Faces da felicidade

Por Redação Jornalirismo

 

A gente se sente feliz porque tem ou porque é? Porque adquire ou porque distribui? A felicidade, o caráter e o sucesso de alguém se medem pelo número de bens ou pelo vulto da conta-corrente? Hum…

As questões que inquietavam o repórter fotográfico Henrique Manreza se transformaram numa busca pelo sentido, ou pelos rumos da felicidade: “Projeto Rumos – A Natureza da Felicidade”. Ensaio fotográfico realizado em 32 cidades da Região Norte do Brasil, durante viagem de quatro meses em 2012.

A gente simples da região se mostra muito à vontade e prestigiada diante da lente generosa e atenta de Manreza, sugerindo que a felicidade está situada muito além de uma loja de departamentos e do consumo de bens. “Hoje, depois de ter passado por essa experiência, percebo que muito da felicidade que encontrei naquela região está ligada ao altruísmo e à forma como as pessoas se relacionam com a comunidade”, defende o fotógrafo, na entrevista que você vai ler a seguir.

Henrique Manreza já fotografou para algumas das principais publicações do Brasil, como os jornais Folha de S.Paulo e Brasil Econômico. Hoje assume a delícia e o risco de ser feliz à sua maneira, o que significa compromisso, entrega e muita responsabilidade.

O “Projeto Rumos – A Natureza da Felicidade” está se transformando em exposição em São Paulo. Para isso, uma campanha para arrecadar fundos, com opções para todos os perfis de bolso (a partir de R$ 20,00), está em andamento na plataforma Kickante (veja aqui). Quem quiser pode contribuir 😉

Confira agora a entrevista com o fotógrafo e uma seleção de 21 fotos do ensaio sobre a felicidade. Para a gente já se sentir mais feliz.

Jornalirismo – Por que a escolha da Região Norte para a pesquisa fotográfica do tema da felicidade, o “Projeto Rumos – A Natureza da Felicidade”? O que essa região tem de especial, aos seus olhos? Qual foi o seu itinerário?

Henrique Manreza – Escolhi o Norte porque, todas as vezes que fui a trabalho, lá me receberam da melhor forma possível. Mesmo tendo uma vida simples, as pessoas mantinham o carinho e um sorriso genuíno no rosto. Quando tive a ideia de “fotografar a felicidade”, não tive dúvidas de que começaria por lá. Como uma fase dois do projeto, pretendo ir para o Nordeste brasileiro. Comecei a viagem em uma expedição de oito dias ao Monte Roraima, lá foi meu marco zero. A partir de lá, conheci 32 cidades. Primeiro Roraima, depois Amazonas, chegando a Benjamin Constant – que faz tríplice fronteira, com o Peru e com a Colômbia –, voltei de barco e entrei no Pará, Ilha do Marajó e terminei pelo Amapá. O último Estado da viagem em que estive foi o Maranhão. Por ser Nordeste, as fotos de lá ficarão para a fase dois do projeto.

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Jornalirismo – O tema felicidade surgiu antes, durante ou depois da viagem? O que você descobriu sobre a felicidade durante suas andanças pelo norte do país? O que é a felicidade para você?

Henrique Manreza – O tema surgiu antes. Eu sempre fiz trabalho social e me perguntava se a felicidade estava ligada ao que somos ou ao que possuímos. Foi isso que de certa forma me impulsionou. Eu olhava para São Paulo e via a cidade sufocar as pessoas, impor uma vida competitiva, consumista e individualista, sem espaço para poder ser feliz. Enquanto isso, pessoas simples, em outras regiões, carregavam sorrisos para onde quer que fossem. Hoje, depois de ter passado por essa experiência, percebo que muito da felicidade que encontrei naquela região está ligada ao altruísmo e à forma como as pessoas se relacionam com a comunidade. Para mim, a felicidade está ligada a muitos fatores, e neste ponto consigo me identificar com o que falei antes. Um deles é, definitivamente, a forma como interajo com as pessoas, me cercar de pessoas boas, com vibrações de vida similares. Outra forma é, dentro do possível, sempre tentar ajudar as pessoas. Existem aqueles que relacionam a felicidade sempre a dinheiro. Creio que, muitas vezes, uma palavra ou dar atenção ao outro faz toda a diferença. A felicidade, para mim, também é estar conectado com a natureza. Me faz um bem lascado isso. É uma pergunta complexa, mas o fato de toda noite poder dormir com a consciência limpa também ajuda demais a felicidade. A minha parte eu tenho tentado fazer.

