Essa tal de educação

 

 

Mestre dos mestres Henfil,

 

Estamos em pleno mês de maio e as igrejas espalhadas pelo país inteiro recebem casais para celebrar milhares de matrimônios – é época de planejar o aparecimento de milhões de brasileirinhos. O problema é que os brasileirinhos crescem e crescidos são matriculados em escolas.

 

O problema é que não existem vagas para todos (os governadores e prefeitos sabem), mas a propaganda no intervalo da novela das nove diz (em tom progressista) que o governo de São Paulo (por exemplo) investe todas as suas forças e recursos na melhoria das condições de trabalho e salário dos professores.

 

Estamos em pleno mês de maio e os professores das redes municipal e estadual de ensino clamam por um salário mais digno pelas ruas da capital paulista. As grandes emissoras de televisão ficam em polvorosa e enviam seus helicópteros para cobrir as manifestações grevistas.

 

Como verdadeiros paladinos da informação e da defesa da cidadania, repercutem os eventos e o quanto a passeata dos professores atrapalhou o trânsito – as ambulâncias, as viaturas de polícia, os serviços todos, a mobilidade urbana e tudo mais…

 

Raramente alguém entrevista um professor e pergunta se ele preferia estar na sala de aula (lugar que a maioria das pessoas não conhece) ou reivindicando o que é seu por direito. A data do dissídio é no mês de maio, mas muitos governantes não cumprem o que foi acordado com os sindicatos. O que resta aos professores: greve.

 

E a imprensa televisiva resume as manifestações históricas e vergonhosas para qualquer país decente em um evento que atrapalhou o trânsito. Paradoxalmente uma emissora exibiu, em um de seus telejornais, que uma empresa paulistana fez uma seleção para contratar um estagiário e só depois de um ano conseguiu selecionar alguém capaz de resistir bravamente ao complexo teste aplicado: um ditado.

 

Já sei! Alunos em nível universitário não sabem escrever porque foram atrapalhados pelo trânsito – as seguidas passeatas dos professores impediram que muitos jovens chegassem aos bancos escolares e consequentemente ao convívio com as letras.

 

Já sei! A progressão continuada tem feito verdadeiros prodígios e nossos alunos (principalmente do ensino público de São Paulo) estão preparadíssimos para superar os vestibulares da UNESP, USP e UNICAMP.

 

Já sei! O fato de os alunos do ensino fundamental não comparecerem às aulas de reforço não atrapalha em nada o desenvolvimento intelectual deles. O fato de não se ter nenhum instrumento avaliativo próximo dos aplicados pela sociedade em nada contribui para o surgimento de indivíduos apartados do conhecimento e de algo fundamental na formação do caráter: responsabilidade.

 

Cabe um aviso aos governantes todos: o trabalho do professor não é sacerdócio e pouco ou nada tem de proximidade com a filantropia – o trabalho do professor é disseminar o conhecimento, oferecer condições para que os pequenos sejam seres plenos, éticos, sensíveis e jamais subservientes.

 

Estamos no mês de maio e essa tal de educação anda cada vez mais desprezada – um discurso vazio aqui e outro ali – uma pergunta sobre o tema em um debate oco em um estúdio gelado (em todos os sentidos) de televisão.

 

Às vezes penso que (alguns jornalistas) esqueceram dos primeiros anos escolares e em alguma parte da racionalidade ocultaram a memória afetiva e por censura ou descaso não tratam com sinceridade e respeito o passado e o presente de lutas dos educadores.

 

Estamos no mês de maio…

 

 

*Sílvio Valentin Liorbano é professor de Português da rede pública municipal de São Paulo e escritor.

 

Comentário