Expresso do futuro 2: Histórias de trilhos opostos

No trem, um dia nunca é igual ao outro. Sempre há pessoas diferentes, com histórias diferentes, mas que se cruzam nas estações. Enquanto o trem segue o seu destino, as pessoas interagem. Ora entre elas, ora com o ambiente. Algumas conversam com amigos. Algumas lêem histórias de outras vidas. Tem sempre alguém que aproveita o tempo para recuperar o sono perdido e outro que apenas observa a paisagem.
Ela tinha apenas 3 anos, gaúcha da capital, Porto Alegre, linda. Seu nome, Letícia. Era a primeira vez que andava de trem. Aquilo tudo, para ela, era novidade. Aquele momento, único. Observava tudo. E, pela janela, via a vida além do trem. Carros passando em sentido contrário. Pessoas em ritmo acelerado. Na sua inocência de criança, andar de trem era como uma brincadeira.
A espera agora nas plataformas das zonas oeste e sul de São Paulo é mais agradável, pois os usuários podem assistir à TV Trem e conhecer um pouco sobre alguns bairros pelos quais passam diariamente. As estações parecem pertencer a mundos diferentes. A simplicidade de algumas contrasta com o glamour de outras.
O trem tem como finalidade exclusiva o transporte de seus passageiros, mas pode ser, também, um bom negócio, para não dizer um meio de sobrevivência. Driblando a fiscalização, vende-se de tudo no trem. Dia e noite, lá estão os vendedores de bala, chocolate, chiclete, salgadinho e, até mesmo, há quem venda walkman, pilha, alicate, cortador de unha, rádio-relógio e por aí vai.
Algumas pessoas preferem apreciar a paisagem da janela lateral, enquanto escutam música clássica. Música clássica? Sim. É possível ouvir Mozart no trem. Através das janelas, o mundo lá fora. Arranha-céus imponentes. Trânsito caótico. Um rio, o Pinheiros, que dizem sem vida, mas, de repente, eis que surge uma capivara à sua margem.
Andar de trem, no horário de pico, é uma aventura. Não é preciso esforço nenhum para entrar. Basta deixar-se levar. O corpo vai para um lado, a bolsa vai para o outro, mas, no final, se reencontram. O pior dia para andar de trem é o de chuva. Com o entra-e-sai nas estações, logo o trem está todo molhado, e o cheiro não é dos mais agradáveis. Mas, nesse caso, a situação ainda é melhor, se comparada àquela de quando o trem pára no meio do caminho, entre uma estação e outra. Não há o que fazer, senão esperar.
Agora o melhor dia para andar de trem é sexta-feira. Sobretudo porque o fim de semana está chegando e é dia de receber notícias com o Jornal do Trem. No trem, por mais lotado que esteja, sempre há espaço para mais um, mais uma história. Aliás, história é o que não falta. E, se tem algo que se compartilha no trem, são histórias de vida pessoal e profissional. Pessoas com dificuldades financeiras e deficiências físicas diariamente estão de passagem pelos trens, contando suas histórias e contando com a solidariedade do próximo. Assim, aqueles que pouco têm ajudam os que nada têm.
Sobre os trilhos, destinos se encontram. Se alguém passar da estação, é só descer para a plataforma e retornar com o trem que segue no sentido contrário. Todavia, só perde o trem ou a estação quem fica pensando na vida, pois o maquinista constantemente informa as estações e faz as recomendações necessárias para a saída dos passageiros.
Dia desses, um homem iniciou conversa comigo na estação Morumbi. Logo percebi, pelo seu sotaque, que não era brasileiro. Ao entrar no trem, sentamos em lugares não tão próximos, o que nos impediu de levar a conversa adiante. Mas o destino providenciou um reencontro. No dia seguinte, perto do mesmo horário, mas em outra estação. Desta vez, na estação Berrini. Eu já estava no trem, quando a porta se abriu e entrou o tal homem, que prontamente me reconheceu, cumprimentou-me e sentou-se ao meu lado, retomando a conversa interrompida no dia anterior. O curioso é que o trem tem vários vagões, e ele entrou exatamente no vagão em que eu estava.
Sentado ao meu lado, o homem dizia que não agüentava mais a vida que levava. Todos os dias, saía muito cedo de casa e retornava muito tarde. Perguntou se eu também voltava do trabalho e o que fazia. Respondi e, então, perguntei. Era professor particular de espanhol em empresas. Nascera no Peru e estava no Brasil havia cinco anos. No passado, foi casado com uma inglesa e, por causa disso, conhecia outros países e culturas, uma vez que viajavam sempre, inclusive de trem. Porém, para ele, viajar de trem, nos outros países, era uma situação bem distinta da situação daqui, no Brasil. As pessoas, lá, não eram tão apressadas quanto cá.
E, então, revelou: além de professor, era escritor, também. Gostava de escrever e, mesmo muito cansado, naquela noite ainda escreveria mais um capítulo de seu livro. Quando percebi, o trem já estava na estação em que o homem desceria. E, na correria, ainda deu tempo para que nos apresentássemos. Seu nome, Miguel.
Nossos trens partem e nossas histórias seguem. Assim são alguns encontros, passageiros. Ali, no trem, todos estão de passagem e uma vez ou outra se reencontram. Enquanto o trem segue o seu destino, observo as pessoas. Seus gestos e suas atitudes. No semblante, o pensamento parece estar bem distante. Meus pensamentos se perdem no tempo, também. Quantas histórias de vida. Quantas vidas anônimas.
Após partir da estação Osasco, na Grande São Paulo, às 10h, passar por dez estações na linha Esmeralda da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), finalmente desço do trem, trinta minutos depois, na estação Morumbi, e sigo até o meu trabalho. 
Dois mundos num mesmo dia. Duas vivências completamente opostas. Mundos que se desconhecem. De um lado, pessoas muito simples e humildes, que utilizam o trem para chegar a seus destinos de trabalho. Um mundo de incertezas, impossibilidades, limitações. De outro lado, pessoas muito ricas, clientes da empresa onde trabalho, que fazem do quarteirão em frente um verdadeiro salão de carros importados. Um mundo de certezas, possibilidades, oportunidades, conquistas.
 
