Eta, teta boa!

Henfil querido,

Após merecido retiro espiritual no Nepal – longe do horário político –, voltei para ouvir as propostas dos candidatos à Prefeitura de São Paulo. A inventividade dos futuros administradores é comovente – projetos revolucionários para a melhoria do transporte, da educação, saúde, habitação e oportunidades de trabalho.

E os debates na televisão? Os jornalistas medeiam o encontro entre os candidatos e os eleitores ficam em casa, sabedores que as perguntas serão iguaizinhas às da eleição anterior. Como disse o Chacrinha certa vez: “Nada se cria, tudo se copia”. O modelo do debate é sempre o mesmo: um candidato mira a pergunta (como diria Joelmir Beting) e dispara na direção do seu oponente.

Um mostra documentos para atacar e o outro mostra mais papel e faz sua defesa; um diz que o outro tem frieira e o outro, pé de galinha; um diz que fez prodígios na área da saúde em sua última administração e o outro anuncia que vai ressuscitar o mar Morto; um já tem lugar garantido no céu e o outro pretende construir habitações populares no jardim do Éden; um diz que vai resolver o problema das enchentes e o outro promete distribuir capas de chuva e galochas antes das águas de março; um diz que vai melhorar o transporte público e o outro aconselha todos (porque a vida será mais saudável) a andar a pé.

E os candidatos a vereador? Tem o Mané da Farmácia, o Ricardo da Academia, o Antenor do Açougue, a Maria da Pastelaria, o Walter Taxista, o Laércio da Locadora, o Sebastião Frentista, o Zé da Cocada, o Raimundo da Rapadura, o Toshiro da Lavanderia, o Leão do Imposto de Renda, a Diná Vidente, o Quevedo Paranormal, o Silvio do Baú, o Antenor Locutor, o Cachorrão do Pet Shop, o Tufão da Novela, a Nina Doméstica, a Carminha do Divino e uma porção de outros interessados em disputar uma vaga na Câmara.

Deve ser uma teta muito boa; quer dizer, uma cidade com tantos problemas precisa de gente trabalhadora para alavancá-la. É preciso muita gente para pôr São Paulo nos trilhos – retomar o crescimento e fazer jus ao título de locomotiva do Brasil.

O único problema é que, se todos os candidatos fossem eleitos, os trens do metrô e da CPTM ficariam cheios de vereadores e não só de eleitores. Haveria conflito de interesses?

Ah, que bobagem, a minha. Veja só… E vereador usa transporte público? Vereador anda de carro pago pela população, com ar-condicionado e motorista. E o salário? Chup, chup.

Eta, teta boa!

 

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