Especial Islã: Guerra ao terror?

 


Há pouco mais de dez anos uma “Guerra ao Terror” foi lançada pelos Estados Unidos e seus aliados. O mundo vivia a tensão pós-11 de Setembro e o objetivo declarado era combater os crescentes atos terroristas orquestrados por extremistas islâmicos.

 

Na verdade, o Oriente Médio já vivia sob o jugo da OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar de que faz parte os Estados Unidos, mas foi a partir dessa ofensiva do presidente George W. Bush que as intervenções se acentuaram, começando pelo Afeganistão, ações no Paquistão e a desnecessária invasão do Iraque.

 

Muito se ensaiou a retirada dos soldados e há uma sensação de que as “guerras” terminaram com o fim das tropas. Mas, na prática, o que aconteceu foi o exponencial crescimento de ataques com drones (aeronaves não tripuladas e teleguiadas) e intervenções desastrosas, como na Líbia.

 

Embora muitos veteranos tenham retornado, há ainda uma dependência de conhecimento operacional e técnico. O Iraque não conseguiu formar um governo de unidade, o Afeganistão não conseguiu treinar seu Exército, nem o Paquistão neutralizou o Talebã.

 

Somado ao vácuo institucional que se formou, há ainda o crescimento de jihadistas, de grupos armados que lutam para proteger valores islâmicos e contra a ocupação ocidental de seus territórios.

 

Mas se uma guerra ao terror foi lançada há mais de uma década, por que esses grupos não diminuíram?

 

Pois além de crescer e ganhar experiência, o terrorismo também tomou ares de Estado. Grupos assumem funções administrativas das cidades, formam um sistema público de atendimento e ainda controlam postos de petróleo e outras produções, o que gera uma essencial fonte de renda.

 

O terrorismo hoje também é global e se domesticou. Há a crescente preocupação com os jovens nascidos em países ocidentais que se seduzem pelos ideais do extremismo islâmico.

 

O fracasso da OTAN

É muito complexo falar de países árabes sem uma contextualização histórica, que considere o colonialismo, o pós-Guerra Fria e também a dinâmica das ditaduras e movimentos de independência, a recente Primavera Árabe, sem contar, obviamente, a riqueza energética da região, resumidamente, o petróleo. Deixo essa dica ao leitor que se interessa em saber mais sobre o surgimento de grupos radicais, além do nacionalismo árabe que eclodiu como movimentos islâmicos em diversos países.

 

Vou me ater a uma breve elucidação.

 

Começo pelo Isis, o grupo Estado Islâmico. Esse grupo anacrônico, que choca ao postar na internet vídeos de barbárie inconcebível. Nasceu como uma ramificação da Al Qaeda no Iraque após a invasão pelos Estados Unidos ― daí já vem o primeiro apelo de recrutamento para jovens revoltados com a incursão.

 

O Isis, até então, era um grupo sem importância. Pelo menos, não despertava interesse da comunidade internacional, que estava preocupada com os rumos da Primavera Árabe.

 

A Síria se tornou o caso mais emblemático. Rebeldes sunitas entraram em sangrentos conflitos com o Exército de Bashar Al-Assad. Cada vez mais combatentes estrangeiros começaram a se juntar em fileiras rebeldes, que contavam com apoio ocidental, inclusive em formação e financiamento.

 

Uma preocupação era a de que armas caíssem em mãos erradas, já que muitos grupos plurais se formavam. Mas isso não foi suficiente para barrar a ânsia ocidental de derrotar um dos maiores aliados da Rússia e do Irã na região: o interesse geopolítico falava mais alto.

 

Enquanto a guerra na Síria se prolongava, o Isis, assim como a Frente al-Nusra (braço da Al Qaeda no país), foram ganhando regiões e entrando em conflito com os rebeldes moderados. Hoje eles lutam entre si e disputam territórios.

 

Com experiência de combate e mais prestigiado como grupo jihadista, o Isis voltou ao berço e começou a dominar regiões no Iraque. Em um país sem uma coalizão governamental sólida, formou um califado – pegando regiões do Iraque e da Síria.

 

A Líbia também teve um destino desastroso com os bombardeios para a derrubada de Kadhafi e vive o caos, com vazios de poder e diversos grupos tribais em conflito. O país, que tinha o maior índice de desenvolvimento humano da África, hoje é mais um desmantelado.

 

No Mali, embora a intervenção francesa tenha sido positiva como apoio ao Exército do país, não foi eficiente no combate aos grupos extremistas, que ampliaram sua rede de influência. Na Nigéria, o Boko Haram continua com seus atos e, só esta semana, matou 2 mil pessoas, em atentados que não geram comoção internacional.

