Dois pra lá e dois pra cá

 

Forrozeiro Henfil,

 

Apronte o terreiro porque o Dominguinhos foi fazer parceria com o Gonzagão, o Gonzaguinha e o Jackson do Pandeiro. O céu vai se encher de baião – é anjo com anja num rasta pé da gota serena.

 

Por aqui ficou saudade, alguma lágrima e alegria também. A gente parte e deixa sempre um xodó em forma de filha ou de mulher – a gente deixa canções e versos para ser cantados e dançados por muitas e muitas gerações.

 

Não vale ficar aperreado – a gente espalha bandeiras coloridas sobre os quintais da internet e faz festa de São João com as vozes e as imagens de todos eles – então a gente dança até a madrugada chegar.

 

É dois pra lá e dois pra cá e o perfume dos cabelos da parceira faz a gente dançar forró no chão de terra batida das estrelas. A gente flutua – depois come um baião de dois e mais tarde toma uma dose de licor de jenipapo.

 

Ninguém desaparece de uma hora para outra; ainda mais gente feita o Dominguinhos – quando um menino tomar nos braços um Acordeon, ele estará ao lado dele. Mestre é mestre e por falar em mestre não existe estátua dele feita pelas mãos de Mestre Vitalino – mas sei que agora os dois estão esbanjando arte pelas nordestinas terras do paraíso.

 

É dois pra lá e dois pra cá e o ritmo da vida segue – a gente sempre em busca daquele lugar onde a lei seja o amor – atracado com o corpo de quem enfrenta junto os caminhos sem perder o passo.

 

Tudo ficará registrado no coração-zabumba de todos nós: as canções, o humor, o otimismo, o molejo, a certeza de que a felicidade vive desgarrada dos materialismos.

 

É dois pra lá e dois pra cá… Vamos dançar…

 

Jornalirista

 

 

Nota da Redação: José Domingos de Morais, o Dominguinhos, nasceu em Garanhuns (PE), a 12 de fevereiro de 1941, e morreu no dia 23 de julho último, em São Paulo. O músico lutava contra um câncer de pulmão. Dominguinhos dava seguimento à linhagem de grandes sanfoneiros do Nordeste, que teve em Luiz Gonzaga o mestre maior. Gravou mais de 40 discos, ora solo, ora em parceria, ora de apresentações ao vivo. O primeiro, “Fim de Festa”, data de 1964.

 

Assista aqui ao prestigiado programa “Ensaio”, da TV Cultura, especial com Dominguinhos:

Comentário