Ensino superior se interioriza e incentiva desenvolvimento do país

 

A Universidade de Santa Cruz do Sul (foto) é exemplo do impacto positivo da educação superior para o desenvolvimento regional

 

É fato. Todo dia Sabrina levanta às seis e trinta da manhã, se arruma e pega o ônibus do interior de Vera Cruz, município localizado na região do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, para ir à universidade, que fica na vizinha Santa Cruz do Sul. Sabrina é um nome fictício, mas ela é real e se parece com os mais de 13 mil estudantes que estudam na Unisc (Universidade de Santa Cruz do Sul).

 

Santa Cruz do Sul, diga-se, fica na região conhecida como Vale do Rio Pardo. O município está a 150 km da capital Porto Alegre, sua população tem raízes na colonização alemã e é estimada em 124 mil habitantes. Um dos estímulos econômicos históricos ali vem das plantações de fumo, que atraíram grandes fabricantes de cigarro, como a Souza Cruz. É também uma cidade turística, conhecida por suas belezas naturais e por receber grandes eventos, como o Oktoberfest e provas automobilísticas, realizadas no autódromo internacional. É o oitavo município mais rico do Estado.

 

Uma fase antes, e outra depois, da Unisc

Mas o fato é que muitas outras empresas de grande porte vieram a se instalar em Santa Cruz do Sul depois da universidade. Como costumam falar alguns historiadores, há uma Santa Cruz antes da Unisc e há uma Santa Cruz depois dela. E não foram apenas empresas que se beneficiaram: o comércio e a construção civil são outros exemplos também.

 

E como é a Unisc? É uma universidade comunitária, que oferece cursos de graduação, de especialização, mestrado e doutorado, num terreno, em Santa Cruz do Sul, de 414 mil metros quadrados, com área construída de 57 mil metros quadrados. Ela também possui outros quatro campi, localizados em Capão da Canoa, Sobradinho, Venâncio Aires e Montenegro, todos no Rio Grande do Sul. São, conforme números de abril, 610 professores e 13.337 alunos inscritos, somando todos os campi e as modalidades de ensino presencial e a distância, distribuídos por 98 cursos. A universidade foi reconhecida em 1993 sob o número 880, em 23 de junho de 1993, conforme publicado no Diário Oficial da União de 25 de junho de 1993, com base no parecer do CFE nº 282, de 5 de maio de 1993, e hoje é uma das mais importantes do Estado e reconhecida nacionalmente.

 

Foi o professor e agora pró-reitor de graduação, Elenor José Schneider, quem acompanhou parte desse processo, desde a aprovação do primeiro curso de Ciências Contábeis, em 1963, quando ainda era apenas a Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul (APESC), passando depois, em 1980, a constituir as Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul (FISC). Ele confirma:

 

― A Unisc é uma universidade séria e comprometida. O que desejávamos era contribuir de maneira muito decisiva para o desenvolvimento da cidade e da região. Acredito que quem começou jamais pensou que o seu propósito incipiente pudesse ter um impacto tão forte quanto o que vemos hoje, com o que a universidade representa para a região e o estado.

 

O professor acrescenta que os desafios para os próximos anos são “planos que estão relacionados a uma permanente atualização, a uma busca de incorporar a inovação”.

 

 

Elenor José Schneider: Valorização do impacto regional da Unisc

 

 

Instalações e ensino elogiados

Com já milhares de alunos formados e trabalhando no Estado e até fora dele, a instituição comunitária vem se consolidando e se tornando conhecida nacionalmente pela qualidade do ensino e profissionais capacitados.

 

A jornalista Márcia Muller, formada pela universidade e que hoje trabalha na assessoria de imprensa do município de Agudo (RS), diz que escolheu a Unisc pela proximidade de onde morava e pelo seu reconhecimento:

 

― Pesquisei e vi que a universidade oferecia excelentes laboratórios para as aulas práticas e ensino de qualidade. Fiquei muito satisfeita, professores de ótima qualidade, assim como os laboratórios de informática, TV, rádio e fotografia e também a biblioteca, com uma grande oferta de livros. A Unisc será minha referência para o resto da vida.

 

Para quem ainda estuda, como a aluna de jornalismo Luiza Adorna, de 20 anos, a avaliação pode ser esta: além de elogiar o ensino, ela também destaca a estrutura que a universidade oferece.

 

― O que eu gosto na Unisc são as áreas verdes. Me sinto uma estudante dentro de um jardim gigante e mágico. Ao visitar outras universidades, percebo o quanto aqui é especial. A Unisc, por mais que aos poucos esteja com redução de árvores, não tem apenas cinza. Tem verde. Tem vida. Os banquinhos coloridos também conquistam. Os faxineiros e funcionárias hospitaleiros fazem o dia de quem se importa mais feliz.

