Eu ainda choro

 

Como escrever sobre uma tragédia? Sentindo?

 

O que aconteceu na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013, na boate Kiss, localizada no centro de Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, deixará cicatrizes para sempre. Cicatrizes nas mais de duzentas famílias e amigos que perderam seus familiares e conhecidos.

 

E nesta segunda-feira, 27 de janeiro de 2014, faz um ano que aconteceu a maior tragédia do Rio Grande do Sul. E por que eu ainda choro? Por que aquele domingo azul foi tão pesado e triste?

 

Porque tento, o mínimo que seja, me colocar no lugar dos parentes das vítimas, que buscam forças, explicações e justiça. Afinal, de tudo que parte, há algo que fica.

 

Felizmente eu não tive nenhum amigo, familiar nesta tragédia, mas de fato eu ainda continuo tocada com o dia 27 de janeiro de 2013. E Santa Maria, que sempre me recebeu tão bem, assim como todos os jovens que procuram estudar, que saem de cidades menores e vão morar lá e são recebidos calorosamente, ainda se recupera.

 

Depois de um ano, as famílias pedem um abraço, atenção, eu digo, um abraço caloroso do tamanho dessa cidade.

 

Ainda me entristeço, porque penso nas mães, de manhã cedo ligando para seus filhos por informações e nenhuma ligação correspondida, até porque o amanhã já não existe mais e os quartos ficarão vazios, intactos.

 

Choro, porque eu já estive na boate Kiss. Eu já me diverti, dancei e retornei para casa.

 

Choro, porque eu já fiz meus pais me esperarem preocupados, torcendo pelo meu retorno, mas eu retornei.

 

Choro, porque foram 242 vidas perdidas dramaticamente e em meio à diversão. Vidas que se foram e deixarão outras vidas pela metade.

 

Choro, porque eram jovens como eu, estudando, cheios de planos e projetos — interrompidos por um acontecimento que é inexplicável.

 

Eu ainda choro por essas vítimas, eu choro por esses sonhos não concretizados, pelos ônibus partindo, pelos beijos não terminados naquela noite, pela música interrompida, pelas salas vazias, pelos abraços não dados, pela luz apagada e pelo “até depois”, eu ainda choro.

 

 

*Angélica Weise é natural de Agudo (RS), cidade próxima a Santa Maria (RS), e trabalha como jornalista e pesquisadora de comunicação.

 

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