 

Por uma nova postura

É evidente que muitos países dessas regiões necessitam de apoio internacional, que os ajudem no fortalecimento de instituições e no combate aos extremistas. Porém, é preciso criar uma relação de cooperação, que vise à independência e não o ressurgimento de interesses coloniais, que geram dívidas.

 

Também é necessária uma reformulação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e demais órgãos internacionais, que impedem decisões plurais e facilitam medidas unilaterais e de caráter beligerante. Há os que compram armas e os que vendem armas. Há os que fazem os dois.

 

As intervenções ocidentais têm sido desastrosas. Há prepotência de achar que a comunidade internacional deva intervir e levar a “democracia”. Os resultados são catastróficos e a situação está cada vez mais convulsionada.

 

A democracia ocidental tem seus próprios valores e eles mudam de país para país. É importante deixar que descubram por si esse caminho, claro, sempre resguardando os direitos humanos, que são universais (e nunca permitindo uma “nova Ruanda”).

 

Mas a evolução tem de vir de dentro. Não adianta recriminar a ditadura no Irã, quando se tutela a ditadura saudita. Não adianta também levar democracia com drones e bombas. Nem interferir no processo natural de levantes populares.

 

Na França, comoção por questões erradas

Os lamentáveis ataques na França retomaram o debate sobre o terrorismo, mas novamente usando a comoção para levantar as questões erradas. Já se começa uma mobilização internacional por monitoramento, vigilância, militarização. As medidas de segurança crescem junto com a islamofobia.

 

Não que a segurança deva ser excluída do debate, mas por que também não se reflete sobre as causas mais estruturais? Não seria a hora de propor uma nova postura? Uma reação menos intervencionista, mais colaboracionista, que ajude a população de cada nação a derrotar o terrorismo.

 

As pessoas geralmente só problematizam as questões que chegam à própria casa. Neste caso, os ataques em seus países. Quem mais deseja ver o fim do extremismo são os próprios muçulmanos, as maiores vítimas (em número e simbolismo) das atrocidades que esses grupos cometem.

 

O recrutamento de extremistas é impulsionado pela intervenção ocidental. Quase todos os terroristas, como os irmãos Chérif e Said Kouachi, em Paris, dizem que se vingam dos países que levam guerras e bombardeiam civis. Além de não brecar o avanço desses grupos, a intervenção ainda ajuda a aumentá-los de tamanho.

 

Essas reflexões não chegam a público porque são inconvenientes. É mais fácil plantar a semente do medo para colher os interesses. Quem se beneficia com uma região desestabilizada? Quem lucra com todo o aparato militar e de segurança? Quem ganha com as negociações de petróleo? Quem sai na frente do jogo de xadrez geopolítico?

 

O Ocidente só maquia a nova forma de colonialismo. E o terror é muito conveniente. É preciso que a sociedade civil se mobilize por uma nova postura. A Guerra ao Terror não ganhou porque o objetivo nunca foi vencer.

 

 

P.S.: Fiz um panorama opinativo sobre a questão. Para dados, números e informações complementares, recomendo as leituras abaixo.

 

Sobre o crescimento dos ataques com drones:

The New Yorker: “The unblinking stare”.

 

The Bureau of Investigative Journalism: “Drone War Exposed — the complete picture of CIA strikes in Pakistan”.

 

 

Sobre o crescimento dos jihadistas:

The Wall Street Journal: “Jihadist Groups’ Threat To U.S. Grows, Report Says”.

 

NewStatesMan: “The first “war on terror” was a failure. Do we really need a sequel?”

 

The Independent: “The ‘war on terror’ was failed.”

 

 

Contextualização social dos jovens europeus nas fileiras da jihad:

Blogs Estadão: “Por que jovens europeus têm ingressado em grupos terroristas?”.

BBC Panorama: “From jail to jihad”.

 

 

*Natássia Massote é jornalista, especializada na cobertura de assuntos internacionais. Contato: [email protected]

 

 

Leia também:

Especial Islã: “Somente o amor pode vencer o extremismo”, por Dugueto Shabazz.

 

Um comentário para “Especial Islã: Guerra ao terror?”

  1. jefferson

    Texto amplo e explicativo
    Parabéns pelo texto, com essa visão ampla é possível levar um pouco mais de entendimento sobre esses pontos até pessoas que apenas consomem a grande mídia.
    Espeto mais conteúdo assim.

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