 

 

Luiza Adorna: “Me sinto dentro de um jardim gigante”

 

 

A acadêmica Luana Schlesner, de 17 anos, que mora em Paraíso do Sul (RS), faz parte do grupo de estudantes que vem de ônibus para a Unisc. No caso dela, um percurso diário, feito à noite. Luana ressalta que a opção pela universidade se deve às oportunidades de trabalho que ela oferece quando você já está lá dentro, bem como a experiência de ser bolsista e a pesquisa. A futura contabilista admite que gostou da instituição desde quando a conheceu:

 

― Gosto de tudo, o lugar é magnífico, apaixonante, as pessoas são simpáticas, novas amizades são feitas. A primeira vez que entrei na instituição, me apaixonei pelo lugar. E logo pensei: “Eu vou fazer minha graduação aqui”.

 

Expansão do ensino superior

Partindo da Unisc para o nível nacional, vê-se um movimento consistente de avanço no ensino superior no Brasil, com muitas novas universidades cadastradas no formato digamos mais clássico e outras voltadas para o ensino a distância. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o número de matrículas no ensino superior no Brasil cresceu 81% em dez anos. A pesquisa mostra que os mais de 7 milhões de universitários brasileiros estão distribuídos em 31.866 cursos oferecidos por 2.416 instituições (304 públicas e 2.112 particulares).

 

O crescimento se explica em parte com o aumento dos cursos para formação de tecnólogos, que têm duração mais curta e muita aula prática e levam o estudante direto para o mercado de trabalho. O que a pesquisa aponta também é a crescente interiorização do ensino superior no Brasil. Isso, devido a políticas e ações do governo federal, como o Programa Expansão, lançado em 2003, e o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), criado em 2008.

 

Por meio dessas ações, 14 universidades federais foram criadas a partir de 2003; dez delas voltadas para a interiorização do ensino superior público. De 2003 a 2010, houve um salto de 45 para 59 universidades federais, um aumento de 31%; e de 148 campus para 274 campus/unidades, uma alta de 85%. Com a interiorização, o número de municípios atendidos por universidades federais subiu de 114 para 272, ou seja, uma expansão de 138%.

 

O Ministério da Educação reconhece que o fenômeno da interiorização traz contribuições expressivas para o desenvolvimento das regiões onde estão inseridas essas unidades acadêmicas.

 

Crescer, sim, mas com qualidade

Entretanto, o acentuado crescimento pode resultar num problema: a queda da qualidade do ensino. É para o que alerta o professor Felipe Pena, da Universidade Federal Fluminense. Para ele, a qualidade do ensino superior é “deficiente e os currículos são engessados”. Felipe é autor de Fábrica de diplomas (Record), livro que faz uma crítica do acesso ao ensino superior no Brasil, com base numa trama de ficção. O professor acredita que o primeiro passo para um projeto educacional no país é estimular o diálogo com a sociedade.

 

― Um bom projeto seria criar um programa em que os professores voltassem para os setores representativos de suas áreas a fim de entender as evoluções tecnológicas e dinâmicas dos nossos tempos.

 

Ele ainda destaca que o aceso à universidade deveria ser gradual e lento e com conteúdos relativos à realidade social e diz que um modelo a ser seguido, mas distante da realidade de nosso país, é o modelo sul-coreano.

 

 

Felipe Pena: Alerta para a perda de qualidade no ensino

 

 

Para Flavio Williges, sociólogo e professor da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, o que falta é qualificar mais claramente o papel do Estado e da sociedade civil na condução da educação. O sociólogo ainda fala que as diferenças do ensino público para o privado são diferenças pedagógicas, administrativas, de finalidades, de projetos, de história, isto é, são profundas.

 

O professor retoma a importância de muitas universidades para o cenário regional de uma cidade. E defende:

 

― Ao mesmo tempo, elas têm tido uma inserção e resposta mais rápida às demandas regionais e prestam serviços qualificados às comunidades onde estão localizadas.

 

Williges frisa ainda a importância do programa “Ciência sem Fronteiras”, para o intercâmbio e formação internacional de pesquisadores brasileiros, e evidencia: “Se o programa continuar por mais uns dez anos, teremos uma revolução no padrão da educação nacional”. E conclui: “Sou bastante otimista com os rumos da educação brasileira”.

 

O sociólogo conclui nossa conversa dizendo que “nosso problema não é o ingresso, portanto, mas a permanência e a qualidade do aluno na saída da universidade”.

 

 

Flavio Williges: Universidades regionais atendem

a demandas mais prontamente

 

 

Fixação de talentos nos municípios de origem

Ainda apontando rumos para o cenário regional, Jeane Schuller, coordenadora do Polo de Apoio Presencial de Agudo, estrutura oferecida para que alunos possam acompanhar aulas de ensino a distância, diz que a presença de universidades menores facilita também a permanência de muitos jovens em seus municípios. E contribui, por isso, para reduzir o conhecido êxodo de jovens de localidades menores:

 

― A oferta da Universidade Aberta do Brasil oportuniza, a cidades menores, como o nosso município, este tipo de acesso, em que jovens e adultos têm acesso facilitado, pois podem residir no local, sem necessidade de mudança de cidades.

 

São caminhos. É o regional apontando saídas para o nacional.

 


*Angélica Weise é repórter e pesquisadora.

 

 

Foto de Luiza Adorna: Angélica Weise

Demais fotos: Divulgação

 

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