Dilma não ganhou

 

Não, meus queridos, não houve erro de apuração: Aécio também não ganhou. Dilma simplesmente foi eleita, mas, até aí, “vitória” é uma palavra muito forte para o resultado que vimos. Eu evito discutir política, assim como eu perco a piada, mas não perco o amigo. Porém, diante do que vi nas mídias sociais (o.k., “mídias sociais” é muito genérico. A real é que eu me concentrei no Facebook, mesmo), o sangue italiano ferveu e não consegui me abster de refletir sobre o tema.

 

Estatisticamente, temos três cenários:

 

1) Pouco, mas bem pouco mais da metade dos brasileiros que votou foi a favor da reeleição. Será que essa quantidade acredita cegamente nos programas do PT ou apenas não encontrou nenhuma proposta melhor no candidato da oposição?;

 

2) Do primeiro para o segundo turno, Aécio subiu 14,81 pontos percentuais (Dilma, 10,05 pontos e o número de eleitores ausentes subiu 1,71 ponto). Esse aumento de Aécio, sim, eu consideraria uma vitória. Mas será que quem não votou no Aécio no primeiro turno o escolheu no segundo por ele ser realmente o melhor ou apenas votou nele para ver a mudança pela qual lutamos em junho de 2013? A tentativa de mudança foi feita;

 

3) E os 27,44% de eleitores que não votaram ou votaram nulo ou branco? Mais de um quarto da população não é a favor de nenhum dos dois candidatos. Se fossem, se esforçariam para contribuir com uma sociedade mais próxima da que eles acreditam. Se eles não querem mudança? Querem, mas não com os mesmos nomes, os mesmos partidos, as mesmas ideias, as mesmas discussões, os mesmos discursos. Mudança, mesmo, sem os mesmos.

 

Eleição é quantitativa, não dá para fazer um focus group a fim de criar um candidato que seja excelente para todas as classes sociais. Não na atual situação do Brasil. Uma situação em que o brasileiro, ao ver seu candidato perder, logo envia um convite no Facebook para o impeachment da Dilma. Convite, este, que não integrava a mesma linha de pensamento daqueles para o “Banho na casa do Alckmin” ou para a “Festa de Despedida do Lobão”. Tive a impressão de voltar 23 anos da minha vida e ver as crianças do parquinho dizendo: “A boneca/bola é minha e ninguém mais vai brincar”.

 

Apesar de eu achar essa lógica bem injusta, vocês sabem que, se houver impeachment, não é o segundo colocado que governa, não é? Se a beleza das esposas for um pré-requisito para o político ganhar sua aceitação, go ahead! Essa é uma característica em comum entre Aécio Neves e Michel Temer, o vice-presidente de Dilma. Mas talvez seja interessante darmos uma pesquisada se o nosso vice-presidente é melhor que a Dilma Rousseff, antes de sair distribuindo convites pra impeachment como se fosse Candy Crush.

 

… Então o Palmeiras ganha e os corintianos chamam os palmeirenses de “Porcos”! Epa, não, peraí! Pois é, poderia ser apenas o furor da torcida num jogo de futebol, mas são cidadãos de classe média chamando os que saíram da miséria de porcos. “Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de comida seria eleito sempre, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado”, Orson Scott Card”, essa frase pululou na minha timeline assim como o infográfico comparativo entre “Estados que mais recebem o Bolsa Família” e “Vitória da Dilma na maioria desses estados”, além das fotos de perfil alteradas por imagens totalmente pretas de “Luto pelo Brasil”.

 

Luto eu considero ao ver uma criança morrer de fome. Luto eu consideraria os 22 milhões de pessoas morrerem de fome. Pessoas que saíram da pobreza e agora têm o mínimo de energia para poder trabalhar e movimentar a economia. Luto é morte. Morte é perda sem volta.

 

Os exames foram feitos, o diagnóstico foi divulgado e a boa notícia é que o Brasil não morreu. Com ou sem médicos cubanos, o Brasil precisa de tratamento, precisa de melhorias em todos os níveis socioeconômicos. Nós já sabemos disso. Quem votou na Dilma não deve aceitar que tudo continue como está, naquela base do “Tá ruim, mas tá bom”. Quem votou no Aécio não deve torcer para que o governo da Dilma seja ruim: deve cobrar as mudanças, sem dó, mas com ética e educação. Quem não votou ou votou nulo/branco não deve se abster nestes quatro anos: vocês não escolheram nossa atual presidente, mas estão na mesma luta de todos os brasileiros. Na luta. Não no luto.

 

Eu poderia falar aqui que temos de ter esperança, mas essa conversa de esperança e “País do Futuro” já cansou. Temos de agir. E agir não é ofender, não é ir contra quem pensa diferente de nós, não é culpar ninguém por um resultado que é definido por mais de 140 milhões de pessoas. Agir é seguir nossos valores, contribuir para alcançarmos nossos ideais, respeitar o que é desconhecido ou diferente. Agir é se movimentar. Não quero que, daqui a quatro anos, nós olhemos para trás e nos orgulhemos do que fizemos. Quero que a gente se orgulhe em cada um desses novos dias que estão por vir.

 

Leia também “É um, é três…”, por Carol Peres

 

*Thais Polimeni é publicitária e escritora. Contato: [email protected]

 

 

2 comentários para “Dilma não ganhou”

  1. Thais Polimeni

    Fico feliz que tenha gostado, Elis!!
    Vamos em frente, sem esmorecer 🙂
    Beijão

  2. ELIS REGINA

    ADOREI ..

    " Na luta. Não no luto." SEMPRE

    BEIJOS

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