Eduardo Galeano e a urgência da vida

Comecei a ouvir falar dele – e a ler pequenas crônicas que ele escrevia – depois que o empresário argentino Federico “Fico” Vogelius pediu que ele dirigisse a revista Crisis, com sede em Buenos Aires (Argentina). Era uma publicação voltada às coisas da cultura, com um viés político e também econômico.

Depois, se tornou impossível não lê-lo mais.

Nascido a 3 de setembro de 1940, em Montevidéu (Uruguai), Eduardo Galeano virou uma consciência das necessidades e urgência da América Latina. Uma consciência que não está apenas no exemplar As veias abertas da América Latina (1971), mas também em outros tantos livros, como Vagamundo (1973) e Dias e noites de amor e guerra (1975). Em todos, está o registro da realidade de nuestros países e a indignação que ela provocava e continua a provocar sem interrupções.

 

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“As veias abertas da América Latina” é o livro mais conhecido de Galeano. A exploração a que a América Latina é submetida, vista em retrospectiva e em perspectiva

 

Era um homem sem fronteiras de pensamento. Analisava as condições locais de países e continentes, por intermédio de fatos, palavras e personagens comuns. Nada de sociologia buscada nos meios acadêmicos. Ele era a evidência das vozes das ruas.

Por outros meios – as crônicas e os ensaios –, ele denunciou a irresponsabilidade atávica de governantes medíocres; o acúmulo de riqueza nas mãos de pequenos grupos que não hesitam em especular com a sobrevivência alheia; a decadência urbana provocada por deliberadas políticas aplicadas para debilitar o crescimento econômico; as ditaduras e as mentiras invocadas para celebrizar “democracias” de um lado só.

Em qualquer livro dele, a denúncia toma fôlego. E constrange. Abro aleatoriamente Dias e noites e ali há provas abundantes do que escrevo:

“Ser jovem é um delito. A realidade comete esse delito todos os dias.”

“Há pouco, em Montevidéu, um menino pediu à mãe que o levasse de volta ao hospital: queria desnascer.”

“Estar vivo é um perigo; pensar, um pecado; comer, um milagre.”

Assim era Eduardo Galeano, morto aos 74 anos, em Montevidéu, no dia 13 deste mês.

 

Foto: Rafael Holanda Barroso

 

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