Eu sou bicho, sou força da natureza

 

 

Então, meu filho nasceu. Enquanto alguém me suturava, ele foi levado para outra sala. Demorou, e demorou mais um pouco. E, de repente, a médica trouxe o pacotinho, aquele rostinho bonito, dormindo. Abre parênteses: tenho fotos para provar que Caio nasceu lindo. Não tinha cara de joelho. Nasceu um pouco antes do previsto, então, não ficou encaixado e apertado entre meus ossos pélvicos, por isso a carinha sem inchaço, a cabeça redondinha, uma criança de filme. Fecha parênteses.

A médica trouxe o Caio para perto do meu rosto. E, aí, eu me encostei e cheirei a cabeça dele…

E o mundo parou.

Ninguém tinha me avisado do impacto que é o cheiro do filho da gente. Não dá para descrever, mas é uma sensação completamente animal. Eu ainda visualizo o caminho que aquele cheiro quente e meio doce percorreu das minhas narinas até o meu cérebro e pelo meu corpo inteiro, ficando gravado para sempre. Reconheceria o cheiro do meu bebê em qualquer lugar do mundo.

Naqueles segundos eu me descobri bicho. Animal. Irracional. Forte. Poderosa. Brava. Só instinto. E foi muito bom. Ali, eu sabia que amaria aquela criaturazinha acima de qualquer outra. Que cuidaria. Defenderia. Educaria. Mataria em sua defesa. Morreria em sua defesa.

Antes que você talvez torça o nariz: ele não estava com cheiro de sangue, nem de placenta, nem dos líquidos todos que envolvem um recém-nascido. Meu filho nasceu com agenesia da mão esquerda e, por isso, foi levado às pressas antes que eu o visse. Foi examinado primeiro e, quando chegou ao meu colo, já estava todo limpinho. Também não era cheiro de sabonete, porque ele não foi lavado com sabonete.

Era simplesmente o cheiro dele, que eu busquei depois durante anos a cada vez que ele passava perto de mim. A cada vez que eu enterrava meu nariz nos cachinhos castanhos do meu leão, sempre identificava o mesmo cheiro, por baixo de qualquer outra coisa: sabonete, shampoo, creminho, bala, chocolate, terra, leite, ou outros odores menos agradáveis.

Aí, nasceu Alice. E foi igualzinho. Só que eu já sabia. Estava preparada. Pude antecipar, apreciar a espera e esvaziar bem os pulmões antes de cheirar pela primeira vez a cabecinha loira, o rosto amassadinho e inchado da minha passarinha. Não me canso de cheirar aquela menina querida, o tempo todo que passo com ela.

O mais curioso é que o cheiro do Caio mudou completamente; agora, que ele é um adolescente. Claro que ainda o abraço, e muito, mesmo que esteja saindo da Educação Física. Mas prefiro quando sai do banho e se borrifa com os boticários da vida… Sou uma força da natureza – e a natureza sabe das coisas. Ele agora está se transformando em um homem – o cheiro de filhote não existe mais. Ele não precisa mais de tanta proteção, de tanto apoio para tudo.

Mas eu ainda morreria – e, sem dúvida nenhuma, mataria – por ele. Sou um bicho.

*Daniela Lepinsk Romio ([email protected]) é cronista, jornalista e animal.

 

3 comentários para “Eu sou bicho, sou força da natureza”

  1. Ana Paula Lepinsk Teixeira

    Cara Daniela, que texto!!!Amei de verdade e sei literalmenete como é se sentir animal assim. Parabéns!

  2. Rafael Alexandre Dos Santos Ma

    Muito Bom
    Parabéns Dani, Ótimo texto Muito bom mesmo. espero que um dia eu possa ter uma experiência tão boa quanto essa… Mesmo sendo Muito claro que eu não possa ser mãe, espero que a vida me traga algo de bom também, algo que faça eu me lembrar o quanto bicho eu sou.

  3. Guilherme

    Lindo demais! Parabéns pela dádiva de ser o que é, e pelo presente que é poder compartilhar isso tudo com o mundo!

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