Engole o choro. E obedece quieta

 

Filha minha não sai de casa sozinha.

Filha minha não usa roupa de vadia.

Filha minha não pinta a cara desse jeito.

Filha minha não é mãe solteira – ou casa ou vai pra rua.

Filha minha não precisa de faculdade.

Filha minha casa com quem eu aprovar.

Irmã minha não vai ficar de sem-vergonhice.

Irmã minha não sai por aí de shortinho.

Irmã minha não dá mole pra homem.

Namorada minha não senta em bar só com amigas.

Namorada minha não fica de papo com amigo homem.

Namorada minha tem que se dar ao respeito.

Mulher minha cuida da casa, das crianças e de mim.

Mulher minha não me diz o que fazer.

Mulher minha abaixa a cabeça e faz o que eu digo.

Mulher minha não discute comigo na frente de ninguém.

Mulher minha não sai de casa sem me avisar.

Mulher minha apanha calada, porque se gritar eu faço sossegar no braço.

Mulher minha sabe quem manda.

Mulher minha não trabalha fora.

Mulher minha não tem essa história de independência, não.

Mulher minha não tem que se meter com quem eu saio ou deixo de sair.

Mulher minha tem que entender que eu sou homem, preciso variar.

Mulher minha não pode virar tribufu.

Mulher minha não tem que ficar dando atenção pra família, não. A família dela sou eu.

Mulher minha não tem esse papo de feminismo.

Mulher minha tem que me respeitar.

Mulher minha tem obrigação de dar pra mim quando eu quero. Do jeito que eu quero.

Mulher minha tem que ser dama na sociedade e puta na cama.

Mulher minha tem que pisar na linha, senão o couro come e arrumo outra.

Mulher minha leva porrada e limpa o sangue do chão depois.

Mulher minha não me denuncia. Senão, morre.

 

*Daniela Lepinsk Romio, jornalista, está cansada da postura machista de homens e mulheres por aí. Agradece pelos anúncios, cartões, jingles, bombons e flores recebidos a cada Dia Internacional da Mulher, mas, de verdade, prefere o respeito.

 

 

Sobre a condição da mulher no Brasil e no mundo, leia também:

 

“A rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”, de Shellah Avellar

 

“Carta aos machos”, de Marcus Vinicius Batista

 

“Feminicídio”, de Victor Bin

 

 

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