Ex-amigo

“Descubra de forma simples quem te excluiu do Facebook.” Assim dizia a manchete encontrada no deslizar da tela, entre selfies e matérias sensacionalistas. O link era bem caça-cliques, mas fui tomada por uma curiosidade gigantesca. Descobrir quem desfez a amizade comigo? E de forma simples? Ah, o que é que tem? Por que não?

Parecia interessante. Talvez eu ficasse surpresa, talvez chateada, talvez desse risada. Mas… quero ver! Então, como alguém que acorda de madrugada na ponta dos pés e assalta o último pedaço de bolo da cozinha, segui o passo a passo. Clandestinamente. E aí, bem… e aí começou toda a paranoia.

A Fulana desfez a amizade dela comigo??? Mas por quê? O que foi que eu fiz? Será que postei algo de que ela não gostou? Poxa, mas, se é assim, por que não me mandou um inbox? As pessoas só fogem, por que não tentam resolver as indiferenças? Ah, não! Não foi virtual a coisa. Foi presencial. Certeza. Aquele dia no bar. Não gostou do que eu falei. Ah, mas eu tava meio bêbada, por que me levaria a sério assim? Não faz sentido. E olha só, a gente trabalha no mesmo bairro. Bom, já passou. Por que vou ficar triste por isso? Nunca mais vamos nos falar mesmo. Próximo.

Ãhn? O Beltrano? Ave-Maria, que ridículo! Por que não quer mais a minha amizade? Esses caras começam a namorar e excluem todas as minas da lista, né? Mas fala sério, nunca nem rolou nada entre nós. Será que foi depois da eleição? Comprei muita briga, né? Também andei postando uns “Fora, Temer”. Ele não deve ter gostado, julgando pelas postagens mais recentes que tou vendo aqui. Mas pera aí! Ainda temos dois amigos em comum!!! Como assim? Esse amigo em comum aqui posta mais “Fora, Temer” do que eu! Então nem deve ser isso, se eles continuam amigos… e eu tenho certeza de que eles nunca mais se viram também, afinal, eu que era a mais próxima! Bom, já foi. Próximo.

Sicrano? Porra, até você? Mas o que foi que eu fiz agora??? Esse aí é amigo da família. Me viu crescer! Gente, mas eu curtia tudo o que ele postava! Pensando bem, é mesmo… nunca mais tinha aparecido coisa dele na minha linha do tempo. Deve ter excluído sem querer… apertou coisa que não devia porque tava sem óculos, velho, né, não enxerga; não deve saber mexer direito no celular. Não… aí também não! Não é tão fácil assim excluir uma pessoa “sem querer”! Caramba, eu tou em choque. Bom, vou superar. Próximo.

Vixe, essa aí eu nem sei quem é… Próximo.

Esse não lembro também. Próximo.

Hum, da faculdade. Nem lembrava que existia mais… Acho que eu também te excluiria, amigo. Próximo.

Ih, esse aí vinha todo cheio de papo, conheci na Vila Madalena, amigo de amigo. Durou duas semanas, né? Viu que eu não ia dar bola pra ele e já desistiu e desfez a amizade… Faz parte. Próximo.

Eita! Esse aí melhor nem comentar. Vai tarde. Não quero gente falsa no meu Facebook, mesmo… Me fez um favor! Próximo!

Esse é gringo. Nem entende nada do que eu escrevo mesmo. Tá justificado. Te perdoo. Próximo.

Opa, esse aí é melhor esquecer mesmo… Próximo.

Todo o processo durou quinze, vinte minutos. Abri uma aba para cada ex-amigo e dei aquela fuçada básica, como quem vê alguém pela última vez. Mudou de emprego. Pintou o cabelo ontem. Se separou? Saiu de São Paulo. Defendeu a tese em março. Viajou pro Nordeste. Hashtags. Teve um filho. Fez estrogonofe sábado. Se assumiu. Tatuou. O cachorro morreu. Fez textão.

E a vida dessas pessoas continuou. Mesmo sem mim, olha que coisa! E aos poucos substituímos o nosso “tem notícias do Fulano?” por uma bisbilhotada básica no perfil de cada um.

Fazer uma limpa na lista de amigos virtuais não deve ser fácil. E não é fácil também ver que alguém com quem você não se incomodava ou até admirava não quis mais ser seu “amigo”, do dia para a noite, na surdina.

Tentando entender a lógica de alguém que te exclui do Facebook, acredito que existam alguns motivos principais para a exclusão: falta de afinidade; vocês não conversavam mais; não gosta da sua opinião; inveja; fofoca; encheu o saco; terminou o namoro e não está preparado para ver o ex todo dia circulando pela sua linha do tempo.

E assim nós fazemos do Facebook o nosso mundo ideal, o que pode ser positivo, mas há muita coisa negativa nesse processo. Na “vida real”, não somos obrigados a aturar um parente chato no Natal? A ouvir discurso radical do amigo do amigo na mesa do bar? A não concordar com a visão política do seu melhor amigo, mas ouvir, argumentar e respeitar?

Então, por que será que nas redes sociais nós não conseguimos conviver com a diferença? Ou, pelo menos, cortar relações, mas não depois de uma conversa, uma explicação? Ou não? Será esse, então, o caminho certo? Se já sou obrigada a engolir tantas inconveniências na rua, em casa, no trabalho, tenho o direito de construir a minha paz no meu espaço virtual e, pelo menos lá, estar cercada por pessoas queridas.

Como ter certeza?

Mas não há dúvida de que é muito fácil desfazer uma amizade no Facebook.

Clica no nome da pessoa. Vai na opção “Amigos”. Aperta “desfazer amizade”.

Amizade desfeita.

E pode ser aplicada a qualquer pessoa, em qualquer ocasião. Brigou com o namorado? Desfaz a amizade. É a resposta virtual do “Saia daqui, nunca mais quero te ver”, mas que em duas horas já estão lá de novo, amigos. Mais fácil do que na época da escola que a gente tinha que ficar de mal, virar a cara, trocar de lugar no recreio.

A gente se apega a cada coisa.

No fundo, no fundo… a gente só quer like.

Um conselho, então? Se me permitir, sugiro: faxina o seu Face. Mas vai nas pessoas que você mal conversa e veja tudo o que ela tem de positivo para trocar com você. Manda um oi, quanto tempo, vamos tomar um café? Mas toma mesmo. Começa seu ano assim.

Já aconteceu com você de estar passando por um problema e de repente alguém que você não esperava te dar o maior apoio do universo? Talvez as redes sociais estejam aí para isso. Mas é apenas uma suposição.

E é isso aí. Vida que segue. E pode surpreender.

 

Imagem: Marie Claire

Um comentário para “Ex-amigo”

  1. iThais Polimen

    iThais Polimen

    Eita! Parece até que fui eu que escrevi essa crônica. Amei! hahaha!

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