Dedo em riste

 

Tenho por hábito comentar fatos que me chamam a atenção pelo simples fato de achá-los interessantes. Escrever crônicas sobre coisas simples pelo simples fato de serem simples.

 

Inventar contos, porque contar histórias pode ser um aprendizado mútuo quando se desloca a fantasia da realidade nem tão fantasiosa assim. Opinar sobre obras de arte, filmes e peças com o cuidado de falar sobre o que me transpassou, me tocou, me transformou. Talvez nem seja a preferida do grande público ou da crítica especializada, mas foi como chegou até a mim.

 

O que não significa que tudo que deixo de comentar foi porque não gostei.

 

Entretanto, me deparo às vezes, ou quase sempre, com debates pós-espetáculos de teatro que me deixam estupefata.

 

Processos criativos bem embasados e construídos em cima de árduo trabalho de equipe de dramaturgos, atores e diretores e designers de luz, som, figurino e cenografia se expõem à carne viva, tentando perscrutar cada elemento da plateia e obter um consenso que vá ao encontro deste esforço hercúleo. No afã de se despir do orgulho da obra que se apresenta, a equipe deixa de se apropriar dela.

 

Ora, é claro que jamais existirá um consenso. Senso de coletivo é aceitar a diversidade. Saber que nada vai estar pronto. E que a arte por si só é ampla, geral, irrestrita. Se assim não for não será arte. Sem direitos de cidade. Sem formatações. Entretanto qualquer obra tem de ter um ponto de partida ainda que nonsense, absurdo, abstrato ou alternativo. É preciso partir sem amarras, mas sabendo para onde ir. E este ir pode ser mudado, recheado, transfigurado ou mutilado, mas ainda assim partiu de algum lugar inusitado, lá onde os sonhos ou pesadelos acontecem.

 

Há os críticos que vão ao espetáculo de dedo em riste, prontos a metralhar técnicas, vociferar citações, entabular métodos e literalmente “enquadrar a obra”, doa a quem doer.

 

E estes, sim, são os experts. Os que execram a obra. Os que chegam atrasados. Os que xingam a sua mãe. Se você focaliza no positivo do contexto e nas potencialidades dos atores envolvidos, está se arriscando a ser tachado de paternalista.

 

Volta e meia me deparo com estas contradições por aí afora. Em algumas universidades, os professores enrolam para dar tempo de os atrasados chegarem. Enquanto isto, os que chegaram na hora têm de amargar esta espera, com um sorriso amarelo. E um: “Tudo bem!”.

 

Num certo colégio de elite em que dei aulas alguns anos atrás, o nível de conversa na sala dos professores era sempre de baixo calão e o sentimento vigente era de ódio mordaz aos alunos. Houve uma devassa no corpo docente. Ficou somente uma das professoras. Surpreendentemente, a mais desequilibrada e a mais ferrenha inimiga dos discentes.

 

Se você está cansado de focalizar no positivo, ser solícito ou companheiro, cuidado. A menos que tenha “bala na agulha”, como prestígio e uma agenda invejável, está arriscado a ser banido de vez de um grupo cujo pertencimento é tão volátil quanto a fumaça daquele cigarrinho amigo do camarada politicamente incorreto mais bem respeitado do planeta.

 

*Shellah Avellar é comunicadora e escritora. Contato: [email protected]

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