Doce Minas Gerais

Sou paulistana, tive uma infância urbana, no centro de São Paulo, menina-criada-em-apartamento, mesmo. Mas pelo menos uma vez a cada três meses meus pais e eu íamos para a região sul de Minas Gerais visitar a família da minha mãe, que morava (e continua morando) toda lá. Como é perto de São Paulo, costumávamos passar o fim de semana, mas, nas férias da minha mãe, aproveitávamos para ficar uma semaninha e íamos ao clube de campo, à sorveteria, subíamos e descíamos as famosas ladeiras mineiras e visitávamos todos os parentes (ou seja, a cidade inteira, porque, em cidade pequena, todo mundo é tio, primo ou compadre). Essas viagens para Minas foram mais do que visitas e andanças. Foram aprendizados para a vida.

Nos poucos dias da minha infância em Minas, aprendi a acreditar, a confiar e a admirar o jeito mineiro de sempre querer agradar, seja com um café, seja com um biscoito de polvilho fresquinho. Não estranhe que o café é bem doce: é para combinar com a deliciosa doçura dos mineiros.

Ser metade mineira e metade paulistana é amar café, queijo e vinho. É amar harmonizar queijos & vinhos e finalizar com um belo café. É respirar fundo para tentar evitar a explosão do sangue hispano-italiano. É estranhar quem grita, quem perde a intimidade, quem não sorri. É, às vezes, se estranhar, também. Mas sempre se autocompreender, se aceitar.

Ter família mineira é se lembrar do abraço apertado do avô, da risada gostosa da avó, das brincadeiras de rua com os primos, dos amigos das férias que se tornam pessoas da família, da amora doce no pé. É se sentir bem em uma igreja, independentemente da religião que você escolher no futuro. É nascer com fé.

Ter avós mineiros é ter referência de relacionamento pautado no respeito e no amor. Ter primos mineiros é ter irmãos. A intimidade que não some, a certeza de ter alguém em quem confiar para sempre. É usar a autocompreensão e se compreender mutuamente. Ter tias mineiras é ter mais de uma mãe. Ter amigos mineiros é ter mais de uma família.

Ter sangue mineiro é ouvir Milton Nascimento a vida inteira com a certeza de que ele é de Minas. É sentir um orgulhinho ao descobrir que ele, assim como eu e muitos brasileiros, é mineiro apenas de coração. É se sentir em Minas ao ouvir suas músicas, é chorar sempre que toca Canção da América.

Minas Gerais me ensinou – e continua me ensinando – sobre o amor, o respeito, o carinho, a generosidade e a humildade. Minas Gerais é o leite que deixa nosso café mais leve, a cachaça curtida para alegrar quem vive nas cidades sem mar, o doce caseiro de sobremesa. Minas Gerais é o lado doce do Brasil, que poderia ser mais Minas Gerais.

 

Um comentário para “Doce Minas Gerais”

  1. Márcia Maria Colar

    Que texto lindo Thais! Senti cada palavra tocar no fundo do meu coração. Eu que sou filha de uma mineira de Poços de Caldas (Posdecarda) e um mineiro de Juiz de Fora que trouxeram como tantos outros, um pedacinho de Minas para São Paulo. Obrigada. Bjs

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