Doze minutos

A fornada de chipas recheadas com goiabada ainda não estava pronta. Faltavam doze minutos. Não servia a chipa comum, senhora? Não, não servia. Gosto mesmo é com goiabada. Mas desisti de comprar. Meu filho de oito anos me esperava no carro – e ainda precisávamos buscar o bebê na escolinha, antes de ir para casa. Já eram seis da tarde. Como é que a loja de conveniência do posto não tinha chipas recheadas já prontinhas, assadinhas?

Voltei correndo para o carro e informei a um Caio desolado que não teríamos as chipas recheadas, porque ainda estavam assando. Passamos pela escolinha e pegamos a Alice, que dormia tranquila. De lá, fomos direto para casa, para a rotina de todos os começos de noite.

E só em casa me ocorreu o que perdi naqueles doze minutos.

Se eu tivesse esperado que as chipas assassem, o Caio teria saído do carro e nós nos sentaríamos junto a uma das mesinhas, ali no posto de gasolina, e esperaríamos juntos. Ele provavelmente me pediria um picolé ou uma Coca-Cola. Talvez eu até tomasse uma cervejinha. Olharíamos as revistas e ele me contaria alguma coisa da escola ou de suas teorias mirabolantes sobre o Campeonato Brasileiro, todas conduzindo o Cruzeiro ao título.

Alice esperaria mais doze minutos na escolinha. Aos oito meses e dormindo no bercinho, a espera não faria grande diferença na vida dela. Chegaríamos em casa doze minutos mais tarde, talvez quinze, por causa do trânsito que se intensificaria. E teríamos chipas recheadas no lanche. Quentinhas. Com goiabada derretendo.

Melhor que as chipas, teríamos ganhado doze minutos inteiros e inesperados de relaxamento e conversa jogada fora, em um programa exclusivo de mãe e filho. Talvez tivéssemos encontrado alguma notícia muito engraçada nas revistas de fofoca, ou então comprado um livrinho de palavras cruzadas ou sudoku.

Eu teria doze minutos a mais de boas lembranças com meu filhote querido, para guardar com carinho quando ele inevitavelmente se jogasse no mundo, daqui a poucos anos – porque o mundo é um destino pequeno para um menino como ele, que sabe localizar a ilha de Madagascar e a Nova Zelândia, mesmo em um globo de mesa menor que uma laranja e sem os nomes dos países.

Ele teria doze minutos a mais de lembranças do lado positivo da mãe, que permite picolé no fim da tarde e arruma tempinhos de atenção exclusiva para ele, sem distrações – bem melhor que a lembrança da mãe estressada que entrou no carro reclamando que as chipas iam demorar, cazzo.

Nossa vida ficaria meio em suspenso por doze minutos, porque deixaríamos a programação de lado e nos permitiríamos apenas viver um pouco, curtindo a boa companhia um do outro. Troquei doze minutos de vida improvisada por outros doze, de programação burocrática. E a vida é o que acontece com você enquanto você está ocupado fazendo outros planos, diz a bela música de John Lennon, Beautiful Boy.

Não vou perder tempo fazendo outros planos. Mas é fato que a lojinha de conveniências está lá, no meu caminho de casa, todos os dias. Então, ainda tenho a chance de dar uma paradinha e, em vez de descer correndo e pegar a chipa, convidar o Caio para um picolé e revistinhas. Ou posso aproveitar os mesmos doze minutos de fim de tarde com ele de outro jeito, independentemente da lojinha ou das guloseimas. A lição foi bem aprendida: às vezes, doze minutos podem valer muito, muito mais.

4 comentários para “Doze minutos”

  1. Flávio Rocha

    Belo texto, e uma lição para quem tem filhos e reclama quando eles apenas querem um pouco de atenção.

  2. Antônio Rodrigues de Lemos Aug

    Antônio Rodrigues de Lemos Aug

    Leio e releio este texto, que é uma grande lição para nosso dia-a-dia.

  3. Isaura Rodrigues Augusto

    Dani,

    Lindo o seu texto. Incrível como tocamos nossa vida, não? Quantos "12 minutos" perdemos? Sabe porque amo conversar com você? Dentre outras coisas, por causa dessa sua lógica tão positiva.
    Parabéns.

  4. Mariléa Napolitano

    Cada vez amo mais vc garota…..
    Dani que delícia ler seu texto!
    Maravilhoso e vivi estes doze minutos com você o Caio, te contando um montão de coisas e cheguei a ver a Alice lá na escolinha, dormindo feito um anjo.
    Não foram perdidos os 12 minutos porque vc pensou neles e no que poderia ter feito…Pior seria se você nem tivesse prestado atenção….
    Escreva mais e mais….um livro de contos…talvez!
    bjs. Léa

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