Eu te entendo

Tenho uma grande amiga, a Pati, com quem tenho longas conversas filosóficas, das quais sempre saímos com pelo menos uma teoria. Todo mundo tem uma teoria, e a nossa é de que ouvir um “Eu te entendo”, às vezes, é melhor do que ouvir um “Eu te amo”. Contei isso para outra amiga e ela me respondeu dizendo que, se as duas frases vierem juntas, aí é ganhar na loteria. Entendi e concordei!

 

Quando estamos agoniados, ouvir que alguém nos entende é algo como “Você não está louco”, até mesmo se a quase-declaração-de-amor vier acompanhada por um “mas-porém-todavia-contudo-entretanto-no-entanto”.

 

O psicanalista britânico Adam Phillips define que “o objetivo da psicanálise não é curar as pessoas, mas mostrar que não há nada de errado com elas”. Mostrar que não há nada de errado não é dizer que a pessoa esteja certa. Mostrar que não há nada de errado é entender. E estar disposta a entender é abrir a mente para o diálogo. Quando a gente diz “Eu te entendo”, não necessariamente estamos dizendo “Eu concordo com você”.

 

Eu não concordo, mas entendo a gente phyna que condena manifestações populares, não aceita ciclovias, esbraveja que bolsa-família é para sustentar quem não trabalha, culpa nordestinos pelo resultado das eleições e não acredita que esteja faltando água em São Paulo. Gente fina é outra coisa, eu entendo, Elis. Há muito tempo, está cada vez mais down the high society.

 

Depois dos atentados ocorridos na sede da publicação francesa Charlie Hebdo, li vários textos com opiniões diferentes, cada um tentando explicar um dos lados da história. As matérias que entendiam o lado dos cartunistas eram logo bombardeadas por opiniões que falavam sobre falta de respeito, intolerância religiosa e preconceito na França. As matérias que entendiam o lado dos ataques eram facilmente ofendidas como sendo a favor da violência e da censura. É importante deixar claro que entender não é compactuar. É possível entender dois lados distintos, concordar com um, com outro, com os dois ou com nenhum. Sem o exercício do “Eu te entendo” não há justiça.

 

É fato que nem sempre a gente entende as atitudes, as decisões e os rumos do mundo. Sempre que eu tento entender alguma coisa e não consigo, eu me livro da culpa ao me lembrar da música do Toquinho e do Vinicius, me conformando que “sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão”.

 

“Eu te entendo” é altruísta, é manifestar o respeito, matar o preconceito, libertar as nossas sombras e o medo do outro. “Eu te entendo” é uma espécie de “Eu te amo”. E o amor não se explica: se entende pura e simplesmente.

 

*Thais Polimeni é publicitária e escritora. Contato: [email protected]

 

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