Eu acredito nos professores

 

Embandeirado Henfil,

 

Escrevo e ouço o Gonzaguinha: “Eu acredito é na rapaziada” – principalmente a rapaziada da lousa e do giz – os operários da educação, os trabalhadores que driblam feito o Garrincha a corrupção, o lateral Petrobras, o zagueiro Metrô e a quadrilha organizada, digo, torcida organizada de vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente, que dizem que torcem a favor, mas jogam contra.

 

Os jornais pouco ou nada disseram, as emissoras de televisão estão preocupadíssimas com a entrega dos estádios para o mundial de futebol e os professores da rede municipal de educação de São Paulo estão preocupados com a qualidade do ensino, os salários ridículos, a falta de estrutura para receber alunos com necessidades especiais em sala de aula.

 

O prefeito de São Paulo esteve na Argentina – decerto para ficar distante do mosquito da dengue. Parece que a saúde não anda muito saudável, mas o prefeito (homem democrata) pretende alterar o plano de carreira dos professores – parece que o salário (um pouco mais digno) no final da carreira será “limado” – em linguagem de estúdio (entre os músicos) quer dizer que será apagado – a ideia é retirar a sexta-parte dos vencimentos integrais (paga mensalmente quando o funcionário completa vintes anos de serviço público estadual) e outros adicionais por tempo de serviço.

 

Será que o prefeito de São Paulo é uma espécie de Getúlio Vargas às avessas? Enquanto um governante garantiu alguns direitos, o outro pretende retirá-los e olha que o regime de um deles foi conhecido como ditadura Vargas e nós vivemos a democracia – o entendimento, o diálogo –, o Projeto de Lei que é enviado na calada da noite para ser votado durante o sono da população.

 

Logo mais o horário político, o palanque eletrônico, os debates vazios que subestimam quem assiste à conversa fiada e por vezes afiada daqueles que se defendem e se acusam mutuamente. A maioria dos candidatos é suspeita – e todos demonstram apreço pelo tema educação – e todos sabem que há escolas sem luz elétrica e água – e muitos desviam dinheiro da merenda – e muitos causam náuseas e depois de ouvi-los só resta o vômito.

 

E pensar que muitos estavam nos palanques das Diretas-já. Mas será que desejavam a volta das liberdades individuais e coletivas ou queriam o poder? O poder de enriquecer à custa do trabalho e da boa-fé do povo brasileiro. O poder para espalhar o nepotismo, a miséria, a corrupção e toda sorte de desmandos.

 

Reconheço que a missão é árdua – envergonhar uma nação inteira é tarefa hercúlea e provavelmente alguém dará prêmio para quem fez tanto pelo país – nome de praça, rua e avenida e como diria o Gonzaguinha: “Você merece…”. Tem gente que deixa seu rastro histórico pelo caminho e a população é quem pisa em cima.

 

E sendo assim o professor mantém a cabeça erguida e sabe que o homem público não vê com bons olhos os professores – principalmente quem junta conhecimento e ética e repassa aos meninos e meninas das periferias e rincões brasileiros.

 

A matemática de quem governa só reconhece a multiplicação e nas salas de aula os alunos e a comunidade ensinam lições diárias de como é possível partilhar, dividir em partes iguais.

 

O povo brasileiro é muito melhor do que seus governantes – a imagem, a fala, o comportamento em período eleitoral podem ser moldados por uma agência de publicidade, mas o caráter de alguém não se altera com maquiagem e um bom corte de cabelo.

 

E sendo assim o professor mantém a cabeça erguida – os pés fincados nas escolas e os sentidos atentos ao mundo circundante – preocupado em formar homens de bem para enfrentar o duro embate social.

 

Eu acredito nos professores.

 

Jornalirista

 

 

*Sílvio Valentin Liorbano é professor e escritor.

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