Ele se chamava Cláudio

 

Uma semana turbulenta. Faculdade, trabalho, faculdade, final de semestre e toda aquela correria que todo universitário conhece.

 

Estou a caminho do trabalho, pensando: Caramba, ainda é sexta-feira?

 

Desço do ônibus, ouvindo uma música aleatória da minha playlist, quando vejo uma mulher um tanto quanto desesperada. Imagine a cena: uma mulher de mais ou menos 35 anos, angustiada ao telefone, uma adolescente de cabelo colorido sem nenhuma reação e um senhor de uns 50 anos, sentado ao chão com aparência pálida.

 

Pronto, foi isso o que vi.

 

Como as outras pessoas que por ali passaram, eu deveria ter olhado, apenas, e seguido meu caminho? Não pude. Me aproximei e tentei ajudar. Era o mínimo.

 

— Está tudo bem? Precisa de ajuda?

— Ele me parou e disse que estava passando mal. Estou tentando ligar para o socorro, mas eu não sei o número dessa rua e a atendente desligou o telefone na minha cara. Meu celular está descarregando e não sei o que fazer!

— Posso ligar do meu. Calma.

— O nome dele é Cláudio, só sei isso. Ele não consegue falar mais nada.

 

Pensei: Que tipo de atendente desliga o telefone em meio a um socorro? O.k., ignorei.

 

— Bom-dia, me chamo Emmanuele. Estou na Avenida Doutor Arnaldo. Não existe uma numeração, pois é o muro do instituto de câncer infantil, mas estamos aproximadamente no número 2.000.

— Entendi. Bom, me descreva o que está acontecendo.

— Tem um senhor passando mal. Não o conheço, mas se chama Cláudio.

— O que ele está sentindo?

— Ele está sentado no chão… Moça, ele está convulsionando!

— Preciso que me responda algumas perguntas. Ele é diabético?

— Não sei, não o conheço. Moça, ele está muito mal!

— Certo. Ele teve alguma convulsão antes?

— Moça, eu não o conheço! Creio que seja a primeira de hoje.

— Certo. Direi o que você fará a seguir e logo em seguida peço para que espere o socorro no local. Bom-dia e boa sorte!

 

No momento tive de rir. De nervoso. Como alguém segue o script numa situação assim? Tudo bem, procedimento médico padrão de emergência, objetivo, linear e frio.

 

Prestei os primeiros socorros pensando: graças a Deus que fiz o curso de segurança no trabalho. Ele foi se acalmando e apagou. Enquanto isso, esperávamos pelo socorro.

 

Quinze minutos depois e nada. O senhor Claúdio continuava desacordado. Então, falei baixinho com ele:

 

— Oi… Cláudio?

 

Ele acorda assustado e sem entender nada.

 

— Oi, calma. Está se sentindo melhor?

— O quê? Oi?

 

Ele não conseguia entender nada. Então, deitei a cabeça dele na mochila e pedi que ficasse deitado. Ele apenas dizia:

 

— Tô com tontura. Meu Deus!

 

Quarenta minutos depois, enquanto insistíamos em falar com o socorro, o atendimento chega (ufa, já não aguentava mais de tanta angústia).

 

— Emmanuele? (disse o socorrista, procurando saber quem eu era.)

— Sou eu.

— O que houve?

 

Descrevi tudo, com todas as vírgulas, enquanto ele era atendido. Depois, com a consciência tranquila, pude seguir em direção ao trabalho.

 

A moça, cujo nome não sei, me agradeceu seguidas vezes, dizendo que não teria feito nada daquilo sozinha. Eu? Eu só conseguia pensar em todas as pessoas que passaram por nós e ignoraram a situação. Em toda a demora para prestar um socorro e, finalmente, em como eu me sentia feliz de ter ajudado.

 

*Emmanuele Calisto é designer e ilustradora.

2 comentários para “Ele se chamava Cláudio”

  1. Emmanuele Calisto

    Emmanuele Calisto

    Obrigada pela leitura. Fico feliz em saber que gostou do meu texto. Escrevo com minha alma e procuro passar verdade.

    Abraço forte!

  2. MARIA DE FATIMA DOS SANTOS LIM

    Nós só damos aquilo que temos! Parabéns Emmanuele pelo seu gesto de amor para com seu próximo e também por me emocionar logo ao chegar no trabalho com um texto tão atrativo e ótimo de se ler em todos os sentidos, vc eh uma das poucas autoras que consegue atrair minha total atenção quando paro para ler!

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