar a solidão. Disse que já ajudou muitas pessoas, inclusive a sair da rua. Perguntei se ele não tinha se ajudado. E como muitos outros na mesma situação, me disse que não tinha interesse em sair da rua.

― Rapaz, a rua está dentro de muitas casas. Sair da rua pra entrar na rua é melhor que deixe eu quieto aqui.

Fiquei bem empolgado com a conversa. A história e a sabedoria de Seu José são dignas de uma crônica específica. Mas quem sabe num outro momento. Que já eram quatro da tarde. Hora de embarcar no trem, que dali a pouco começaria a lotar. E não é justo eu, que tava a passeio, embarcar no horário de pico e ser mais um corpo tomando o lugar de quem vinha do trabalho.

O Pátio do Colégio e os sebos da João Mendes ficaram pra outro dia.

Prometi pra mim que faria esses rolês mais vezes. Faz bem pro corpo, pro coração e pra mente.

 

 

Foto: Prédios históricos no Centro Antigo de São Paulo, por Francisco Aragão (veja mais aqui)

 

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