É o momento de adentrar esse outro mundo. Aqui, vidas não tão anônimas. Algumas até bem conhecidas. Pessoas comuns, mas nem tanto, em busca de conhecimento e reconhecimento. Com seus carros blindados, desfilam pela região, um espaço público que mais parece privado. Privado das necessidades alheias. Privado de um mundo que desconhecem.
 
E, pela margem do rio, posso ver de longe, o trem segue o seu caminho.
 
 Confira também o texto Expresso do futuro: O trem do século 21, de Alessandro Buzo.

15 comentários para “Expresso do futuro 2: Histórias de trilhos opostos”

  1. Viviane Martoni

    Parabéns!!!
    Adorei!!! Parabéns pelo seu trabalho.Qual a sua próxima matéria? Será o reencontro com o Miguel? Vamos aguardar!!!
    Sucesso!!
    viviane martoni

  2. Vitor

    Parabéns!!!
    Grande ëstréia" no jornalismo. Continue trilhando por esse caminho. Mesmo que de vez em quando encontre o trem lotado, sempre há espaço para mais alguém. Foi voçê quem escreveu… Então, ocupe esse espaço.
    Sucesso!!!!

  3. Roberto Valle Fernandes

    História de Trilhos Opostos
    Andréia ,
    Parabéns !!!
    Excelente texto !
    Espero que não pare por aí .
    Sucesso !!
    Roberto Valle Fernandes
    [email protected]

  4. Hélio Vieira de Moraes (Pai da

    Parabéns Andréia dos "Passageiros deste
    Andréia,
    Parabéns pelo trabalho. Relata exatamente o que sentimos quando estamos sentados e em pé em um vagão do trem. Álias, fazendo um trocadilho, o nome deveria ser "Cheião" invés de "vagão". Quem ler a tua matéria saberá o porquê.

  5. Wagner Veillard

    Também sou passageiro deste trem!
    Andréia, gostei muito deste seu relato: sensível e necessário. Espero que você continue ouvindo – e compartilhando – muitas estórias conosco.

  6. Fátima Morais

    Parabéns e muito sucesso!
    Andréia, parabéns pela sua estréia! Adorei, em cada passagem do seu relato, me senti também "viajando neste trêm" Obrigada por este passeio ….

  7. luciana maffra

    Parabens! Muito sensível…
    As vezes a gente não olha para o que está debaixo dos nossos olhos

  8. Angela

    Fique atenta!!!
    Minha história com o João começou em um ônibus… Esse Miguel…rs!!!
    Muito legal sua matéria!!!

    BBjs!

  9. valdeci Cézar

    Realidades do cotidiano
    Muito boa a matéria Andréia.

  10. Sueli Janotti

    EXCELENTE MATÉRIA!!!
    Andréia, muito interessante a sua matéria!!!
    Vc conseguiu mostrar como vivemos em um mundo cheio de realidades diversas e diferenças tão extremas.
    Parabéns e boa sorte!!!!!

  11. Selma

    Curiosidade!
    Andreía,
    Já estou querendo saber qual será a próxima história. Será que o Miguel entrará de novo no vagão?
    10.06.2008 – Selma Silva

  12. David Medeiros

    Segue o trem…
    Andréia
    Um primeiro reflexo da sua caminhada nos trilhos.
    Parabéns… siga permitindo-ser vagão para histórias-palavras.

    Um beijo do amigo e admirador
    David

  13. Juliana Barone

    Otima matéria!!
    Parabéns!

  14. Valéria Araújo

    Parabéns Andréia, adorei a matéria, espero ler muitas outras.

  15. Alexandre Americano

    Parabens pela matéria!!!
    Ótima matéria Andréia, condiz com a realidade.
    Parabéns

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