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Jornalirismo – Você se tornou um fotógrafo reconhecido por fazer retratos. O que te motiva a esse tipo de fotografia? O que você pensa da profusão de imagens de autorretrato, as selfies?

Henrique Manreza – Comecei pelo fotojornalismo e acabei me especializando em retratos. Acredito que isso aconteceu de forma natural, porque minha paixão pela fotografia está ligada ao fato de contar histórias. Me encanta essa conexão com o ser humano. A fotografia digital veio para revolucionar, mas trouxe junto algumas mudanças de comportamento. Acho legal a possibilidade de termos um registro da nossa história, o problema se dá quando deixamos de viver a vida porque estamos ocupados demais tirando fotos de nós mesmos. Um exemplo: se locomover até um museu, pagar entrada, tirar a tal selfie com um quadro ao fundo e depois nem sequer virar para apreciá-lo. Não faz muito sentido.

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Jornalirismo – Como se estabeleceu a relação, o diálogo com seus companheiros de estrada, os seus fotografados? Que sentimento, ou modo de atuar, foi decisivo na hora do momento dado, como dizia o fotógrafo Henri Cartier-Bresson?

Henrique Manreza – Na hora de fotografar eu sempre tenho respeito pelo outro e mantenho meu sorriso. Acho que isso abre muitas portas. É impressionante como colocamos empecilhos para abordar quem não conhecemos, esperamos sempre o pior. A verdade é que, se você é simpático, honesto e tranquilo, ao iniciar uma conversa, muitas barreiras se quebram. É preciso criar um elo de confiança, caso contrário, a foto fica oca, roubada, e não é isso o que me interessa na fotografia. Gosto da relação humana que se forma entre o fotógrafo e o fotografado.

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Jornalirismo – Qual o lugar, e a importância, da fotografia documental no mundo de hoje? Quem foram seus mestres nessa arte?

Henrique Manreza – Vejo um campo vasto para a fotografia documental, eu mesmo estou aprendendo muito recentemente. Neste primeiro projeto eu me financiei para realizá-lo. Vejo hoje que para viver de fotografia documental, muito mais do que um bom fotógrafo, você precisa ser um bom gestor, pois são inúmeras as variáveis para realmente tirar um projeto do papel e muitos fotógrafos não estão dispostos a isso ou nem sabem por onde começar. A fotografia documental vem num contraponto da overdose de conteúdo que vivemos com a internet. É um ponto de vista imersivo registrar mudanças, algo elaborado para fazer as pessoas refletirem. No caso do Projeto Rumos, é: o que, de fato, eleva nosso potencial de felicidade? A felicidade está ligada ao que somos ou ao que temos? Acho que é impossível não citar o Sebastião Salgado, mas a lista vai muito além: André Cypriano, André François, Luiz Braga, Érico Hiller, Araquém Alcântara, Christian Cravo, isso me atentando somente ao Brasil, a lista é longa.

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Jornalirismo – Qual seria teu maior ensinamento para quem quer seguir o caminho da fotografia documental, hoje?

Henrique Manreza – É algo que digo para mim todos os dias: não desista. Se você tem uma ideia em que acredite, metade do caminho já foi percorrido.

 

Um comentário para “Faces da felicidade”

  1. Vasco Santos

    Amei a matéria. Trata de um assunto sobre o qual sempre me preocupei, motivo inclusive de um um texto a ser submetido por mim ao site. Parabéns.

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